
Maria Cecília de Oliveira Adão esmiuçou os estudos a respeito do atentado e apresentou 32 sinais de falsificação da perícia da época
No dia 29 de maio passado, no salão da Procuradoria Regional da República, houve o evento que anunciou a conclusão da Comissão de Mortos e Desaparecidos, sobre a morte não natural, violenta de Juscelino Kubitscheck, causada pelo Estado brasileiro.

Por 6 votos a favor e 1 abstenção, a Comissão aprovou as conclusões do relatório.
Na mesa, a presidente da Comissão, procuradora Eugênia Gonzaga, a deputada federal Natália Bonavides (neta de um deputado estadual cassado pela ditadura) e a historiadora Maria Cecília de Oliveira Adão.Play Video
Coube a Maria Cecília esmiuçar os estudos a respeito do atentado e apresentar 32 sinais de falsificação da perícia feita na época.
A seguir, uma síntese de sua apresentação:
Resumo Estruturado da Reunião — 29 de Maio de 2026
1. Contexto Geral
• Reunião realizada em: 29 de maio de 2026.
• Tema central: Análise detalhada das circunstâncias da morte de Juscelino Kubitschek (JK), ex-presidente do Brasil, com ênfase nas evidências de que sua morte teria sido provocada por ação do Estado brasileiro no contexto da Ditadura Militar e da Operação Condor.
• Base documental: Extenso uso de depoimentos, laudos oficiais, jornais, documentos recentemente divulgados por órgãos dos EUA, e informes do Ministério Público Federal, Comitê Nacional da Verdade e outros.
2. Principais Tópicos Abordados
2.1 Perseguição e Ameaças a JK
• Contexto internacional: Relação da perseguição com a Operação Condor; contatos e cooperação entre órgãos repressivos do Cone Sul e troca de informações sobre neutralização de opositores.
• Plano Parasar: Existência documentada de planos para prisão, sequestro, e execução de opositores, incluindo o ex-presidente JK.
• Troca de correspondências: Líderes de serviços secretos do Brasil e Chile (Figueiredo e Contreras) confirmaram mútua colaboração para eliminação de obstáculos políticos.
• Depoimento de Contreras (2015): Confirmação explícita das políticas de eliminação de opositores e menção à participação ativa de Figueiredo.
• Documentos dos EUA (2014-2015): Reconhecimento internacional do papel de Figueiredo na coordenação de mortes a partir de 1974.
Detalhe: Operações Código 12
• Operações clandestinas, relatadas por diversos militares e civis, que tinham como objetivo assassinar opositores forjando acidentes.
• Casos famosos: Zuzu Angel; relatos do capitão Sérgio Carvalho, delegado Cláudio Guerra, e do almirante Aragão.
• Ligação dessas práticas com tentativas prévias de atentados contra JK antes de sua morte.
2.2 Advertências e Anúncios Antecipados
• Avisos recebidos por JK:
• 17 de fevereiro de 1976: Visita de Roberto Marinho, que leva mensagem de Armando Falcão alertando sobre “coisas dramáticas” planejadas pelos militares contra JK.
• Recorrência de boatos de morte antes do evento fatal, inclusive noticiados pela imprensa nos dias 7 e 22 de agosto de 1976.
• Declaração da esposa, Sara Kubitschek: “Esse ano já mataram meu marido duas vezes”, sugerindo clima de constante ameaça.
• JK repetidamente anotava em seu diário tais advertências.
2.3 Movimentação Política de JK antes da Morte
• Retomada de direitos políticos em 1974 e início de articulações para voltar à vida pública.
• Eventos cruciais:
• Conversas com Ulisses Guimarães e Franco Montoro (20/08/1976).
• Reunião agendada com Adhemar de Barros para 25 de agosto de 1976, à qual não compareceu devido à morte três dias antes.
• Situação de vigilância e crescente hostilidade do regime militar.
