
Há algo de podre nos editorialistas do Estadão, nos elogios a Tarcisio.
O editorial do Estadão “Há algo de podre na Polícia Militar” é significativo — mas incompleto. Baseado nas reportagens de sua editoria policial e nas denúncias do promotor Lincoln Gakiya, o texto celebra a demissão do comandante da PM, coronel José Augusto Coutinho, por “gravíssima suspeita de que o ex-comandante teria prevaricado, no mínimo, diante da associação criminosa entre membros da Rota e o PCC”.

E mostra que “há algo de podre nos editoriais do Estadão”.
O que o editorial omite é o essencial: essa ascensão do PCC está intimamente ligada à decisão do próprio governador Tarcísio de Freitas de colocar Guilherme Derrite à frente da Secretaria de Segurança Pública. A única menção a Tarcísio no texto é elogiosa — “correta decisão do governador Tarcísio de trocar o comando da PM” —, seguida da observação de que “o afastamento de oficiais ligados ao ex-secretário Guilherme Derrite deve ser entendida como uma bem-vinda medida de depuração da corporação”.Play Video
Fantástico! Nenhuma palavra sobre o erro original de nomear Derrite. Nem sobre o fato de que o comandante da PM permaneceu no cargo por mais de dois anos após o surgimento das primeiras suspeitas.
Há algo de podre nos editorialistas do Estadão, de ignorarem as próprias reportagens do veículo.
A indicação de Derrite
A escolha de Guilherme Derrite para a Secretaria de Segurança já revelava as intenções de Tarcísio em relação à pasta. Segundo levantamento da revista Piauí, Derrite foi investigado por 16 homicídios ocorridos durante operações das quais participou. A certidão criminal apresentada ao TSE na época de sua candidatura a deputado federal já registrava sua presença em intervenções que resultaram em dez mortes em apenas três anos e nove meses — e havia ainda um sétimo inquérito não mencionado naquele documento, referente a mais seis mortes em uma operação sob seu comando. Três policiais militares foram denunciados e presos por tortura e assassinato no episódio, conhecido como Caso Barracuda — o mesmo que, em 2014, motivou seu desligamento da Rota, cujos superiores concluíram que “sua letalidade era alta demais”.
Derrite foi o primeiro oficial da PM paulista a ocupar a pasta da Segurança. A indicação por Tarcísio era deliberadamente ideológica: um tenente da Rota investigado por letalidade excessiva, com áudio em que exaltava mortes como critério de mérito policial, representava exatamente o sinal que o novo governador queria emitir — ruptura com qualquer orientação de direitos humanos e alinhamento com o modelo que o próprio Derrite elegeu como referência: o de Nayib Bukele em El Salvador. Seus primeiros atos foram aposentar oficiais da PM tidos como exemplo de profissionalismo.
O avanço do PCC
A gestão Derrite foi marcada por escândalos de infiltração do crime organizado nas forças policiais. O caso mais emblemático foi o assassinato do delator Vinícius Gritzbach no Aeroporto de Guarulhos, em novembro de 2024. A Polícia Federal indiciou 14 pessoas — entre elas quatro policiais civis paulistas, incluindo um delegado — por corrupção, extorsão, tráfico, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Em operação posterior, batizada de “Augusta”, a PF e o Gaeco-SP prenderam novos policiais por corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional e quebra de sigilo bancário.
O padrão vinha de antes. Em 2021, quando o MPSP deflagrou a Operação Sharks, o então líder do PCC nas ruas teria escapado após pagar R$ 5 milhões a PMs do setor de inteligência da Rota. O atual comandante da corporação teria sido informado — e não tomou providências.
Enquanto essa infiltração se aprofundava, o patrimônio de Derrite crescia de forma incompatível com sua renda declarada. O secretário está construindo uma mansão de 440 m² em condomínio fechado em Porto Feliz, com custo estimado em R$ 3 milhões — mais do triplo dos R$ 812 mil em bens que declarou ao TSE em 2022. O empreiteiro responsável pela obra afirmou, em conversa gravada com um jornalista disfarçado de cliente, que os pagamentos eram acertados com o empresário Guilherme Moron Peres Trindade, o “Gui Moron” — amigo de Derrite e figura frequente em agendas políticas do interior paulista.
O conjunto desenha um secretário que presidiu um aparato policial com infiltração sistêmica do PCC enquanto seu próprio patrimônio crescia às custas de relações opacas com empresários ligados ao governo.
A blindagem
Mais grave ainda: no primeiro semestre de 2024, Derrite atuou ativamente para dificultar a responsabilização interna dos policiais suspeitos. Segundo a revista Piauí, a Secretaria de Segurança alterou, sem alarde e sem publicação no Diário Oficial, as regras sobre afastamento de policiais investigados. Um boletim interno extinguiu o poder dos comandantes regionais de afastar e requisitar investigação contra militares envolvidos em ocorrências graves. A partir daí, apenas o subcomandante da PM, José Augusto Coutinho — homem de confiança de Derrite —, poderia retirar das ruas um policial suspeito de agressão, corrupção ou adulteração de cena de crime.
Tarcísio liberou Derrite para assumir a relatoria do projeto de lei sobre crime organizado. Em novembro de 2025, o promotor Gakiya já alertava publicamente: se o substitutivo apresentado por Derrite — entregue menos de 24 horas após sua nomeação como relator — fosse aprovado como redigido, a Polícia Federal e o Ministério Público poderiam ser excluídos do combate ao crime organizado.
Apesar de as melhores reportagens sobre Derrite terem saído no próprio Estadão, o editorial contentou-se em aplaudir Tarcísio de Freitas pela troca do comandante da PM — dois anos depois de divulgadas as primeiras suspeitas, e sem uma linha de autocrítica sobre quem instalou o problema.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)