
A monumental História de Portugal é, indelevelmente, marcada, nos seus primeiros 800 anos, por grandes monarcas. Desde Dom Afonso Henriques (1109 – 1185), O Conquistador, pertencente à linhagem dos Borgonha, fundador da Pátria, Dom Dinis (1261 – 1325), O Lavrador, e Dom João I (1357 – 1433), O Mestre Avis, instituidor da dinastia do mesmo nome. A Dom Duarte (1391 – 1438), O Eloquente, Afonso V (1432 – 1481), O Africano, Dom João II (1455 – 1495), O Príncipe Perfeito, Dom Manuel I (1469 – 1521), O Bem-Aventurado, Dom Sebastião (1554 – 1578), O Desejado, Dom João VI (1767 – 1826), O Clemente, da Casa de Bragança, e Dom Pedro (1798 – 1834), que, cá, é I, com o título de O Libertador, e, na Metrópole, é IV, sob o epíteto de O Rei Soldado.
O início do século XX foi dolorosamente assinalado em Portugal pelo assassinato do Rei Dom Carlos I (1863 – 1908), O Diplomata – episódio conhecido como o “Regicídio do Terreiro do Paço”, ocorrido em 1908, no centro da capital, perpetrado por terroristas anarquistas. A República se estabeleceria em 1910, e teria como protagonistas, inegavelmente, dois vultos políticos. O primeiro foi António de Oliveira Salazar (1889 – 1970), nascido em Santa Comba Dão, na Província da Beira Alta, no Distrito da legendária Viseu, que há exatamente 100 anos, em 1926, passou a gerir as difíceis finanças do Império lusitano, tornando-se, a partir de 1932, chefe do Governo, implantando o regime ditatorial do ‘Estado Novo’.
O segundo foi o socialista lisboeta Mário Soares (1924 – 2017), que presidiu o País, democraticamente, de 1986 a 1996, conduzindo Portugal à União Europeia – apesar de sofrer dura oposição dos comunistas, profundamente stalinistas até hoje, bem como das chamadas correntes ‘progressistas’ das Forças Armadas e, também, de ideologias de centro-direita com perfil nacionalista.

Soares, com efeito, foi a liderança a despontar, após a Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, evitando que Portugal se transformasse em uma nova ‘republiqueta’ comunista, vassala de Moscou, como Cuba, Bulgária e as ex-colônias lusitanas nas Áfricas, ou terceiro-mundista, a exemplo do nacional-islamismo da Argélia, do Egito nasserista e da Índia de Indira Gandhi (1917 – 1984). Bateu-se em todo o planeta para ‘salvar’ Portugal do extremismo. Já Salazar, ao contrário de Soares, para além de ter uma visão política completamente oposta, detestava viajar.
Solteirão, vivia sozinho, austeramente, nos limites do Palácio de São Bento, no Bairro da Estrela, sob os cuidados de uma severa governanta, Dona Maria de Jesus Caetano Freire (1894 – 1981), natural da região de Coimbra, e a proteção espiritual do Patriarca de Lisboa, o Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira (1888 – 1977), nascido em Vila Nova do Famalicão, considerado um expoente do conservadorismo – embora tenha acatado e colocado em marcha as inovações definidas pela Igreja durante o Concílio do Vaticano II (1962 – 1965).
Como muitos portugueses, foi batizado António, homenageando o Padroeiro de Lisboa, Santo António (1195 – 1231), tinha um sobrenome, tipicamente, Cristão Novo, Oliveira, e o outro, espanhol basco, Salazar. Ficou apenas 13 dias no governo em 1926. Mas voltou em 1928. Teve a desafiadora missão, quase no final da vida, em plena ‘Guerra Fria’, sendo membro fundador da OTAN, de impedir que os territórios ultramarinos caíssem em poder da União Soviética. Morreu antes do encerramento dos conflitos – que só terminariam há 52 anos.
Salazar, como Soares, provavelmente, serão sempre lembrados na História de Portugal. Tal qual seus antecessores monarcas. Os dois personagens ainda estão fortemente presentes no cotidiano político do País.
ALBINO CASTRO “PORTUGAL EM FOCO” (BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador