O PENSAMENTO ECONÔMICO DE XI JINPING

O pensamento econômico de Xi Jinping estrutura-se sobre a inovação teórica da “economia de mercado socialista”, na qual o mercado exerce a função decisória na alocação de recursos sob a coordenação estratégica e a liderança do Estado

As ideias econômicas são um componente extremamente importante para a construção do socialismo. Karl Marx se referia a esse campo do conhecimento como o estudo dos interesses materiais que se confrontam na sociedade. As elaborações de Xi Jinping sobre assuntos econômicos aparecem com abundância em diversos de seus pronunciamentos oficiais, publicados no multivolume A governança da China (Xi Jinping, 2012 a 2025). A economia está na base de questões filosóficas, culturais, geopolíticas e tecnológicas e não é de surpreender que apareça como reflexão conceitual importante diante das grandes questões sobre o desenvolvimento do país nos últimos anos.

Contudo, o primeiro compilado de textos e discursos de Xi Jinping especificamente sobre economia foi publicado em chinês em março de 2025.[1] Ele inclui trabalhos entre novembro de 2012 e dezembro de 2024 que abordam questões estritamente econômicas, havendo alguma sobreposição em relação ao A governança da China devido à inevitável repetição de alguns temas essenciais que são desenvolvidos em diferentes oportunidades em seus discursos públicos. A ideia central dessa nova obra é que existe um pensamento econômico de Xi Jinping, e ele é um componente importante do chamado pensamento de Xi Jinping sobre o socialismo com características chinesas para uma nova era. Identificar e descrever esse pensamento econômico é uma tarefa relevante e atual para todos os comunistas atuando no campo da economia política.

Na minha opinião, o pragmatismo da política econômica chinesa é uma característica forte e positiva para a dimensão da geopolítica contemporânea. Ele encontra forte respaldo nas elaborações conceituais de Xi Jinping, mas eu entendo que é necessário ainda um trabalho para sistematizá-las e aprofundá-las. Pragmaticidade costuma não combinar muito bem com alicerçamento teórico sólido e por isso é imperativo buscar as bases por trás da ação econômica do Estado chinês de hoje. Tal esforço pode facilitar a comunicação científica entre economistas Marxistas de todo o mundo que debatem acaloradamente os desafios de transição do capitalismo para o socialismo, e deste, para o comunismo.

Tendo como base minha pesquisa recente sobre como a economia política da reforma e abertura vem se transmutando de modo complexo e inacabado em uma teoria econômica propriamente chinesa nas últimas décadas, compartilho quatro notas que podem contribuir com a análise coletiva do pensamento econômico de Xi Jinping.

A economia de mercado socialista como inovação teórica

Em relação às explicações de Xi Jinping sobre as decisões de fortalecer e consolidar cada vez mais o caminho da reforma por meio do seu aprofundamento, entendemos que o principal objetivo da reforma é estabelecer um tipo bastante específico de organização econômica na China. É a chamada “Economia de mercado socialista”.

Trata-se de uma inovação teórica importante. De fato, a literatura acadêmica e científica da economia política marxista tem se debruçado sobre a complexa relação entre o mercado e o socialismo desde o final do século XIX. As experiências concretas de construção do socialismo no século XX possibilitam à China avançar a fronteira no pensamento sobre como usar o mercado para pavimentar o caminho rumo ao destino do socialismo. Neste sentido, o conceito de economia de mercado se refere a um sistema econômico em que a alocação de recursos é definida de maneira decisiva pelo mercado.

Ou seja, é o mercado que assume a função decisória de alocação de recursos, enquanto o governo assume a função auxiliar ou facilitadora. A existência conjunta desses dois protocolos (o mercado e o governo) para realizar a alocação dos fatores é um aspecto central na conceituação da economia de mercado socialista. A economia de mercado socialista no plano da realidade é uma economia onde há uma grande variedade nas formas de propriedade, algo capturado pela noção de propriedade mista.

Aqui notamos uma forte contradição entre a esfera pública e privada da economia, embora a narrativa de Xi Jinping não foque nela. Ao invés de travar no que seria um impasse, seu discurso flui para a confluência combinada e complementar entre público e privado. Público e privado não aparecem, portanto, como metades dialéticas antagônicas e irreconciliáveis, mas sim como complementares ainda que com alguns atritos. Isso aponta para uma postura fortemente positiva em relação à Reforma e Abertura, no sentido de ela orientar um caminho para vencer a competição com o capitalismo, competição no sentido técnico-produtivo-econômico, e de superação pela orientação socialista.

