UMA ESTRANHA DERROTA

Os Estados Unidos parecem perdidos na estratégia militar e o Irã ganhou a primeira batalha da sobrevivência

Durante a guerra do Vietnã, um senador de Vermont, George Aiken, aconselhou o presidente a “declarar vitória e a regressar a casa”. Lyndon Johnson não aceitou a sugestão — e os Estados Unidos acabaram a sair do Vietnam derrotados e humilhados perante o mundo. Muitos anos mais tarde, Robert McNamara, o secretário de Estado da Defesa desse tempo, declarou em entrevista televisiva, que os americanos haviam subestimado a motivação e a resistência do povo vietnamita — a força dominante no combate nunca foi a causa comunista, mas o nacionalismo e a independência: “We were wrong, terribly wrong” disse, amargurado, já no final da sua vida.

Sessenta anos depois, o mesmo sentimento de arrogância militar e de cegueira política com a própria propaganda, ameaça de novo os americanos. Também o presidente Trump anda à procura de uma saída fácil para a guerra, também ele menosprezou o nacionalismo iraniano e desconsiderou a resistência do regime. Um mês depois do início da guerra os Estados Unidos parecem perdidos na estratégia militar e o Irã ganhou a primeira batalha da sobrevivência.

E, no entanto, as coisas estão a correr tão mal que a opção de “declarar vitória e regressar a casa”, sendo a mais sensata para quem não sabe o que fazer, será vista exatamente como é — uma derrota estratégica dos Estados Unidos numa guerra que foi um tremendo erro político. A credibilidade da liderança americana nos assuntos globais está abalada e a posição do Irão como potência regional está agora reforçada. Assim estão as coisas. Por agora.

Mas voltemos atrás vinte anos, para entender melhor os novos tempos. A guerra do Iraque em 2003 começou com a mentira das armas de destruição maciça, esta nova guerra com o Irã não teve sequer a preocupação de arranjar uma desculpa. Começou com uma agressão militar nua e brutal e prosseguiu com um desejo doentio de violência matando os dirigentes inimigos com os quais, uns dias antes, se pretendia assinar a paz, na sequência de negociações que decorriam no momento do ataque. Não, esta guerra não é só uma violação do direito internacional, é uma guerra covarde, desonrosa e traiçoeira. Uma vergonha que manchará por muito tempo a reputação americana.

O resto do mundo ocidental olha para a desgraça da guerra completamente desorientado. A Europa, a pobre Europa, não condenou o uso da força, mas condenou os ataques do Irã aos países vizinhos. Não condenou a agressão, mas a resposta à agressão. É este o apego que a Europa mostra ao direito internacional — vale para os outros, não para nós, nem para os nossos aliados. Vale para a Rússia, não para os Estados Unidos. O grande Ocidente é a grande hipocrisia. Quem diria que seria a diplomacia chinesa a fazer, neste mundo tumultuoso, a diplomacia da paz, da cooperação económica e da defesa do papel das organizações internacionais na arbitragem dos diferentes interesses nacionais? Sim, quem diria?

Fica-nos, como singular consolação, o exemplo espanhol. Nada mais merece atenção neste triste teatro politico ocidental em que Europa é tratada como “ valet de chambre” imperial. Na guerra do Iraque, há mais de vinte anos, a Alemanha, a França, e a grande maioria da esquerda europeia, opuseram-se com coragem à guerra e disseram não aos Estados Unidos. Hoje, na guerra contra o Irã, o único que condenou explicitamente o uso da força militar foi o primeiro-ministro espanhol.

O herói europeu de 2003 foi Dominique de Vlllepin, ministro dos Negócios Estrangeiros Francês, cujo discurso no Conselho de Segurança da Nações Unidas é, ainda hoje, lembrado como marco da autonomia estratégia europeia. Hoje resta-nos a coragem espanhola de Pedro Sanchéz, numa altura em que Europa parece pedir a sua retirada dos assuntos do mundo e a esquerda europeia desaparece de vez. Em Portugal, o mesmo: o governo não condenou a guerra, mas queixa-se das consequências económicas. A esquerda portuguesa faz o possível por passar despercebida — parece contente por estar na oposição. Assim estamos. Por agora.

JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( PORTUGAL / BRASIL)

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