
Tensões são criadas, amplificadas e mantidas não como falhas de coordenação, mas como parte do próprio mecanismo de ação.
Quando a previsibilidade deixa de ser virtude
Durante grande parte do pós-guerra, a política externa das grandes potências foi estruturada em torno de um princípio relativamente estável: previsibilidade gera poder. A capacidade de sinalizar intenções, sustentar compromissos e organizar expectativas não era apenas um atributo desejável – era um componente essencial da própria arquitetura da ordem internacional. Alianças, tratados e instituições multilaterais operavam como mecanismos de estabilização, reduzindo a incerteza e permitindo coordenação entre Estados com interesses divergentes.
Esse padrão começa a se alterar quando a imprevisibilidade deixa de ser percebida como risco e passa a ser utilizada como recurso. No segundo governo Trump, a política externa dos Estados Unidos parece operar sob uma lógica distinta: não a da estabilidade estratégica, mas a da instabilidade produzida. Tensões são criadas, amplificadas e mantidas não como falhas de coordenação, mas como parte do próprio mecanismo de ação.
A instabilidade, nesse contexto, deixa de ser um efeito colateral – e passa a funcionar como método.
A instabilidade como método
A ideia de que a política internacional é um campo de competição permanente não é nova. A tradição realista, por exemplo, enfatiza que Estados buscam maximizar poder em um ambiente anárquico [1]. O que muda, no entanto, é o modo como esse poder é exercido.
Essa chave interpretativa se conecta, em outro plano, com uma reflexão que desenvolvi em “O mapa mental do poder”, texto em que procurei examinar como elites governamentais decidem em cenários complexos e como a máquina pública pode ser capturada por lógicas de confronto. O argumento aqui retoma aquele ponto de partida, mas o desloca para a geopolítica: já não se trata apenas de compreender como se decide sob pressão, e sim de entender como a própria pressão passa a ser produzida como técnica de governo [2].
No padrão tradicional, a estabilidade – ainda que tensa – era considerada funcional. No padrão emergente, a instabilidade torna-se produtiva. Ao introduzir incerteza contínua, desloca-se o centro de gravidade da ação: adversários passam a reagir em vez de agir; aliados passam a recalibrar suas expectativas; o próprio sistema entra em regime de adaptação permanente.
A política externa deixa de operar por equilíbrio e passa a operar por perturbação controlada.
Essa perturbação não se manifesta apenas em crises pontuais. Ela se distribui no tempo e no espaço, criando um ambiente em que a exceção tende a se tornar regra. A previsibilidade, antes base de confiança, transforma-se em vulnerabilidade a ser explorada.
Uma geografia da pressão permanente
Uma das características mais marcantes desse novo padrão é a multiplicação simultânea de frentes de tensão. Não se trata de um conflito específico ou de uma crise localizada, mas de uma geografia de tensão continuada.
No Ártico, ressurgem declarações sobre a aquisição da Groenlândia, território pertencente a um aliado da OTAN. Na América do Norte, reaparecem insinuações sobre a incorporação do Canadá como “51º estado”. No istmo centro-americano, menciona-se a possibilidade de retomada de controle do Canal do Panamá.
Na América Latina, esse padrão assume contornos ainda mais agudos. Intensificam-se as pressões sobre países como Venezuela, Cuba e México, frequentemente associadas a discussões sobre segurança e combate ao crime. No caso de Cuba, observa-se uma reativação e ampliação de políticas de cerceamento que remontam a décadas, agora acompanhadas não apenas de retórica hostil, mas de uma postura mais agressiva de intimidação explícita, elevando o nível de confronto em relação a padrões anteriores.
Em paralelo, surgem formulações difusas – mas politicamente reveladoras – sobre uma suposta “Grande América”, na qual partes do norte da América do Sul apareceriam implicitamente como área de influência direta. Mesmo gestos aparentemente retóricos, como a sugestão de renomear o Golfo do México como “Golfo da América”, cumprem função simbólica: sinalizam uma disposição de reconfigurar espaços geopolíticos consolidados.
Esse movimento ganha densidade adicional quando se considera a possibilidade de classificação de organizações criminosas como “terroristas”. Tal enquadramento não é neutro: ele pode abrir espaço para ações extraterritoriais sob justificativas de segurança, criando riscos diretos à soberania de países da região – inclusive o Brasil.
No Oriente Médio, a relação com o Irã já evoluiu para um cenário de conflito em curso, no qual pressão econômica, ações militares e riscos de escalada coexistem de forma instável e potencialmente expansiva. No plano das alianças, questiona-se explicitamente o compromisso com a defesa coletiva da OTAN, introduzindo a incerteza no próprio núcleo do sistema de segurança ocidental.
O padrão que emerge é claro: a ameaça deixa de ser localizada e passa a ser distribuída. A política externa deixa de operar por priorização estratégica e passa a se basear na saturação do ambiente internacional.