Evitar o conflito distributivo

Aprofundando um pouco mais o olhar sobre o princípio de que o mercado assume a função decisiva na definição da alocação dos recursos, notamos que essa centralidade do mercado na economia é acompanhada por um esforço de melhor definir e desempenhar as tarefas que cabem ao governo. O mercado não cumpre apenas uma função básica, mas sim decisiva sobre a alocação dos recursos. De novo fica evidente que existem dois eixos possíveis de orientação sobre como os recursos econômicos devem ser utilizados, e que caracterizam as dimensões pública e privada da economia.

No entanto, ao invés de ressaltar uma possível relação de competição por espaço entre essas duas esferas, Xi Jinping segue de perto o raciocínio criativo de Deng Xiaoping ao buscar uma síntese confluente entre a mão invisível e a mão visível. Na minha opinião, o principal elemento inovador proposto por Xi Jinping aqui é que é perfeitamente possível acomodar as duas esferas desde que o espaço da economia cresça de modo ordenado, possibilitando que tanto a iniciativa privada como o Estado consigam expandir suas atividades sem entrarem em confronto.

A contradição derradeira entre interesses privados e públicos, que está no âmago da economia política capitalista, é continuamente solucionada por uma ampliação do espaço de acomodação e de novas relações harmônicas entre eles. A convergência dos interesses privados com o bem-estar público é obtida por esse arranjo delicado, mas robusto, que está na base da economia de mercado socialista.

Um dos temas em que este arranjo relacional criativo entre o setor público e o setor privado aparece com mais nitidez no pensamento econômico de Xi Jinping é sobre as empresas de propriedade estatal (State-owned enterprises).

Ao defender que as empresas de propriedade estatal devem se tornar mais fortes, melhores e maiores em discurso no dia 10 de Outubro de 2016, por exemplo, Xi Jinping combate a visão simplista que de setor público e setor privado competem por um espaço fixo em disputa. É verdade que ambos os setores dividem entre si a totalidade da economia. No entanto, se o espaço econômico aumenta a contento, a ferocidade divisória é atenuada porque ambos os setores têm muito trabalho a fazer em seus respectivos setores.

Na visão econômica de Xi Jinping, cabem todos: tanto os agentes privados em sua vasta heterogeneidade quantitativa e qualitativa como o setor público subordinado a uma única entidade, o Estado. É uma visão generosa, de riquezas tão grandes para todo o conjunto da sociedade que todos os conflitos distributivos em todos os estratos sociais são significativamente enfraquecidos.  Em seu argumento, Xi Jinping orienta a não cairmos na visão de disputa de espaço e que concentremos esforços em ampliar o espaço propriamente dito.

Reparem no apelo de Xi Jinping à perspectiva da confluência complementar entre público e privado. Isso significa que, em sua perspectiva, o atrito básico entre interesses privados e coletivos é evitado pelo alargamento do espaço de acomodação do setor público e do privado. Aqui se nota a centralidade de uma política econômica sistêmica de crescimento sustentável de longuíssimo prazo, onde os fatores financeiros, sociais e ambientais são contemplados conjuntamente.

Assim, o confronto fundamental entre o bem-estar coletivo e os interesses individuais que é inerente à relação social mercadoria é evitado por uma complementação dialética em espaço de acomodação em contínua expansão. O mercado não é abolido, mas seus efeitos negativos são anulados por instituições-guia que fazem os interesses privados convergirem com o interesse da esmagadora maioria da população. Ao meu ver, é nesse contexto que podemos falar em um certo desaparecimento da divisão entre empresas estatais e empresas privadas. A estrutura de propriedade de cada unidade de produção pode assim variar muito, gerando uma economia bastante diversificada em termos de tamanho de empresas e de seu estatuto societário. Esse é um ponto complexo pois evoca a discussão sobre a propriedade privada em suas diversas modalidades.

Na minha interpretação, o contexto histórico em que Xi Jinping e, antes dele, Deng Xiaoping, elaboram suas ideias econômicas, permite deixar esse ponto para ser discutido em um futuro relativamente distante. Por isso, apesar de concordar parcialmente com alguns críticos neste ponto, entendo que o momento histórico de lidar com a superação completa da propriedade privada ainda não está colocado. Deste modo, para as circunstâncias concretas nesta etapa da jornada humana e civilizacional rumo ao comunismo não-primitivo, concordo que “não importa a cor do gato”.

