
Quase meio século depois do golpe de 24 de março de 1976, neste contexto de negação e avanços reacionários e antipopulares, apresento este plano simples de dez pontos para compreender a profundidade do que a ditadura militar representou para o nosso país.
1.
Contrariamente à imagem de um poder revolucionário em ascensão que a ditadura utilizava para se justificar, em março de 1976 as organizações guerrilheiras — principalmente os Montoneros e o ERP — já estavam militarmente derrotadas. A Operação Independência em Tucumán e as ações paramilitares do Triple A já haviam destruído sua capacidade ofensiva. O golpe não visava conter uma ameaça iminente, mas sim aprofundar um plano de aniquilação e controle social que as Forças Armadas vinham implementando com métodos de terrorismo de Estado antes mesmo de assumirem formalmente o poder. O número de vítimas do terrorismo de Estado é indeterminado devido à própria metodologia escolhida para a repressão: a clandestinidade e a destruição de corpos.
2.
O período de 1976 a 1983 foi marcado pela supressão sistemática dos direitos humanos pelo Estado. A metodologia empregada foi o terrorismo de Estado: desaparecimentos forçados, tortura generalizada em centros de detenção clandestinos, exílio em massa e apropriação criminosa de bebês. As garantias constitucionais foram eliminadas, o judiciário foi tomado, líderes sindicais e políticos foram perseguidos e um controle rígido foi imposto à produção cultural e à vida cívica.
3.
Na frente econômica, o governo militar marcou uma mudança estrutural: o fim do modelo de industrialização por substituição de importações. Implementou-se uma liberalização comercial indiscriminada, devastando a indústria nacional; a especulação financeira foi priorizada em detrimento da produção; e contraiu-se uma dívida externa fraudulenta, que aumentou seis vezes. A pobreza quintuplicou e a participação dos trabalhadores na renda nacional despencou, consolidando uma matriz de exclusão que moldaria as décadas seguintes.
4.
O movimento operário foi um dos principais alvos da ofensiva repressiva e disciplinar. A CGT (Confederação Geral do Trabalho) e os sindicatos foram tomados, o direito à greve e à atividade sindical foi suspenso, e milhares de delegados e ativistas foram detidos, desapareceram ou foram demitidos. A queda nos salários reais ultrapassou 30% em 1976. A ditadura não só perseguiu os trabalhadores, como também transferiu violentamente a renda.
5.
Os jovens eram um segmento da sociedade particularmente visado pelo terrorismo de Estado. A maioria das vítimas do sistema repressivo tinha entre 21 e 35 anos. Tratava-se de uma política deliberada de controle social com o objetivo de eliminar a participação política, o ativismo comunitário e estudantil, e qualquer expressão cultural considerada “subversiva”. O desaparecimento de milhares de jovens resultou em uma divisão geracional cujas consequências políticas e sociais ainda são sentidas hoje.
6.
A repressão cultural não foi um fenômeno incidental, mas uma política sistemática destinada a impor a “moralidade ocidental e cristã” como um dogma exclusivo. Listas negras foram elaboradas, livros foram queimados, músicas e filmes foram proibidos, e artistas, jornalistas e professores foram perseguidos. O objetivo era eliminar o pensamento crítico e homogeneizar uma sociedade disciplinada pelo medo e pela censura.
7.
O sistema educacional foi tomado e uma abordagem autoritária e disciplinar foi imposta. Bibliotecas foram expurgadas, professores e alunos foram perseguidos e escolas foram transferidas para as províncias como parte de um ajuste que também foi ideológico. A educação deixou de ser vista como um direito e passou a ser concebida como um privilégio, sob um modelo que combinava a doutrinação em valores tradicionais com uma orientação neoliberal emergente.
8.
O exílio foi uma consequência direta da perseguição política e da censura. Milhares de argentinos — políticos, intelectuais, artistas, cientistas e famílias inteiras — foram forçados a deixar o país para proteger sua segurança. Longe de ser uma escolha voluntária, constituiu um banimento forçado. Do exterior, muitos exilados ajudaram a denunciar crimes contra a humanidade e a manter uma rede de solidariedade e resistência que trouxe à luz o que estava acontecendo na Argentina.
9.
A Guerra das Malvinas, em 1982, representou o ponto de virada definitivo para o regime. Em termos humanos, significou a morte de 649 soldados argentinos, mais de mil feridos e uma crise de saúde mental entre os veteranos, que levou a centenas de suicídios devido ao abandono por parte do Estado. No âmbito diplomático, resultou no isolamento internacional e no rompimento das relações com o Reino Unido até 1990. Mas, acima de tudo, a Guerra das Malvinas acelerou o colapso do prestígio militar e abriu caminho para a transição política que culminaria na restauração da democracia.
10.
A busca por justiça na Argentina pelos crimes da ditadura constitui um marco internacional. Do Julgamento das Juntas, em 1985, à revogação das leis de impunidade, o país desenvolveu um processo exemplar de memória, verdade e justiça. Distante de qualquer lógica de vingança, esse processo representa o fundamento ético de uma sociedade que escolheu a lei como antídoto à barbárie e que mantém viva a causa dos direitos humanos como política de Estado, mesmo diante daqueles que, ainda hoje, das mais altas posições, tentam justificar o terror.
FEDERICO LORENZ ” PÁGINA 12″ ( ARGENTINA)