A ameaça como linguagem de governo
Nesse contexto, a ameaça não é apenas um instrumento ocasional – ela se transforma em linguagem de governo. Tarifas comerciais deixam de ser mecanismos econômicos e passam a funcionar como instrumentos geopolíticos. Declarações públicas assumem a forma de ultimatos. Gestos simbólicos tornam-se sinais de disposição para escalada. As próprias notas informativas oficiais da Casa Branca sobre “emergência nacional”, “reciprocidade comercial” e segurança econômica mostram como o comércio, a soberania e o poder coercitivo passam a operar em um mesmo vocabulário político e estratégico [3, 4].
Um elemento particularmente relevante é a ampliação do escopo do que é considerado o uso legítimo da força. Por exemplo, a classificação de grupos criminosos como “organizações terroristas” abre espaço para a diluição das fronteiras entre a segurança interna de uma nação e a política externa da potência hegemônica.
Essa reconfiguração semântica tem efeitos concretos: redefine os limites da ação estatal, altera as expectativas internacionais e cria precedentes que podem, eventualmente, ser replicados por outros atores. A linguagem não apenas descreve a realidade – ela passa a organizá-la.
Cooperação ou hierarquia? A arquitetura invisível do poder
Paralelamente à produção de instabilidade e à multiplicação de ameaças, observa-se um terceiro movimento, menos visível, mas igualmente estruturante: a reorganização hierárquica do sistema internacional sob a forma de “cooperação”.
Iniciativas contemporâneas de coordenação internacional – sejam elas voltadas à segurança, à tecnologia ou aos minerais críticos – raramente operam como estruturas horizontais. Sob a linguagem da parceria, emerge uma arquitetura funcional na qual diferentes países ocupam posições distintas.
Ilustram esse padrão arranjos como a Minerals Security Partnership, uma iniciativa liderada por economias centrais para coordenar o acesso, o financiamento e o controle sobre cadeias de minerais estratégicos, o AUKUS, um pacto de segurança e tecnologia militar entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, e a aliança de inteligência Five Eyes, um sistema altamente integrado de compartilhamento de informações estratégicas entre um núcleo restrito de países anglófonos. A literatura recente sobre minerais críticos e segurança das cadeias de suprimento reforça precisamente essa articulação entre geopolítica, tecnologia e controle de recursos [5, 6].
A chamada “Pax Silica” – entendida como a ordem emergente estruturada em torno de dados, semicondutores, energia e minerais críticos – torna essa lógica ainda mais evidente. Cadeias produtivas são organizadas para concentrar o valor agregado no topo e externalizar atividades intensivas em recursos naturais ou o impacto ambiental para a base.
A cooperação, portanto, não elimina a hierarquia – ela a reorganiza.
Instabilidade e hierarquia: duas faces da mesma estratégia
Esses três movimentos – instabilidade, ameaça e hierarquia – não operam de forma independente. Eles se reforçam mutuamente.
A produção de instabilidade cria um ambiente de incerteza, no qual iniciativas individuais se tornam mais difíceis, envolvendo maior risco e custos mais elevados. Nesse contexto, a adesão a estruturas de cooperação – ainda que assimétricas – passa a ser percebida como uma solução pragmática. Ao mesmo tempo, a ameaça recorrente acelera os processos de alinhamento, deslocando países para posições mais definidas dentro dessas estruturas.
A instabilidade prepara o terreno; a hierarquia fixa as posições.
O resultado é um sistema internacional que, ao mesmo tempo, se fragmenta e se reorganiza. Fragmenta-se porque perde mecanismos estáveis de coordenação. Reorganiza-se porque novas formas de hierarquia emergem, sob a linguagem da cooperação.
Quando a pressão em múltiplas frentes reorganiza o sistema
Há momentos históricos em que a política externa deixa de operar por equilíbrios e passa a funcionar por testes sucessivos de limite, em múltiplas direções. Na Europa do final dos anos 1930, a Alemanha nazista promoveu pressões escalonadas sobre diferentes países – da anexação da Áustria à desestabilização da Tchecoslováquia e, posteriormente, à invasão da Polônia – explorando sistematicamente a hesitação das potências europeias.
Esse padrão não deve ser lido como uma equivalência histórica, mas como uma referência analítica: há precedentes em que a produção deliberada de incerteza e a multiplicação de frentes de pressão funcionaram como instrumentos para deslocar adversários para posições reativas. Em tais contextos, a aparente “irracionalidade” da potência dominante não é um desvio, mas um recurso estratégico.
Nesse sentido, a instabilidade como método não é uma inovação absoluta, mas sim uma reconfiguração contemporânea de práticas já observadas em momentos críticos da história internacional.