A tarefa no âmbito econômico foi e continua sendo superar a pobreza. É nesse contexto que devemos celebrar o discurso de Xi Jinping em 25 de fevereiro de 2021 sobre como a adaptação do Marxismo às características próprias da China foi fundamental para uma das maiores realizações na história da humanidade: a eliminação da pobreza absoluta no país.

Socialismo e ciência econômica

Aqui cabe uma reflexão mais direta sobre a expressão “Economia de mercado socialista”. Ela é a junção de três termos muito familiares, mas também muito profundos teoricamente: “economia”, “mercado” e “socialismo”. Na tradição da economia política, tanto não-marxista como marxista, o significado de cada um desses termos é intensamente discutido e é possível identificar alguma convergência. Por exemplo, economia é uma palavra oriunda do grego que significa organização da casa ou ordenamento do domicílio.

Trata-se da organização das atividades de reprodução material de uma unidade política, como a família, a cidade ou o Estado. Economia, portanto, é a base material de sustentação de uma sociedade (podendo ser uma unidade social de nível micro como macro). Mercado se refere a uma categoria mais estreita, que denota um certo tipo de economia. Toda sociedade tem uma economia, mas nem toda economia é uma economia de mercado. Por isso, “mercado” se refere a uma forma específica de organização da economia. O terceiro termo é socialismo. Do ponto de vista linguístico, ele deriva de sociedade, social. Denota que a economia possui aquelas duas esferas, a individual (privada) e a coletiva (pública).

O conceito de “Economia de mercado” foi amplamente difundido devido ao contexto histórico do fim da URSS. Ele foi amplamente utilizado na batalha ideológica contra a classe trabalhadora no final do século 20. Ele era sempre utilizado como contraponto aos modelos de economia socialista que tiveram por muito tempo como parâmetro a corajosa experiência da Revolução Russa.  Por isso as elaborações de Xi Jinping dão bastante ênfase ao adjetivo “socialista” no conceito de “Economia de mercado socialista”. O adjetivo “socialista” é extremamente importante e não pode ser lido como um mero detalhe de caracterização.

Esse adjetivo muda tudo. Ele destaca, por exemplo, que a economia de mercado em construção desde a Reforma e Abertura está sob controle e liderança do Partido Comunista da China. O contraste com outros tipos de economia de mercado é assim reconhecido. Isso significa que o mercado não leva necessariamente a um mesmo e único modelo, mas comporta diferentes possibilidades de construção socioeconômica. A visão dialética e holística do pensamento econômico de Xi Jinping aponta para uma concepção aberta de mercado: ele não é nem necessariamente bom, nem necessariamente ruim.

Tanto as positividades como as negatividades estão contidas no mercado. Por isso, os pensadores da economia precisam adotar uma perspectiva de coexistência de entidades opostas quando lidam com o mercado, buscando uma abordagem de política econômica de confluência complementar, afastando o raciocínio de exclusão recíproca entre o público e o privado que vigorou na economia política do século XX.

É interessante destacar que esse modo de pensar e fazer confluir coisas que são aparentemente irreconciliáveis e até mesmo inimigas é uma das chaves de leitura de Xi Jinping sobre a teoria econômica em geral. A divisão entre a economia política marxista e nao-marxista é bem demarcada e muito relevante. No entanto, Xi Jinping aponta em diferentes momentos (como por exemplo em um discurso de 23 de novembro de 2015) que a relação dos economistas marxistas com a teoria econômica ocidental não-marxista não deve ser de desprezo e presunção. Ele aponta que os economistas marxistas devem aprender com os economistas não-marxistas e se apropriar de tudo aquilo que serve para a construção do socialismo, descartando aquilo que não presta.

Desde o fim do século XIX o pensamento econômico ocidental passou por um processo intenso de massificação e padronização educacional, criando muitos procedimentos úteis para coleta e processamento de dados empíricos, por exemplo. tais procedimentos, se corretamente postos em uso de acordo com uma base teórica marxista, podem fornecer inovações importantes para superar os desafios da economia política do século XXI.

