
Um bairro repleto de lojas fechadas, miséria e um vislumbre de esperança trazido pela geladeira em meio às filas intermináveis.
Parei de comer para que meus filhos pudessem comer. Eles me perguntam se não estou com fome, e sim, estou, mas prefiro morrer a vê-los passar fome”, diz Franco, de 32 anos, enquanto observa os caminhões, operários da construção civil e vizinhos passando pelo enorme galpão ainda em construção na via marginal sul da rodovia Acceso Oeste, em Moreno. A poucos metros dali, as estradas de terra estão repletas de buracos cheios de água, lojas fechadas e persianas abaixadas. Ali mesmo, dias antes, mais de 4.000 pessoas formaram fila por horas — muitas desde o amanhecer — para entregar seus currículos e se candidatar a uma das 60 vagas que o frigorífico Cabaña Don Theo oferecerá quando a construção for concluída e a nova filial for inaugurada. Os candidatos selecionados ainda não foram escolhidos. A cena ainda está fresca na memória dos vizinhos. Alguns falam de uma “oportunidade de ouro”. Outros, simplesmente, de desespero. As vagas de emprego foram anunciadas pela empresa na terça-feira, via Instagram. “Estamos contratando em todos os setores”, dizia o anúncio, convidando os candidatos a levarem seus currículos à propriedade localizada na via marginal sul da rodovia Acceso Oeste, no cruzamento com a Rua Vélez Sarsfield. O que se seguiu superou todas as expectativas: filas intermináveis, pessoas acampando durante a noite, ônibus descarregando passageiros por horas e milhares de moradores esperando no frio, na esperança de encontrar um emprego formal. Em Moreno, porém, a cena não era particularmente surpreendente. Por um lado, a imagem era chocante e angustiante: empresários, moradores e trabalhadores descrevem um cenário marcado pelo desemprego, bicos e fechamento de empresas. Por outro lado, nesse contexto, a chegada da Cabaña Don Theo a Moreno representa um novo investimento em uma área afetada pela queda do consumo, o que pode gerar empregos e atividade econômica.
A prefeita de Moreno, Mariel Fernández, afirmou que a crise econômica substituiu a insegurança como a principal preocupação dos moradores. “A maior preocupação dos moradores hoje é não conseguir pagar as contas”, declarou em declarações recentes. Fernández está em seu segundo mandato, pertence ao Movimento Evita e começou a percorrer vários distritos da província de Buenos Aires em meio a especulações sobre uma possível candidatura ao governo provincial. Ela é aliada da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner. A taxa de desemprego na região metropolitana de Buenos Aires, que inclui Moreno, foi de 9,5% no último trimestre de 2025; um aumento de dois pontos percentuais em comparação com o mesmo período de 2023. A tendência oposta ocorre nas províncias de Neuquén, influenciada por Vaca Muerta, e San Juan, ligada à mineração, que registraram uma queda de 1,3 ponto percentual em suas taxas de desemprego durante o mesmo período. Na região metropolitana de Buenos Aires, o trabalho informal, o fechamento de empresas e a queda no consumo persistem. Nesse contexto, alguns moradores entrevistados pelo jornal LA NACION indicaram que um possível emprego no frigorífico também representa uma oportunidade de deixar para trás trabalhos ocasionais ou informais e ter acesso a um emprego formal com salário mensal fixo, plano de saúde e contribuições para a previdência — benefícios que muitos atualmente não possuem.
Apenas alguns dias após a publicação do anúncio da vaga, o armazém da Cabaña Don Theo ainda está em construção. Operários entram e saem, estruturas metálicas estão sendo erguidas, máquinas estão em funcionamento e há atividade constante. Segundo a empresa, o plano é inaugurar a filial dentro de um mês ou um mês e meio. A fábrica de processamento de carne ainda não abriu, mas já se tornou um símbolo da situação do emprego na região. “Lançamos o edital inicial para 60 vagas e recebemos mais de 4.000 currículos”, disse Fernando Majeras, um dos proprietários da empresa, ao jornal LA NACION. “Ficamos completamente surpresos. Já tínhamos anunciado vagas em outras filiais e nunca tivemos um número tão grande de candidatos. Mas também vimos muitas pessoas com muita vontade de trabalhar. As pessoas sempre dizem que as pessoas não querem trabalhar, e a verdade é que vimos exatamente o contrário.”