O risco sistêmico: quando todos reagem ao imprevisível
Quando a instabilidade se torna método, seus efeitos deixam de ser controláveis no médio prazo. Aliados passam a interpretar imprevisibilidade como risco de abandono. Adversários passam a interpretar sinais ambíguos como ameaça potencial, elevando a probabilidade de escalada.
O sistema internacional, por sua vez, perde capacidade de coordenação. Mecanismos de confiança são erodidos, compromissos tornam-se mais frágeis e aumenta a margem para o mal-entendido. Em um ambiente assim, decisões tomadas de forma abrupta podem ser interpretadas como sinais estratégicos, desencadeando respostas desproporcionais.
A incerteza deixa de ser apenas um instrumento de poder – e passa a ser uma fonte autônoma de risco.
O Brasil entre risco e oportunidade
Para o Brasil, esse cenário não é neutro. A ampliação do escopo de possíveis intervenções sob o argumento de combate ao terrorismo global pode abrir precedentes perigosos para ações externas no território nacional. Ao mesmo tempo, a reconfiguração hierárquica das cadeias globais – particularmente na economia de minerais críticos e energia – tende a reforçar o papel tradicional de países como o Brasil como fornecedores estratégicos, e não necessariamente como protagonistas tecnológicos.
Há, contudo, uma janela de oportunidade. Em um ambiente marcado por instabilidade e fragmentação, países capazes de oferecer previsibilidade, mediação e capacidade de coordenação regional ganham relevância. O Brasil, pela sua escala, posição geográfica e tradição diplomática, possui condições de exercer um papel de liderança na América do Sul e de articulação no Sul Global.
Isso exigirá, no entanto, uma estratégia ativa: fortalecimento de capacidades industriais, domínio de segmentos críticos das cadeias produtivas e uma política externa capaz de combinar autonomia com capacidade de articulação. Em um mundo organizado pela instabilidade, a estabilidade pode se tornar um ativo estratégico.
Instabilidade como estratégia: ganhos táticos, riscos estruturais
Governar pela instabilidade pode produzir ganhos táticos. Ao deslocar adversários para posições reativas, ampliar margens de manobra e acelerar os processos de alinhamento, a estratégia oferece vantagens de curto prazo.
Mas, quando adotada como método, ela transforma o sistema internacional em um espaço em que a distinção entre estratégia e improviso se torna cada vez mais difusa. A ameaça constante desgasta a confiança; a pressão simultânea multiplica os pontos de fricção; a cooperação hierárquica consolida assimetrias difíceis de reverter.
Talvez o efeito mais profundo da instabilidade deliberada não seja produzir mais conflito, mas alterar a própria natureza da ordem internacional. Quando a turbulência deixa de ser acidente e passa a ser tecnologia de poder, muda também o valor estratégico daquilo que antes parecia banal: previsibilidade, coordenação, confiança. Em um sistema assim, a estabilidade deixa de ser apenas condição da ordem – e passa a ser um recurso escasso, portanto geopolítico. Quem puder produzi-la, distribuí-la ou negá-la aos demais não estará apenas reagindo ao mundo: estará, em grande medida, definindo suas novas regras.
Bibliografia
1. Mearsheimer, J.J., The Tragedy of Great Power Politics. Updated ed. 2014, New York: W. W. Norton & Company.
2. de Melo, C.P., O mapa mental do poder: como elites governamentais decidem em cenários complexos – e os riscos de transformar a máquina pública em arma de guerra cultural. 2026. https://celsopdemelo.substack.com/p/o-mapa-mental-do-poder.
3. White House, Fact Sheet: President Donald J. Trump Declares National Emergency to Increase our Competitive Edge, Protect our Sovereignty, and Strengthen our National and Economic Security. 2025. https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2025/04/fact-sheet-president-donald-j-trump-declares-national-emergency-to-increase-our-competitive-edge-protect-our-sovereignty-and-strengthen-our-national-and-economic-security/?utm_source=chatgpt.com.
4. White House, Fact Sheet: President Donald J. Trump Announces “Fair and Reciprocal Plan” on Trade. 2025. https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2025/02/fact-sheet-president-donald-j-trump-announces-fair-and-reciprocal-plan-on-trade/?utm_source=chatgpt.com.
5. International Energy Agency, Critical Minerals Market Review 2023. 2023, IEA: Paris.https://www.iea.org/reports/critical-minerals-market-review-2023?utm_source=chatgpt.com.
6. United States Geological Service, Mineral Commodity Summaries 2023. 2023, USGS: Reston, VA. https://www.usgs.gov/publications/mineral-commodity-summaries-2023?utm_source=chatgpt.com.
[i] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
[ii] Jurista e teórico político alemão (1888–1985), conhecido por sua crítica ao liberalismo parlamentar, pela formulação da distinção amigo-inimigo e, de forma controversa, por seu vínculo com o nazismo.
CELSO PINTO DE MELO ” BLOG JORNAL GGN” ( BRASIL)
Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.