
Enquanto nos EUA – onde o liberalismo tem força -, o governo financia e define o uso dos terras raras, no Brasil o governo parece confiar no mercado
O ativista Daniel Tygel, um dos maiores especialistas em terras raras no Brasil, há mais de um ano vem alertando as autoridades brasileiras para a necessidade de regulamentar a exploração dos minerais contidos nas chamadas terras raras, essenciais para a economia moderna. Já conversou com ministros e encaminhou carta ao próprio presidente Lula, mas até agora não teve resposta. Antes que acusem Tygel de tentar sabotar o governo, deve-se levar em conta que é um dos quadros mais importantes do Partido dos Trabalhadores no sudoeste de Minas Gerais, onde estão as maiores reservas de terras raras e onde já existe extração, que tem deixado um passivo ambiental grande e o risco de contaminação das águas.https://landing.mailerlite.com/webforms/landing/r9f0h9
“Não sou contra a exploração dos terras raras”, diz ele, usando o substantivo no masculino. “Quando falamos em terras raras, falamos de minerais e elementos químicos, daí o uso no gênero masculino. É também uma questão ideológica. Quando se fala em terras, se pensa em algo sem o valor de um mineral, que tem grande valor, para desenvolvimento de produtos de uma última geração, sejam baterias, componentes de celulares e até de material bélico, como míssil.
E é este ponto – o de armas de destruição em massa – que mais preocupa Tygel. “Os Estados Unidos querem terras raras do Brasil, sobretudo por conta do uso de mísseis, e o Brasil poderia regulamentar a exportação desses proibindo seu uso em armas bélicas”, afirma.
Parece utópico, mas é um ponto de debate que pode se tornar relevante, assim como a necessidade de que o Brasil processe aqui mesmo esse tipo de commodity.
“Temos quadros nas universidades que podem ser mobilizados nessa direção”, diz ele, que é formado em Física pela Unicamp. Para isso, é necessário que o país crie uma empresa pública, a exemplo da Petrobras no século passado.
Esta é a posição da bancada do Partido dos Trabalhadores, mas o governo tem outra posição, prefere incentivar a criação de empresas pela iniciativa privada. Chega a ser curioso: enquanto nos EUA, país onde o liberalismo tem força, o governo financia e define como serão industrializados os terras raras, o Brasil parece confiar no mercado para garantir a sua soberania.
“O governo Trump está criando um corredor seguro para fazer os terras raras chegar à sua indústria. É o estreito de Ormuz a favor deles. É preciso agir agora, para mais tarde haver lamentação. O Brasil precisa ter controle sobre esse estreito, que será tão importante quanto o estreito de Ormuz é hoje para a indústria do petróleo.
Veja a entrevista.
JOAQUIM CARVALHO ” BRASIL 247″ ( BRASIL)