Taxa de desemprego por trimestre
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A empresa foi fundada em 2015 com sua primeira filial em Esteban Echeverría. Posteriormente, abriu outra em Solano e agora está se expandindo para Moreno. Segundo Majeras, a escolha da região foi feita após uma busca por diferentes locais ao longo do último ano. “Não estabelecemos limite de idade. Tínhamos jovens de 18 anos procurando seu primeiro emprego e também pessoas com mais de 70. Acho que a pessoa mais velha tinha 75 anos”, conta. O empresário também garante que tentarão compartilhar currículos com outros empreendedores e empresas. “Estamos organizando reuniões com outros empresários para ver se podemos ajudar mais pessoas a encontrar emprego”, acrescenta.
“O chamado foi como uma dádiva dos céus, embora ao mesmo tempo soubéssemos que havia muitas outras pessoas buscando a mesma coisa.”
Gladys, comerciante
A poucos quarteirões do frigorífico, Gabriela Arenas ainda se lembra das imagens da fila. “A realidade é que há falta de trabalho. Talvez o número de pessoas tenha sido chocante, mas estamos acostumados a ver a necessidade”, diz ela. Ela acredita que o apelo por voluntários ganhou força porque não exigia diploma do ensino médio. “Isso abriu mais oportunidades. Muitas pessoas mais velhas não terminaram os estudos porque precisavam trabalhar. Eu mesma tive que escolher entre estudar ou trabalhar”, relembra. Para ela, a cena não pode ser analisada como um problema recente. “É algo que acontece há anos. Nenhum governo resolveu o problema do emprego. Tornou-se normal que as pessoas sobrevivam como podem”, afirma. Enquanto fala, ela menciona algo que ouviu repetidamente dos vizinhos: muitos descobriram sobre a feira de empregos pelo TikTok, grupos do Facebook ou grupos de WhatsApp da vizinhança. “Alguns nem sabiam e, quando viram a fila, se inscreveram.” Nicolás, que trabalha em uma oficina mecânica a um quarteirão do local, resume a situação com uma frase: “Todos nós conhecemos alguém que estava naquela fila”. Ele conta que viu pessoas descendo do ônibus número 44 durante horas. “As pessoas vieram de todos os lugares. Isso acontece em toda a região metropolitana”, lembra.
Gladys, dona de uma loja de produtos de limpeza, conta que seu irmão de 45 anos e seu filho de 22 foram ao protesto. “Meu irmão está desempregado há um tempo e, com a idade, as coisas ficam muito mais complicadas. Meu filho perdeu o emprego há seis meses. O apelo por voluntários foi uma dádiva, embora eles soubessem que haveria uma multidão enorme”, relata. Ela também está sentindo o impacto em seu negócio. “Cada vez mais lojas estão fechando e os empregos estão diminuindo. Tudo está ficando mais difícil.” Judith, dona de uma loja de frango frito e também funcionária de uma distribuidora, diz que, mesmo com dois empregos, não consegue fechar as contas. “Trabalho desde a hora que acordo até meia-noite e ainda assim não é suficiente. Eu não vivo, apenas sobrevivo”, afirma. Para ela, a necessidade de um emprego estável explica o que aconteceu em frente ao frigorífico. “Há mais pessoas fazendo bicos, e mesmo assim, não é suficiente. Ouvi falar de pessoas voltando decepcionadas porque achavam que não seriam chamadas de volta. Houve pessoas que acamparam durante a noite.” Sobre a ideia de que “as pessoas não querem trabalhar”, ele responde com raiva: “Como podemos não querer trabalhar se estamos morrendo de fome?”
“É o assunto de que todos falam todos os dias no bairro: desemprego, fome e incerteza.”
