E O DIRETOR DO BANCO CENTRAL, ACUSADO PELA GLOBO, É INOCENTE.

Há várias maneiras de direcionar uma cobertura. Uma, dando destaque ao que se quer mostrar e escondendo o que atrapalha a manchete.

A figura do jornalista-sela é definida como aquele que se deixa cavalgar pela fonte. Recebe a informação, não checa com outras fontes, não aprofunda a matéria, e publica do jeito que a fonte manda.

Usei esse termo quando a jornalista Malu Gaspar crucificou o diretor de fiscalização do Banco Central, baseado em vazamentos proporcionados pela força tarefa da Polícia Federal que atuava no caso Master.

De acordo com sua versão, o Conselho do BRB, composto só por raposas, comprou a carteira do Master pressionado pelo diretor de fiscalização do Banco Central. Baseava-se em um vídeo encontrado pela perícia da PF mostrando o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino, em uma fala interpretada como pressão para o Conselho aprovar a compra da carteira.Play Video

Durante pelo menos uma semana, um servidor de carreira, de reputação ilibada, foi submetido a acusações pesadas, que afetaram sua vida pessoal e de sua família.

Aí, os fatos – esses malditos fatos, inimigos do jornalismo-sela – se apresentam, e vão reconstruindo a história, atropelando a Operação Lava Jato 2.

Hoje, a coluna de Gaspar – “Master descartou ao TCU ‘má gestão’ e ‘risco de colapso’ seis meses antes de BC liquidá-lo” – tem como intertítulo “À época, Banco Central já havia detectado a deterioração dos indicadores do banco de Vorcaro e feito uma série de alertas”.

Nenhuma menção a Aílton de Aquino, nenhum “erramos”, nenhum pedido de desculpas. A matéria se baseia em informações do Tribunal de Contas da União, enviadas pelo procurador lavajatista Júlio Marcelo de Oliveira, do círculo de fontes de Gaspar, conforme pode-se conferir aqui.

A matéria mostra Júlio Marcelo pretendendo que o TCU obrigasse o BC a rejeitar a compra do banco Master pelo BRB. Em junho do ano passado, segundo a matéria, a representação do procurador lavajatista foi rejeitada por unanimidade no plenário do TCU, “seguindo um entendimento da área técnica, que apontou não haver ´evidências concretas´ de omissão do BC e concluiu que o tribunal não possuiria competência para fiscalizar o patrimônio do BRB e do FGC”.

E os dirigentes do BRB, supostamente pressionados pela fala de Ailton Aquino? Com base em auditoria da Kroll e da Machado Meyer Advogados, 30 dirigentes deverão ser responsabilizados e 10 teriam tido responsabilidade criminal.

Continua a reportagem: “Além disso, o Banco Central já havia detectado a deterioração dos indicadores do banco de Vorcaro e feito uma série de alertas, um ano antes de o Master negar ao TCU enfrentar crise de liquidez. Ainda no primeiro semestre de 2024, o Banco Central exigiu a adoção de medidas para a “adequação da gestão de liquidez” – primeiro por meio de ofício enviado em 28 de maio de 2024 e depois, em reunião presencial com representantes do Master, em 12 de junho”.

Matéria de Gaspar, em 29.01.2026, no entanto, incriminava o diretor de fiscalização do BC.

“A conclusão geral, porém, foi de que se tratava de um pedido do “regulador”, ou seja, do Banco Central. Assim, por decisão unânime, foi aberta uma exceção, registrada em ata como um “waiver” de 15 dias para a compra de R$270 milhões em créditos do Master. As mensagens não foram citadas na ata da reunião”.

Há várias maneiras de direcionar uma cobertura. Uma, dando destaque ao que se quer mostrar e escondendo o que atrapalha a manchete.

No pé da matéria, sem nenhuma menção no título e no intertítulo, a resposta do representante dos funcionários no Conselho do BRB: “Procurado pela reportagem, Ricardo Rodrigues disse que não houve informação sobre possíveis mensagens de Aquino e afirmou que, mesmo tendo proposto a suspensão das compras de carteira, uma vez que já se negociava a compra do próprio Master, aceitou aprovar a operação de R$ 270 milhões porque ela já estava em curso. Marcelo Talarico, a quem as mensagens foram mostradas, não quis comentar”.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” (BRASIL)

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