
Sem registros de militância política, vítima de espancamento, Celeste entrou para a história que mudou Portugal, mas não mudou sua vida.
O ditador português António de Oliveira Salazar governou Portugal por quase 40 anos, de 1932 a 1968, quando sofreu um AVC. Passou a viver uma realidade paralela, pois ninguém teve coragem de dizer que ele já não mandava no país. Como no filme “Adeus, Lenin”, cenas foram criadas, tais como entrevistas, despachos, falsas reuniões e até um jornal de exemplar único existiu para exaltar seus feitos.Play Video
Tão moribunda quanto Salazar estava a ditadura, já que na surdina estava sendo urdida uma revolução que, se fosse no Brasil, seria tratada como a Revolução Porcina, aquela que foi, é, sem nunca ter sido. O sonho socialista original de 25 de abril foi derrubado pelo golpe de 25 de novembro de 1975. Caiu o fascismo e o império, mas a utopia plena ruiu. Prevaleceu a democracia liberal europeia clássica.
Em meio à farsa, estava sendo urdida uma revolução até então pagã, mas que acabou batizada por conta de um gesto intuitivo da garçonete Celeste Caeiro. Simples atendente de lanchonete e desconectada da história, saiu distribuindo cravos vermelhos pelas ruas, após uma frustrada festa de aniversário do estabelecimento onde trabalhava. E assim, a revolução ganhou símbolo e nome.
Aos 90 anos, ela disse ao Diário de Notícias (Portugal): “Um soldado pediu‑me um cigarro. Eu não fumava, nunca fumei. Por segundos, fiquei a pensar como poderia compensar aquele rapaz, ali, em cima daquele carro, a lutar por nós. Estava ali a dar‑me uma coisa boa e eu sem nada para lhe dar. Sem pensar, tirei um cravo do ramo que levava e ofereci‑lho”. “Nunca mais encontrei aquele rapaz”, lamenta.
Em “Capitães de Abril”, a jornalista Ana Sofia Fonseca coletou testemunhos de mulheres, esposas e companheiras de alguns dos protagonistas principais da revolução. Com foco no “feminino”, ela mostra como as mulheres deram suporte às reuniões clandestinas, passaram manifestos e viveram a tensão do golpe. Conversas entre esposas e capitães, a madrugada da incerteza do desconhecido.
Parte da obra é dedicada à anônima balconista. Com apenas 18 meses de idade, Celeste foi internada na Creche do Alto do Pina, dirigida pela Santa Casa da Misericórdia. De vez em quando, a mãe ia visitá‑la. Saiu de lá aos 20 anos, com estudos de pré‑enfermagem, mas foi trabalhar numa fábrica de camisas, depois numa tabacaria, onde conheceu um cliente com quem foi viver.
Sem registros de militância política, vítima de espancamento do companheiro com quem não se casou, Celeste entrou para a história que mudou Portugal, mas não mudou sua vida. Sequer a fama lhe rendeu louros, mas guardou consigo alguns sonhos: reencontrar o soldado daquele abril, ver ao menos uma placa ou uma estátua no exato local do batismo da revolução que pôs fim à ditadura de 40 anos.
Naquele abril, o self-service “Franjinhas” estava completando um ano de existência. O gerente havia comprado cravos para oferecer às clientes, como cortesia comercial. Mas a madrugada que antecedeu a festa foi de conspiração política. Logo, a canção “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, escolhida como senha, seria tocada na Rádio Renascença, quando Celeste certamente dormia.
Com a revolução em curso, o restaurante não pôde abrir as portas; os cravos foram distribuídos pelos empregados. Celeste foi às ruas com uma braçada de cravos. Sem cigarro para oferecer ao soldado, então ciente do que estava acontecendo, ofereceu‑lhe um cravo. Num gesto intuitivo, colocou o cravo na ponta do fuzil, o que imitado por outros soldados. Assim, não só batizou a revolução como criou um símbolo.
De repente, o cenário de soldados armados em prédios e tanques, naturalmente assustador, passou a ganhar leveza. “Tenho 90 anos, ouço e vejo muito mal. Comovo‑me muito a falar deste dia. Os médicos dizem que me faz mal… Viva o 25 de Abril!” Celeste encantou no dia 15 de novembro de 2024, com 91 anos, sem realizar seus sonhos, inclusive o de um outro Abril.
ARMANDO RODRIGUES COELHO NETO ” BLOG JORNAL GGN” ( BRASIL)
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo