
Não deixou memórias famosas nem discursos. Deixou a Cemig, o traçado técnico do Plano de Metas, o BNDE como instrumento de planejamento
Há uma geração de brasileiros que construiu este país sem aparecer nas capas de revista. Lucas Lopes é um deles. Mineiro de Ouro Preto, engenheiro por formação, desenvolvimentista por convicção, ele percorreu uma trajetória que vai da Secretaria de Agricultura de Benedito Valadares à fundação da Cemig, do Plano de Metas à Consultec — e que oferece, em cada episódio, uma janela sobre como funcionava, de verdade, a engrenagem do Estado brasileiro no seu momento mais criativo.

O artigo abaixo é resultado de um depoimento que colhi dele no final dos anos 90, para a biografia de Walther Moreira Salles
A formação no governo ValadaresPlay Video
Lucas Lopes começou sua vida pública como secretário de Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho do interventor Benedito Valadares em Minas Gerais. Ali aprendeu a lógica da administração pública brasileira: os limites do Estado formal, a necessidade de criar estruturas paralelas capazes de agir com agilidade, e a importância das redes pessoais como tecido de sustentação das políticas públicas.
Foi nesse ambiente que começou a relação com Juscelino Kubitschek — e foi por ela que Lopes acabaria participando de cada etapa relevante do desenvolvimentismo brasileiro.
Washington, Walther e o nó do Hipotecário
Quando o Brasil negociava o financiamento da hidrelétrica de Itutinga — um dos primeiros projetos da Cemig — junto ao Banco Mundial, Lucas Lopes, então presidente da empresa, foi a Washington concluir as tratativas. Lá reencontrou mais profundamente Walther Moreira Salles, que servia como embaixador no governo Vargas.
A negociação carregava um complicador silencioso: o Brasil tinha supostas dívidas decorrentes de bancos expropriados na fase inicial do Estado Novo — o Banco Hipotecário e o Port of Pará. Toda vez que um projeto brasileiro tramitava no Banco Mundial, representantes de credores internacionais protestavam formalmente. Octávio Paranaguá, representante do Brasil junto ao FMI, alertou Walther:
— Você vai ter problemas com estes temas.
Walther, com a desenvoltura de quem conhecia os bastidores da diplomacia financeira, descartou a pressão:
— Não se incomode.
Quando um dos bancos perguntou ao embaixador se o governo federal havia estudado o assunto, a resposta foi de fina ironia diplomática:
— A última notícia que recebi é que estava na mesa do presidente Vargas. Mas ele sofreu um desastre, quebrou o braço e não pôde assinar.
De fato, Vargas havia se machucado num acidente. A coincidência virou argumento. O financiamento seguiu em frente.
A Mannesmann e Minas no mapa do mundo
A chegada da Mannesmann a Minas Gerais não foi um evento de mercado. Foi uma manobra política. O representante comercial Segismundo Vaz havia procurado Getúlio Vargas com um projeto para instalação da siderúrgica. Foi Geraldo Mascarenhas — pai do psicanalista Eduardo Mascarenhas — quem virou o jogo numa reunião com Vargas:
— Manda este alemão para Minas. Quando o senhor tirou a CSN de Minas Gerais ficou muito mal.
Vargas gostou da ideia e foi direto:
— Telefone para o JK.
Convocado ao Rio, Juscelino chamou Lucas Lopes para uma conversa com os alemães. Depois da reunião, Lopes foi preciso no diagnóstico:
— Minas Gerais não está no mapa econômico das multinacionais.
A solução foi levar os executivos da Mannesmann para visitar o estado. O que os convenceu foi a Cemig: a infraestrutura elétrica que Lucas Lopes havia ajudado a construir, funcionando. Garantia de energia era, naquele momento, o argumento mais poderoso que qualquer discurso desenvolvimentista. A Mannesmann veio. Depois vieram os japoneses. A lógica dos “pontos de germinação” — infraestrutura induzindo investimento produtivo — funcionando na prática, décadas antes de os economistas a formalizar em papel.
O Plano de Metas e a máquina paralela
Lucas Lopes foi o principal arquiteto operacional do Plano de Metas. Ao assumir a presidência do BNDE em fevereiro de 1956, acumulou o cargo com o de secretário-executivo do recém-criado Conselho do Desenvolvimento — o órgão que JK criou na primeira reunião de ministério para coordenar o plano inteiro, fora da alçada da burocracia tradicional e do Legislativo.
