
“Uma nação incapaz de identificar uma ameaça real. O homem impedido de entrar não é um dirigente hostil, mas um árbitro de futebol”
A ideia de “fair play” (que devemos à cultura britânica) não é apenas uma ideia desportiva, mas uma das mais belas e importantes ideias políticas – a de conviver (e competir) uns com os outros com base em regras socias preestabelecidas e aplicadas por juízes imparciais que estão acima das partes. O americano John Rawls, talvez um dos mais importantes filósofos políticos do século vinte, tinha essa ideia em mente quando falava de “justice as fairness”, defendendo que as regras sociais serão justas se forem definidas por pessoas que não conheçam antecipadamente o seu lugar na sociedade — ricos ou pobres, fortes ou fracos, privilegiados ou desfavorecidos. A este exercício chamou o “véu da ignorância”.
Seja como for, a ideia simples de competir lealmente com regras previamente definidas e devidamente escritas, fez nascer o desporto universal como ideal que, em vários momentos, foi capaz de suplantar a fidelidade à classe e à nação. Competir lealmente – eis tudo. E um tudo que, sendo quase nada, torna absolutamente insuportável o que aconteceu ao árbitro somali Omar Artan.
A FIFA escolheu-o como árbitro. Possuía visto válido. Cumpria os requisitos. Fez uma carreira bem-sucedida e era um dos melhores árbitros africanos. Os Estados Unidos impediram-no de entrar no país. Não por incompetência. Não por violação das regras. Não por qualquer comportamento censurável. Foi afastado por uma nação de brutos que não quis cumprir as regras combinadas quando aceitou organizar o campeonato de futebol. Para o desporto, o significado é devastador. Para o prestígio americano pior ainda.
Durante quase toda a minha vida os Estados Unidos sempre cultivaram uma ideia de si próprios como nação aberta ao talento, à excelência e à mobilidade internacional. A sua influência global resultou, em grande medida, do soft power cultural que atraia pessoas e oferecia oportunidades. Na base da Estátua da Liberdade estão os versos de Emma Lazarus – “Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres (…) / Enviai-me esses desamparados, varridos pela tempestade/ Eu ergo a minha lâmpada junto à porta
dourada.” Estes versos inspiraram gerações inteiras – a América segura de si própria.
Este caso do árbitro somali revela como o mundo mudou. A América é hoje uma potência assombrada pela suspeita e dominada pela lógica burocrática da exclusão. Uma nação incapaz de identificar uma ameaça real. O homem impedido de entrar nos Estados Unidos não é um dirigente político hostil, um propagandista extremista ou um agente de uma potência adversária. É um árbitro de futebol.
As grandes nações demonstram confiança. As nações inseguras erguem barreiras. As grandes nações abrem-se ao talento. As nações receosas veem riscos em toda a parte. Ao impedir a entrada de Omar Artan, os Estados Unidos humilharam um árbitro somali, diminuíram a sua credibilidade internacional e – pior de tudo – retiraram um pouco de beleza ao mundial de futebol. Há decisões que protegem um país e há decisões que tristemente revelam os seus medos. Esta pertence à segunda categoria.
JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS ” ( PORTUGAL / BRASIL)