
Estamos, na verdade, contemplando o espectro insepulto de uma estrutura de poder que remonta diretamente ao golpe de 1964. A história, como sabemos, não se repete, mas frequentemente rima com um cinismo atroz
Há algo de profundamente pedagógico e, ao mesmo tempo, assombroso na maneira como o passado insiste em não passar no Brasil. Quando observamos o escândalo envolvendo o Banco Master, Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, não estamos diante de um fato isolado da crônica policial-política contemporânea. Estamos, na verdade, contemplando o espectro insepulto de uma estrutura de poder que remonta diretamente ao golpe de 1964. A história, como sabemos, não se repete, mas frequentemente rima com um cinismo atroz.
O áudio revelado pelo The Intercept Brasil, no qual o filho “01” do ex-presidente cobra milhões de reais do banqueiro Vorcaro – sob o pretexto de financiar um filme sobre Jair Bolsonaro –, é apenas a ponta de um iceberg que afunda suas raízes nas águas turvas da ditadura empresarial-civil-militar. Para compreendermos essa engenharia autoritária, precisamos retroceder no tempo e entender que o golpe de 64 nunca foi exclusivamente militar. Ele foi financiado, desde o seu nascedouro, pelo caixa dois de grandes empresários, publishers e banqueiros que forneceram desde carros blindados até infraestrutura logística para sufocar a democracia.
O propalado “milagre econômico” que se seguiu não foi senão a financeirização da vida nacional, um projeto que concentrou renda nas mãos de poucos, entregou o país ao capital estrangeiro e deixou como herança maldita uma dívida externa que saltou de três bilhões para mais de cem bilhões de dólares. A ditadura forjou um mercado de capitais à sua imagem e semelhança: opaco, concentrador e profundamente avesso a qualquer regulação democrática. É nesse húmus histórico que germinam figuras e banqueiros golpistas de lá para cá. E Daniel Vorcaro e instituições como o Banco Master fazem parte disso. O bolsonarismo, ao atuar como braço político desse “banco da máfia”, não inova, apenas atualiza o velho consórcio entre a farda e o capital predatório.
E aqui chegamos ao ponto fundamental que conecta as duas pontas dessa história, magistralmente exposto pelo documentário “Bandidos de Farda”, do ICL. O arquivo secreto do coronel Cyro Etchegoyen, guardado a sete chaves por cinco décadas, não revela apenas os horrores inomináveis da tortura, do estupro e do assassinato. Ele desnuda a mentira fundadora das Forças Armadas na Nova República. Os militares mentiram para a Comissão Nacional da Verdade, mentiram para a presidenta Dilma Rousseff e continuam mentindo para a nação. A colaboração com a inteligência britânica para aprimorar técnicas de tortura na famigerada “Casa da Morte” prova que o terrorismo de Estado foi institucional, científico e internacionalizado.
Jair Bolsonaro, um subproduto ressentido desses porões, passou sua carreira inteira negando esses crimes e celebrando os torturadores. O seu governo foi a tentativa de retomada desse projeto interrompido. Quando Bolsonaro tentou dar um golpe em 8 de janeiro, ele não estava rompendo com a sua tradição. Ele estava sendo fiel à sua essência. E Flávio Bolsonaro, repaginado como presidenciável, supostamente mais polido e afeito aos ritos de Brasília, é o herdeiro direto desse legado de destruição. O “01”, que começou financiando prédios de milícia no Rio de Janeiro com o dinheiro das rachadinhas, agora opera nas altas esferas das finanças ilícitas, cobrando faturas de banqueiros enrolados com a Polícia Federal.
A impunidade é o método político que une o coronel Cyro Etchegoyen a Daniel Vorcaro, e a ditadura ao bolsonarismo. A transição democrática brasileira, tutelada pelos mesmos generais que promoveram a barbárie, permitiu que as estruturas financeiras e repressivas do regime permanecessem intactas. A anistia foi o pacto de silêncio que garantiu a sobrevivência desses “bandidos de farda” e de seus financiadores de terno e gravata.
Enquanto não enfrentarmos essa continuidade histórica, continuaremos reféns desse teatro do absurdo. O escândalo do Banco Master é sim sobre corrupção, mas é principalmente sobre como o capital financeiro “desregulado” financia a extrema-direita para manter seus privilégios, da mesma forma que os empresários paulistas financiaram a “Operação Bandeirante” nos anos de chumbo. A história nos cobra a fatura, e o preço da nossa amnésia coletiva é ver os herdeiros do terror da ditadura, munidos de dinheiro sujo e blindagem jurídica, posando de salvadores da pátria. Que o jornalismo investigativo e a memória histórica, armas que o ICL empunha com bravura, sejam o nosso antídoto contra essa pantomima macabra.
LINDENER PARETO JR ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( BRASIL)