Como a minha pesquisa teórica de quase vinte anos aponta para essa mesma direção, este é um dos pontos que considero mais ousado e acertado no pensamento econômico de Xi Jinping. A economia política marxista não pode se isolar e formar uma escola de pensamento à parte. Ela deve se confundir com o próprio conceito de ciência econômica, e participar de modo direto do controle sobre o que se entende ser mainstream no campo de conhecimento da economia.

O fator trabalho e o povo no centro

Um último ponto que vale mencionar e que eu pretendo aprofundar em outra ocasião é sobre a teoria dos fatores de produção. Ela está intimamente relacionada com a ideia de que a economia política do socialismo coloca o povo no centro.

Xi Jinping destaca em diferentes ocasiões que a expansão da economia nacional deve ser atrelada à expansão contínua do grupo social de renda média. Essa parcela da população que ganha a vida trabalhando é o verdadeiro motor de uma sociedade próspera em todos os aspectos. Por isso, o pensamento econômico de Xi Jinping defende com veemência todos os instrumentos que valorizem a remuneração do fator trabalho. Esse é o fator econômico imediatamente relacionado com a vida do povo.

Além disso, o trabalho é um fator fundamental para o desenvolvimento das forças produtivas de nova qualidade, pois é em torno dele que gira as atividades de empreendimento, inovação tecnológica, avanço científico e educação. O fator trabalho é aquele que se refere ao ser humano no processo produtivo, e é por isso que tem prioridade em relação aos demais fatores.

Contudo, Xi Jinping reconhece que outros fatores de produção precisam ser reconhecidos e adequadamente remunerados. Isso significa que o trabalho é o principal fator, e os demais (como terra, capital, tecnologia, etc) são seus auxiliares. O raciocínio de Xi Jinping sobre os fatores de produção é um dos pontos mais importantes e complexos de elaboração teórica, pois ele remete diretamente à teoria do valor.

Na minha opinião, o esforço de Xi Jinping de harmonizar os diversos fatores de produção dando prioridade ao fator trabalho é acertado, mas bastante incompleto. Por isso, precisamos avançar em algumas linhas já iniciadas na própria China, como a do professor Cheng Enfu e colegas em torno da Escola de Economia de Shanghai, que propõem uma teoria da criação do valor por meio do trabalho vivo.

Creio que a contribuição de Xi Jinping aqui, ao buscar um balanço entre os fatores trabalho e capital, é importante dado o contexto concreto da fase primária do socialismo. Ela ajuda a desfazer aquela visão raivosa contra o capital em geral, que é muito forte na posição esquerdista de combate ao capitalismo. Por isso, entendo que algumas particularidades do pensamento econômico de Xi Jinping ainda cumprem a função de atuar contra a ideologia esquerdista anti-reforma.

Em síntese, o pensamento econômico de Xi Jinping é amplo e esta é apenas uma primeira seleção de pontos de alguém interessado na sistematização teórica que supostamente fundamenta a política econômica chinesa. Considerando o fracasso inegável do neoliberalismo unipolar, fica nítido que se trata de uma política econômica de sucesso celebrado por simpatizantes, reconhecido por críticos e admitido por inimigos.

A teoria de tal política, contudo, não é de forma alguma fechada e está sempre se reportando explicitamente a aportes fundamentais dos grandes líderes marxistas reivindicados pelo governo. Por isso, decifrar o pensamento econômico de Xi Jinping nos obriga a ir mais fundo: para entender como os chineses pensam a economia precisamos ir à raiz, resgatando e contextualizando a economia política de Deng Xiaoping, Mao Zedong, Joseph Stalin, Vladímir Lênin, Friedrich Engels e Karl Marx.

TIAGO CAMARINHA LOPES ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Tiago Camarinha Lopes é professor de economia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador visitante da Escola de marxismo da Northeast Normal University, Changchun, China.

Referências


Xi Jinping (2025). Xi Jinping Jingji Wenxuan. Selected Economic Writings of Xi Jinping.

Volume 1. Beijing: Central Party Literature Press.

Xi Jinping. (2012 a 2025). The Governance of China. Volumes 1-5. Beijing: Foreign Language Press.

Cheng Enfu, Wang Guijin and Zhou Kui ([2005] 2019). The Creation of Value by Living Labour: A Normative and Empirical Study. Istambul: Canut International Publishers.

Nota


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