LULA E O MAIS DO MESMO

Agora está na hora de entender o novo momento, a construção da fé no futuro, a esperança de que amanhã será melhor do que hoje.

Em uma disputa com qualquer dos Bolsonaro, eu votaria no Lula, é evidente. Porque ele representa a continuidade democrática, a soberania nacional, a esperança de impedir o desmanche do país.

Mas, em termos de construção do futuro, seria mais do mesmo. O país continuaria amarrado ao livre fluxo de capitais, exigindo taxas de juros elevadas, os spreads bancários continuariam nas alturas, a política industrial seria uma série de esboços sem envolver mercado, indústria, comércio, sindicatos, movimentos sociais.

O problema é que para a parte decisiva do eleitorado – aquele que ainda não definiu seu voto -, a construção do futuro é peça central, a criação da esperança, a perspectiva de que amanhã será melhor do que hoje, são elementos centrais. A construção do sonho não passa apenas pelos dados do PIB ou do IPCA.Play Video

H

O governo JK registrou uma inflação média de 25% a 30% ao ano, um déficit público entre 2% a 4% do PIB, uma dívida externa que, entre 1955 e 1961, saltou de US$700 milhões para US$3 bilhões. Mas com o PIB crescendo 7% ao ano, uma industrialização acelerada.

A situação atual do Brasil é incomparavelmente melhor do que a de JK. Mas não há espaço para repetir alguns dos recursos de JK – crescimento com inflação e gastos públicos. Mas a lição maior continua de pé: desenvolvimento exige coordenação. JK entendia que o país precisava de direção, escala e prioridade.

Sem esses planos, sem um discurso de mobilização, o mais do mesmo irá se impor. O país continuará com Selic de dois dígitos, para administrar o carry trade, continuará com o vôo de galinha, abrirá terras raras e energia verde a parcerias estrangeiras, sem dispor de uma estratégia clara de contrapartidas.

Grande parte da carreira de Lula se deveu à sua notável intuição, de entender um país que aspirava o combate à miséria e as formas de inclusão social. Agora está na hora de entender o novo momento, a construção da fé no futuro, a esperança de que amanhã será melhor do que hoje.

Vale não apenas para as eleições, mas para legitimar um eventual quarto mandato. Há uma sede de Brasil, presente em todos os cantos, na torcida pelo Oscar, até em competições alpinas, na explosão da nova música nordestina. O Brasil quer Brasil e Lula precisa se dar conta disso. E a maneira de atender esta demanda é ter um plano de meta com uma marca Lula, com várias metas, cada qual envolvendo vários setores.

Há várias pontas soltas aguardando a costura final de um plano de governo: os investimentos do BNDES, as propostas da Nova Indústria Brasil, a transição energética. E há jogadores de primeiríssima aguardando a convocação para o grande projeto nacional: universidades, institutos de pesquisas, confederações empresariais e sindicais, movimentos sociais, organizações da sociedade civil.

A bola está na marca do pênalti pedindo a Lula para chutar.

Se Lula julga que já deu tudo o que tinha dar ao país – e sua contribuição para a preservação do Brasil como Nação é imensa – lamento informá-lo que não deu. Personagens da história, como ele, só se aposentam quando apontam sucessores capazes de levar adiante e aprimorar sua obra. Um quarto mandato se justificaria não pelo reconhecimento de tudo o que ele fez até agora pelo país, mas pela esperança de que amplie seus horizontes e apresente um plano de construção do país do século 21.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *