IMENSA ILHA CELTA CHAMADA BRASIL

O Novo Mundo, descoberto pela Coroa de Castela, foi chamado de América em homenagem ao navegador e geógrafo florentino Américo Vespucci (1451 – 1512), que alguns historiadores do século XVI acreditaram, erradamente, ter sido o primeiro a vislumbrar o continente. O verdadeiro descobridor, o genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506), daria nome somente à Colômbia.

Já o pioneiro dos países americanos a conquistar a independência, os Estados Unidos, em 1776, tiveram sua denominação, certamente, motivada pelo antigo colonizador inglês, com a formação do Reino Unido, em 1707, agrupando, a própria Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda, que persiste até nossos dias – embora a Irlanda tenha se tornado independente, em 1922, e apenas a Irlanda do Norte permaneça no bloco da legendária Union Jack.

A Venezuela, cujo significado é Pequena Veneza, deve o nome a Vespucci e ao explorador espanhol Alonso de Ojeda (1468 – 1516), que, ao chegarem ao Lago de Maracaibo, em 1499, avistaram palhoças indígenas sobre palafitas, e se recordaram da exuberante metrópole da República de Veneza, ao Norte da Itália, com suas fascinantes gôndolas.

Chile deriva do termo “chilli”, que na linguagem dos índios Mapuches, habitantes autóctones da região, quer dizer “onde a terra acaba”. E o Brasil se chama Brasil, como aprendemos nas escolas, por causa do pau-brasil. Mas lendas célticas, durante a Idade Média (1453 – 1789), já mencionavam uma Ilha do Brasil no Atlântico Norte, a Oeste da Irlanda, que aparecia em diversos mapas editados na Europa até o século XVIII. Cogitou-se, também, que poderia estar no arquipélago português dos Açores, precisamente, na Ilha Terceira. Só mais tarde foi atribuída sua localização em nossa costa.  

A palavra Brasil vem de brasa, fogo, e foi difundida em vários idiomas pela coloração avermelhada da madeira, extraída de uma árvore natural da Floresta Atlântica. Muito apreciada em toda a Europa para tingir de rubro os tecidos produzidos no Velho Mundo. O primeiro nome da colônia lusa no Atlântico Sul foi Terra de Santa Cruz, depois, Terra |Nova, Terra dos Papagaios e, por fim, devido ao comércio do lenho, Brasil.

Os marinheiros que carregavam as naus com a madeira passaram a denominar o território de Terra do Brasil – e a expressão terminou por definir identidade do imenso Portugal quando os lusitanos cá encontraram as árvores cor de brasa e, sabiamente, a chamaram de pau-brasil. A força brasil da palavra seria a inspiradora, em 1922, em São Paulo, da Semana de Arte Moderna, de natureza antropofágica, liderada pelo escritor paulistano Oswald de Andrade (1890 – 1954).

Ele pretendia que o movimento se transformasse no símbolo da cultura de exportação do País – como o pau-brasil nos albores da colonização. A madeira é, até hoje, a grande matéria prima para a confecção dos arcos de violino, violoncelo e ainda outros instrumentos de corda. O Brasil impôs limites à derrubada da árvore nativa e, atualmente, os maiores fornecedores são os chineses. Há cerca de 200 anos, a madeira é usada nos arcos, que, aqui, continuam a ser fabricados, principalmente, no Espírito Santo, porém, não mais utilizam o pau-brasil, mas, sim, a maçaranduba. 

Marinheiros deram nome ao País da ilha celta e Oswald Andrade sonhou, na ‘pauliceia desvairada’, uma cultura forte e devastadora como o fogo – o que, de certo modo, prevaleceu, no caráter nacional. Como sintetizou o poeta da Tropicália, Caetano Veloso, sob o sol do carnaval baiano de 1972, ao misturar, num verso, samba, suor e cerveja.

ALBINO CASTRO “PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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