José Lucero, residente de Moreno
Joel vende camisas de futebol e bandeiras na rua. Um de seus irmãos deixou o currículo. “Eu tinha uma banca de frutas e verduras que ficou aberta por oito anos e fechou em janeiro. O consumo caiu drasticamente. As pessoas só compram o essencial ou o suficiente para o dia”, explica. Outro irmão foi a San Luis procurar emprego. “A quantidade de pessoas não me surpreendeu, porque é óbvio quantas pessoas estão desempregadas. Hoje, muitos vendem online ou na rua porque não encontram outra opção.” A queda no consumo parece ser um tema comum em todas as histórias. Claudia, dona de uma padaria na Rua Intendente Corvalán, diz que as vendas caíram 50%. “As pessoas costumavam comprar um quilo de pão, e agora compram três baguetes pequenas. Não há dinheiro circulando”, afirma. Ela conta que as pessoas entram constantemente na padaria perguntando se precisam de funcionários. “Muitos são jovens. Em outros lugares, pedem experiência a eles, e eles não a têm. A situação no frigorífico era preocupante porque havia gente demais para poucas vagas.” No centro de Moreno, acrescenta ela, há cada vez mais lojas vazias. “Sobrevivência é a palavra de ordem.”
José Lucero também viu seu filho de 27 anos entrar na fila. “Já estávamos acostumados com algo assim. É o que todo mundo comenta no bairro todos os dias: desemprego, fome e incerteza.” Jimena Castaño, moradora do bairro Sambrízzi, diz que a situação piorou em janeiro. “Março foi terrível”, resume. Na região, vários comércios fecharam ou estão vendendo tudo para tentar pagar dívidas. “As pessoas pegam empréstimos diários e depois não conseguem pagar.”
“Quando algo assim acontece, todos ficam desesperados porque não há empregos.”
Estefanía Magali Genes e seu avô, Arturo, moradores de Moreno
Marcela, de 59 anos, perdeu o emprego há apenas duas semanas. Ela enviou o currículo por e-mail enquanto sua filha de 26 anos foi pessoalmente enfrentar a fila. “Procurar emprego hoje em dia significa gastar dinheiro que você não tem”, diz ela. Ela se refere ao custo de impressão de currículos e ao transporte cada vez mais caro. “Se você é muito jovem, pedem experiência. E se você tem mais de 50 anos, está fora do sistema”, lamenta. Sua filha trabalhava como freelancer, mas estava em busca de um emprego estável. “Todo mundo quer um emprego com benefícios, algo permanente.”
“Vimos muitas pessoas ansiosas para trabalhar”
Fernando Majeras, proprietário do frigorífico Cabaña Don Theo
Em outra casa do bairro, Alan e Vanesa sentam-se na soleira da porta, tentando passar o dia. “O mercado de trabalho está terrível. Nunca vimos nada parecido”, dizem. Alan explica que, anos atrás, conseguia emprego rapidamente, mas agora tudo mudou. “As fábricas estão fechando e as pessoas estão passando fome.” Vanesa lembra de um vizinho que chegou às duas da manhã para entrar na fila e já havia dezenas de pessoas esperando. “Não nos surpreende, porque há muita gente desempregada. Vemos isso todos os dias.” “Minha mãe foi”, conta Estefanía Magali Genes sobre a feira de empregos. Ela tem 38 anos e, segundo a família, vinha fazendo bicos há algum tempo sem conseguir um emprego fixo. “Ela ficou sabendo por uma amiga que soube por outra amiga. Quando surge uma oportunidade assim, todo mundo corre porque não há empregos”, diz Arturo, pai da jovem. A família afirma que a situação é a mesma em todo o bairro. “Muitos negócios estão fechando porque as pessoas não têm dinheiro. No dia 15, já era. A crise é muito grave e os negócios não conseguem resistir”, dizem. Para eles, o tamanho da participação não foi uma surpresa. “Você percebe a necessidade pelo número de pessoas que vieram. Isso não está acontecendo apenas em Moreno; está acontecendo em muitas áreas vizinhas também.”
No frigorífico, ainda se ouvem martelos, máquinas e operários correndo contra o tempo para terminar a nova filial. Enquanto isso, os currículos continuam se acumulando.
CAMILA SÚNICO ” LA NACION” ( ARGENTINA)