
Volta o procurador de contas Júlio Marcelo de Oliveira, figura-chave no impeachment de Dilma, conduzido por Miriam Leitão, atacando Pochmann
É batata! A banda lavajatista da Polícia Federal deu o tiro de partida, municiando jornalistas bolsonaristas contra Ministros do Supremo Tribunal Federal. De repente, o foco do escândalo deixa de ser o Banco Master, com sua plêiade de governadores e políticos do Centrão, com a gestão Roberto Campos Neto, e passam a ser os contratos dos Ministros.

Agora, volta à cena política o procurador de contas Júlio Marcelo de Oliveira, figura-chave no impeachment de Dilma Rousseff, conduzido pelas penas de Miriam Leitão, que demorou um pouco para abandonar sua postura moderada, mas não resistiu aos velhos novos ventos. Segundo a matéria, “Procurador pede afastamento de Pochmann do IBGE e cita risco à credibilidade dos dados do PIB”.
Pochmann enfrentou conflitos internos no IBGE, por pretender transferir parte dos técnicos de um prédio alugado para um imóvel próprio, mas em região de transporte mais difícil. E também por pretender remodelar e modernizar o campo de pesquisas do órgão, algo que sempre incomoda técnicos acostumados por décadas com as mesmas tarefas.
Segundo Míriam, “o procurador também salienta a importância dos dados do PIB no período eleitoral e a necessidade de evitar fraudes”. E continua: “Em um contexto de fragilidade institucional e volatilidade financeira, qualquer dúvida sobre a lisura dos principais indicadores nacionais pode desencadear efeitos sistêmicos graves, agravando a crise e ampliando os danos ao Tesouro Nacional”.
Depois disso, o dilúvio. Pochmann não foi ouvido, nem pelo procurador, menos ainda por Miriam. Não analisaram as estruturas do órgão, a impossibilidade de qualquer manipulação e o que representa as tentativas de modernizar as estatísticas. Tudo virou suspeita de manipulação – campo em que Miriam deitou e rolou no período da Lava Jato, mas que parecia ter superado.
Júlio é um funcionário intrinsecamente político. No auge da campanha das “pedaladas” eu mesmo testemunhei um almoço dele com Marcos Lisboa, principal teórico do chamado “arco para o futuro”.
As tais “pedaladas” consistiam em empréstimos que governos centrais faziam de bancos públicos no decorrer do ano. E eram liquidados no final. Recorreram a essa prática Fernando Henrique Cardoso e Lula. Eram tratados como meros atrasos de pagamento entre Tesouro e bancos públicos, não configurando operação de crédito formal.
Júlio passou a interpretar as operações como operações de crédito do banco para o governo, o que seria proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.
Em parceria com a mídia, “pedaladas fiscais” foram transformadas em algo tenebroso, quase uma loira no banheiro das questões fiscais. E foi essencial para o impeachment de Dilma Rousseff.
As mudanças no IBGE
Agora, volta a loira do banheiro.
Segundo Júlio, um dos crimes de Pochamnn seria substituições de servidores de carreira em áreas técnicas estratégicas, como Contas Nacionais, “com a nomeação de servidores recém-ingressados e ainda em estágio probatório para funções de alta complexidade”.
Não é a primeira vez que Miriam Leitão acusa Pochmann de suspeita de provável futura manipulação de estatísticas, mostrando uma capacidade invejável de desenhar o futuro. Não foi capaz de entender a natureza das mudanças. Apegou-se ao discurso de um dos grupos da instituição, e o resto virou bandido. Simples assim.
Vamos tentar sofisticar minimamente a análise,
Há três grupos de atuação no IBGE.
1. Corpo técnico tradicional
É a corrente que dominou o instituto por décadas. São funcionários de carreira, com forte vínculo com redes internacionais de estatísticas, e defesa rígida da autonomia técnica das estatísticas nacionais. Tem forte presença nas áreas: Contas Nacionais, IPCA, PNAD e estatísticas estruturais. E incomodam-se, naturalmente, com mudanças, que tendem a mudar as relações hierárquicas do órgão.
2. Corrente ligada à presidência do IBGE
São técnicos com trajetória acadêmica ou administrativa externa, que defendem novos produtos estatísticos, maior diálogo com políticas públicas e criação da Fundação IBGE+, para permitir a intermediação de projetos de pesquisa, hoje soltos nas mãos de técnicos do instituto.
São técnicos da Unicamp, IPEA e centros de economia em desenvolvimento, quase todos funcionários de carreira do IBGE.
3. Corrente geotecnologia e de dados
São especialistas em: georreferenciamento, big data, satélites e registros administrativos
Essa corrente defende que o IBGE migre para modelos híbridos de estatística (survey + dados digital.
Com apoio de Pochmann, esse grupo pretende a construção de um grande hub para análises preditivas, próprias para orientar políticas públicas. Análises preditivas são métodos estatísticos e computacionais usados para estimar o que provavelmente acontecerá no futuro, a partir de dados históricos e padrões observados.
O currículo dos técnicos
O que tem, como se observa, é uma tentativa de renovar os métodos do IBGE, que acaba tirando a tranquilidade dos técnicos mais antigos. Qualquer mudança passa, então, a ser tratada como tentativa de manipulação, dentro do processo de criminalização típico dos que Miriam Leitão praticou no período da Lava Jato e do impeachment.
Todos os técnicos que assumiram cargos no modelo tem carreira acadêmica respeitada e são funcionários de carreira do IBGE. E são especialistas em áreas até agora não tratadas pelo órgão.
O debate não é apenas sobre nomes — é sobre o modelo de estatística pública para as próximas décadas.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN”( BRASIL)