
Não está em discussão a relevância política da candidatura Lula. A questão central é outra: o que esperar de um quarto governo Lula?
Antes de mais nada, é preciso reconhecer a importância da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva nas próximas eleições. Hoje, ela ainda representa a principal garantia de preservação da democracia brasileira e de contenção de qualquer projeto destrutivo associado ao bolsonarismo.

Não está em discussão, portanto, a relevância política da candidatura Lula.
A questão central é outra: o que esperar de um quarto governo Lula?Play Video
Vende-se a ideia de que, por se tratar de seu último mandato, Lula buscaria realizar um governo histórico, capaz de recolocar o Brasil no caminho da reindustrialização, da soberania tecnológica e de um novo ciclo de desenvolvimento.
É aí que surgem as dúvidas.
Com Lula, encerra-se não apenas um período do PT no poder, mas provavelmente todo o ciclo histórico da Nova República. E, se um quarto mandato terminar sendo apenas “mais do mesmo”, como foi o terceiro, a redemocratização deixará ao país um legado ambíguo:
- crescimento econômico em “voo de galinha”;
- desindustrialização acelerada;
- subordinação ao capital financeiro nacional e internacional;
- incapacidade crônica de formular um projeto estratégico de país.
Esse pessimismo decorre, em parte, do próprio estilo de gestão de Lula. Ele nunca foi um político orientado por planos estruturantes de longo prazo. Seu modelo de ação sempre esteve baseado na lógica da “entrega”: manter permanentemente algo concreto a oferecer à população.
E, por “entrega”, não se entenda visão de futuro ou transformação estrutural, mas realizações materiais e imediatas: Bolsa Família, PAC, Desenrola, programas sociais e obras públicas.
Não se trata de desprezar isso. Em um país devastado pela Operação Lava Jato, pela radicalização bolsonarista, pela corrosão institucional e pela infiltração crescente do crime organizado em estruturas do Estado, garantir governabilidade é tarefa monumental.
Mas planos nacionais de metas exigem outra lógica. Exigem prioridades rígidas, coordenação estratégica, disciplina institucional e limitação da improvisação política cotidiana.
E Lula sempre resistiu a esse tipo de amarra. É capaz de discursos sobre a importância da reindustrialização, com as terras raras, da soberania, do plano de metas. Mas apenas como argumentos de retórica, não como linhas de ação.
Um plano de metas reduziria a liberdade de acomodação política em decisões de governo — inclusive em episódios recentes, como a licitação de termelétricas conduzida pelo Ministério de Minas e Energia, claramente desenhada para beneficiar grandes grupos econômicos nacionais.
Essa resistência ao planejamento aparece em diversos momentos da trajetória dos governos petistas.
O caso da TV digital
No segundo governo Lula, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, coordenou de forma exemplar o processo de implantação do padrão brasileiro de TV digital.
Ali surgiu algo raro na história recente do país: um verdadeiro miniplano de metas tecnológico.
Discutia-se não apenas televisão, mas a construção de um ecossistema industrial avançado. Havia propostas concretas de offset tecnológico em semicondutores — isto é, utilizar as compras públicas e a implantação da nova infraestrutura digital como instrumento de desenvolvimento industrial.
A lógica era simples: se o Brasil iria adquirir tecnologia estrangeira em larga escala, deveria exigir contrapartidas estratégicas, tais como:
- instalação de fábricas no país;
- transferência de tecnologia;
- treinamento de engenheiros;
- criação de centros de pesquisa;
- fabricação local de componentes;
- licenciamento de patentes;
- parcerias com universidades;
- formação de fornecedores nacionais;
- desenvolvimento de uma cadeia produtiva própria.
Foi um dos poucos momentos em que o Brasil operou próximo da lógica adotada por Japão e Coreia do Sul: articulação entre Estado, indústria, universidades, diplomacia tecnológica e mercado consumidor.
O SBTVD não era apenas televisão digital. Envolvia:
- compressão digital;
- middleware;
- semicondutores;
- software embarcado;
- propriedade intelectual;
- indústria eletrônica;
- formação de engenharia;
- integração latino-americana.
O Ginga talvez tenha sido o maior símbolo desse esforço: o Brasil produzindo arquitetura tecnológica própria, e não apenas importando padrões estrangeiros. PUC-Rio e Universidade Federal da Paraíba criaram algo genuinamente inovador.
Havia até discussões para transformar a TV digital em plataforma de inclusão digital massiva, permitindo que televisores convencionais acessassem serviços públicos e internet.
Era uma visão estratégica.
Mas, como tantas vezes ocorre no Brasil, o processo parou na entrega inicial.
A oportunidade perdida
Os OLEDs representavam outra janela histórica.
Quem compreendeu cedo a importância dessa tecnologia conquistou posições centrais na cadeia global de displays — hoje presentes em celulares, televisores, automóveis, equipamentos médicos, sistemas militares e painéis industriais.
A Samsung Electronics construiu uma verdadeira muralha tecnológica em torno disso. A LG Display fez o mesmo.
OLED não é apenas uma tela melhor. É a porta de entrada para:
- materiais avançados;
- química fina;
- semicondutores;
- nanotecnologia;
- automação industrial;
- propriedade intelectual;
- engenharia eletrônica sofisticada.
O Brasil esteve perto de construir um embrião de visão sistêmica nessa área.
Mas o modelo político predominante encerrava o ciclo na inauguração.
Faltavam os movimentos seguintes:
- consolidar cadeias produtivas;
- proteger competências nacionais;
- financiar inovação continuamente;
- criar demanda tecnológica estatal permanente;
- internacionalizar empresas;
- sustentar o planejamento ao longo de décadas.
O padrão JK
Juscelino Kubitschek compreendia intuitivamente essa lógica. O Plano de Metas não era apenas um conjunto de obras: era uma narrativa nacional de transformação.
Curiosamente, a Ásia assimilou esse espírito de maneira mais profunda do que o próprio Brasil.
A ironia histórica é brutal: o Brasil ajudou a desenvolver um dos sistemas de TV digital mais sofisticados do mundo em desenvolvimento — e hoje importa componentes críticos até para urnas eletrônicas, telecomunicações e automóveis.
O mecanismo do offset tecnológico foi utilizado sistematicamente pela China, pela Coreia do Sul e, historicamente, até pelos Estados Unidos, sobretudo por meio de compras governamentais e da indústria de defesa.
No Brasil, porém, parte das elites econômicas passou a tratar política industrial como heresia e offset como “interferência estatal”, quando, na realidade, esse foi o mecanismo utilizado por praticamente todas as potências industriais modernas para construir soberania tecnológica.
Talvez aí resida o aspecto mais melancólico da história recente brasileira.
Não faltou inteligência técnica. Não faltaram quadros qualificados. Não faltaram oportunidades históricas.
Faltou persistência estratégica. O Brasil frequentemente monta o palco — e desmonta o cenário antes do segundo ato.
Por isso, a geração das Diretas talvez só escape da lata de lixo da história se dois movimentos ocorrerem simultaneamente:
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)