2.4 Circunstâncias do Acidente Fatal
• Parada no Hotel Fazenda Vila Forte: Local de propriedade do brigadeiro, amigo de militares de alta patente. Hotel estava vazio e JK foi deixado sozinho.
• Relatos de possível manipulação do veículo: Motorista percebeu movimentação estranha no carro antes do acidente.
• Mudança de planos da viagem: Decisão de última hora de ir de carro em vez de avião, provavelmente para o encontro no hotel.
2.5 Atuação Repressiva Pós-Acidente
• Envolvimento de peritos comprometidos: Os mesmos do caso Zuzu Angel e outros casos de fraudes periciais durante a ditadura.
• Manipulação da cena do acidente:
• Presença extremamente rápida de policiais e agentes no local.
• Alteração da posição dos veículos no local antes do trabalho técnico.
• Saída rápida do ônibus “acusado”, liberada por policial não identificado. Constatação de que nunca houve o alegado acidente entre o ônibus e o automóvel de JK.
• Desaparecimento e destruição de evidências: Incluindo o diário de JK, que foi subtraído e utilizado para pressionar a família.
• Falta de exames toxicológicos em JK e no motorista, deixando sem resposta possível intoxicação ou envenenamento prévia ao acidente.
• Desrespeito à cadeia de custódia dos corpos e evidências.
2.6 Fraudes e Manobras de Desinformação
• Alteração de horários de óbito nos laudos (três horas após o acidente).
• Destruição e adulteração deliberada do veículo para impedir futuras perícias.
• Tentativa de suborno ao motorista do ônibus (Cometa) para que assumisse a culpa.
• Ignorância deliberada de testemunhas presenciais que contradiziam a versão oficial.
• Fabricação de avarias no automóvel (exemplo: lanterna traseira) após o acidente para criar uma narrativa específica.
• Omissões e erros técnicos propositais nos laudos e inquéritos.
• Juiz do inquérito de 1978: Recusa-se a validar provas que contrariavam as leis da física.
• Destruição de provas ao longo dos anos: Veículo desaparecido ou danificado a ponto de impossibilitar análise retroativa.
2.7 Conclusão Técnica e Política
• O relatório e a documentação agregada apontam fortemente que a morte de JK não se deu por acidente natural, mas por ação direta e consciente do Estado.
• Reconhecimento formal: Morte de JK foi violenta e resultado da perseguição sistemática do regime militar brasileiro.
• Necessidade de reclassificação jurídica da causa da morte, retificação do assento de óbito e adoção de providências administrativas com base nas resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ 601/2024).
3. Itens de Ação
• Reanálise administrativa do caso, especialmente em relação ao laudo oficial de óbito e reconhecimento de JK como vítima de assassinato de Estado.
• Retificação do assento de óbito de Juscelino Kubitschek, conforme Art. 1º e 2º da Resolução CNJ 601 de 2024.
• Adoção de demais providências administrativas e jurídicas relacionadas à reparação às vítimas do regime e à memória histórica.
• Elaboração de comunicação oficial para familiares e órgãos relevantes sobre a reclassificação do caso.
• Arquivo e divulgação apropriada do conjunto documental probatório, para garantir acesso à verdade histórica.
4. Pontos de Seguimento (Follow-up)
• Monitorar tramitação e implementação das recomendações administrativas para alteração do registro de óbito.
• Possível agendamento de novas reuniões para detalhamento de providências jurídicas, administrativas e comunicacionais.
• Análise adicional das repercussões internacionais envolvendo documentos vindos dos EUA.
• Atualização sistemática sobre o diálogo com familiares e instâncias de memória e verdade.
5. Encaminhamento Final
• Conclusão do Relatório:
• Ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima de morte não natural, fruto de ação violenta do Estado brasileiro durante a Ditadura Militar, em contexto de perseguição sistemática a opositores políticos.
• O reconhecimento dessa verdade histórica constitui reparação ética e constitucional, e é fundamental para a restituição da memória nacional e justiça às vítimas do regime autoritário.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)