
O engajamento maciço dos brasileiros com a seleção de Cabo Verde vai além do esporte e revela a força da ancestralidade diaspórica frente à crescente artificialidade mercadológica do futebol moderno
1.
Na primeira semana da Copa do Mundo da FIFA, nos deparamos com a seleção de Cabo Verde e, em especial, seu goleiro Josimar José Évora Dias, mais conhecido como Vozinha, que se tornou um dos fenômenos mais marcantes do torneio. Após a histórica atuação no empate sem gols contra a Espanha no dia 15 deste mês, o goleiro cabo-verdiano de 40 anos, fez sete defesas e conquistou rapidamente a simpatia do público brasileiro, que mobilizou uma verdadeira campanha de apoio nas redes sociais. Em poucos dias, seu perfil no Instagram saltou de cerca de 50 mil seguidores para mais de 10 milhões, impulsionado principalmente pelo engajamento de torcedores brasileiros.
O fenômeno Vozinha revela aspectos importantes das formas de identificação construídas entre brasileiros, até mesmo aqueles que não gostam de futebol, e seleções africanas em competições internacionais. A acolhida recebida por Cabo Verde não pode ser explicada apenas pela admiração por uma equipe considerada azarão diante de uma potência do futebol mundial. Em um país profundamente marcado pela diáspora africana, a simpatia por atletas e seleções do continente africano frequentemente mobiliza sentimentos de pertencimento, memória e reconhecimento histórico que podem ser compreendidos a partir da nossa ancestralidade.
Talvez parte da comoção provocada por Vozinha decorra justamente daquilo que muitos brasileiros sentem faltar na atual seleção nacional: a capacidade de despertar encantamento. Enquanto a equipe brasileira frequentemente aparece associada a estratégias de marketing, discursos padronizados e uma relação distante com a torcida, a seleção cabo-verdiana apresentou ao público uma narrativa de autenticidade, superação e emoção. O goleiro de 40 anos, que desafia os limites da idade imposta pelo mundo dos esportes, e enfrenta uma potência mundial com coragem no seu jogo de estreia em copas do mundo, tornou-se, para muitos, um símbolo de um futebol vivido com paixão e humanidade, valores que ocupam lugar central na memória afetiva do torcedor brasileiro.
Esse tipo de identificação não é recente. Em diferentes edições da Copa do Mundo, seleções africanas despertaram forte simpatia entre os torcedores brasileiros. A campanha de Camarões em 1990, na Itália, liderada por Roger Milla, conquistou admiradores ao desafiar as hierarquias tradicionais do futebol mundial e se tornar a primeira equipe africana a alcançar as quartas de final. De modo semelhante, a seleção do Senegal, em 2002, tornou-se uma das favoritas do público brasileiro após derrotar a então campeã mundial, a França, na partida de abertura e avançar até as quartas de final. Em ambos os casos, a admiração pela superação de equipes oriundas de países historicamente submetidos ao colonialismo articulou-se a sentimentos de proximidade cultural e identificação simbólica presentes na sociedade brasileira.
2.
A trajetória da República Democrática do Congo na Copa Africana de Nações produziu uma imagem bastante emblemática. O torcedor Michel Kuka Mboladinga chamou a atenção da imprensa internacional ao permanecer durante os 90 minutos da partida vestido com as cores nacionais, com o braço erguido e praticamente imóvel nas arquibancadas, reproduzindo a célebre estátua de Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e primeiro-ministro do país, assassinado em 1961 em meio às disputas políticas que marcaram o violento processo de descolonização africana.
A repercussão da homenagem foi tão significativa que Michel Kuka Mboladinga foi incorporado à delegação congolesa e convocado com a seleção para a Copa, embora não tenha conseguido estar presente na partida de estreia do seu time. A expectativa em torno da sua presença evidencia como o futebol pode se transformar em um poderoso espaço de atualização da memória histórica, permitindo que símbolos, personagens e lutas do passado sejam ressignificados e reapropriados no presente.
Nesse contexto, a torcida ultrapassa os limites do espetáculo esportivo e converte-se em um ato de afirmação identitária, articulando esporte, nacionalismo e memória coletiva. A homenagem a Patrice Lumumba demonstra como as lembranças das lutas anticoloniais continuam a desempenhar papel fundamental na construção das identidades africanas contemporâneas, sendo mobilizadas inclusive em eventos esportivos de alcance global.
Nesse sentido, a ancestralidade não se restringe à ideia de descendência biológica. Refere-se a um conjunto de heranças culturais, experiências históricas compartilhadas e vínculos simbólicos que ultrapassam as fronteiras e nos conectam a um passado comum. A forte presença africana na formação da sociedade brasileira, tão marcante na língua, na religiosidade, na culinária, na música e em inúmeras manifestações culturais, contribui para que muitos brasileiros reconheçam nas trajetórias de equipes africanas elementos de uma história comum.
As reflexões feitas por intelectuais como Aimé Césaire e Frantz Fanon acerca da experiência colonial e dos processos de construção identitária no mundo afrodiaspórico nos ajudam a compreender esse fenômeno que se repete a cada Copa do Mundo. Aimé Césaire defendia a valorização das heranças culturais africanas e a recuperação de uma memória histórica compartilhada como formas de resistência à desumanização produzida pelo colonialismo. Para o martinicano, a afirmação da identidade negra constituía um processo de reconquista da dignidade histórica dos povos submetidos à dominação colonial e à negação de suas culturas.
Frantz Fanon, por sua vez, enfatizou os efeitos psicológicos, sociais e políticos do colonialismo sobre os sujeitos colonizados, destacando a importância do reconhecimento e da afirmação cultural nos processos de emancipação. Em suas análises, a recuperação da autoestima coletiva e da consciência histórica aparece como elemento fundamental para a superação das hierarquias produzidas pela ordem colonial.
Sob essa perspectiva, o sucesso de seleções africanas em competições globais pode ser interpretado como um momento simbólico de visibilidade e reconhecimento internacional de sociedades que, durante séculos, foram representadas por discursos de inferiorização e marginalidade.
O entusiasmo despertado por Vozinha e pela seleção cabo-verdiana durante a Copa de 2026 pode, assim, ser compreendido como a manifestação desses laços históricos e culturais. Mais do que uma simples torcida por uma equipe considerada surpreendente, trata-se de um fenômeno que mobiliza memórias da diáspora, sentimentos de ancestralidade e formas de solidariedade simbólica construídas ao longo de séculos de conexões entre África e Brasil.
Nesse processo, o futebol converte-se em um espaço privilegiado de expressão de identidades, afetos e reconhecimentos mútuos, revelando a permanência de vínculos históricos que continuam a aproximar brasileiros e africanos no imaginário da população.
OLIVIA DA ROCHA ROBBA” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Olivia da Rocha Robba é doutoranda em história social na Universidade Federal Fluminense (UFF).