Era a “administração paralela”: técnicos requisitados do serviço público, grupos executivos por setor, autonomia financeira real. Roberto Campos, que trabalhava ao seu lado como diretor-superintendente do BNDE, descreveria o Conselho com precisão cirúrgica: “Era apenas um conselho de ministros, que valia tanto quanto a sua secretaria técnica.” E a secretaria técnica era o BNDE de Lucas Lopes.
Em 1958, Lopes passou para o Ministério da Fazenda, onde ele e Campos elaboraram o Plano de Estabilização Monetária — que o próprio JK enterraria no ano seguinte ao romper com o FMI, escolhendo o desenvolvimento em detrimento do ajuste.
A Consultec, a Hanna e o minério
Ao sair do governo em 1959, Lucas Lopes não se aposentou da causa. Fundou a Consultec — a Sociedade Civil de Planejamento e Consultas Técnicas — com um objetivo claro: manter reunidas as equipes que haviam executado o Plano de Metas e o BNDE, preservando o capital técnico acumulado. Roberto Campos trouxe para a firma nomes de elite do Itamaraty — Miguel Ozório, Oscar Lorenzo Fernandes, João Baptista Pinheiro.
Foi por meio da Consultec que a Hanna Mining Corporation chegou ao Brasil com um projeto que Lopes considerava sério. A empresa havia adquirido a Mina do Morro Velho — de capitais ingleses, originalmente dedicada ao ouro — e, ao perceber o potencial do ferro nas áreas adjacentes, associou-se ao grupo Antunes, da CAEMI, com planos para um terminal marítimo que desobstruiria os gargalos de exportação da Vale.
Desde a infância em Ouro Preto, Lucas Lopes sabia da centralidade do minério de ferro para Minas Gerais. O projeto da Hanna era exatamente o tipo de investimento estrangeiro que ele e Roberto Campos defendiam: capital externo a serviço de infraestrutura estratégica brasileira. Mas a campanha nacionalista que se seguiu — no clima político do início dos anos 1960 — destruiu o projeto. A Hanna acabou vendendo a mina de ouro para Fernando Mello Vianna e Horácio de Carvalho, financiou a compra, os compradores chegaram a montar uma fábrica de caramelos com os diretores da empresa como acionistas. Transferiram todos os funcionários da Morro Velho para lá, limparam os passivos trabalhistas da mina, e deixaram a fábrica de caramelos quebrar.
O homem e o colecionador
Em outubro de 1960, quando Lucas Lopes retornou dos Estados Unidos, desembarcaram com ele — a cargo da galeria M. Knoedler & Co., de Nova York, uma das mais prestigiosas do mundo — pinturas de Chagall, Manet, Bonnard, Soutine, Cézanne, Dufy, Vlaminck, Renoir, Utrillo e Van Gogh, além de um bronze de Matisse. Na bagagem, também um Oldsmobile 1960 e um Mercedes-Benz.
Revela um homem que circulava com desenvoltura entre o planejamento estatal e a alta cultura europeia, entre a mesa de negociações do Banco Mundial e as galerias de Nova York. Era a geração de tecnocratas brasileiros que havia se formado no contato direto com o capitalismo atlântico do pós-guerra — e que voltava ao Brasil trazendo, junto com os projetos de hidrelétricas e siderúrgicas, a convicção de que o país poderia ocupar um lugar naquele mundo.
O legado
Lucas Lopes não deixou memórias famosas nem discursos antológicos. Deixou a Cemig, o traçado técnico do Plano de Metas, o BNDE como instrumento de planejamento, e uma geração de técnicos que ele ajudou a recrutar, formar e manter unida — mesmo depois que o governo acabou.
Seu filho Rodrigo participou da fundação do Banco Denasa com Barbará, numa das muitas histórias de continuidade entre as redes pessoais e as instituições financeiras do Brasil desenvolvimentista. Walther Moreira Salles, que havia ajudado a destravar o financiamento de Itutinga nos corredores de Washington com um gracejo sobre o braço quebrado de Vargas, esteve presente em momentos decisivos dessa trajetória.
São histórias que raramente chegam aos livros de história econômica. Mas são elas que explicam, mais do que qualquer teoria, como o Brasil deu o salto industrial dos anos 1950.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)