REVELAÇÕES TENEBROSAS QUE ABALAM A REPÚBLICA

Os fatos no Brasil se sucedem a tal velocidade (com repercussões amplificadas pelas narrativas de cada lado do espectro político das redes sociais), que o jornalista responsável em pesquisar várias fontes de informação precisa redobrar a cautela e as checagens, para não emitir um juízo leviano.

Antes de vazarem as revelações do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, que deixavam em situação no mínimo desconfortável os ministros Alexandre de Moraes e José Antônio Dias Toffoli – troca de mensagens telefônicas que Moraes, relator do julgamento no STF que condenou o ex-presidente Bolsonaro e seus companheiros da trama golpista, negou através de nota oficial -, o assunto que mais chamava a atenção era a confissão do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, de que Jair Bolsonaro, então candidato à reeleição em 2022, ficou contrariado com o depósito recorde de R$ 3 milhões em sua conta pelo dublê de pastor e financista Fabiano Zettel.

A revelação foi feita na edição de domingo passado no “Canal Livre”, da TV Bandeirantes. Com a sinceridade que, por vezes, lhe queima a língua, o presidente do PL disse que Bolsonaro ficou contrariado em receber um depósito em conta corrente, “preferia receber em dinheiro vivo”. Dinheiro vivo não deixa recibo nem é rastreado pelo Tribunal Superior Eleitoral ou pelo Coaf (o controle das movimentações financeiras no país). Vale dizer que Fabiano Zettel, casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, é pastor da igreja evangélica Lagoinha, de Belo Horizonte (MG), e também doou R$ 2 milhões, em depósito bancário (com identificação e recibo), para a campanha do candidato a governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, eleito pelo Republicanos-SP.

(A suposta conversa telefônica de 17 de novembro de 2025, entre Moraes e o banqueiro desesperado pela informação de que seria preso (seus cúmplices “hackeavam” a PF e o MPF), na verdade, não era uma interlocução com o celular do ministro – fato que deve ser melhor esclarecido por Moraes).

Na última quarta-feira, tanto Daniel Vorcaro quanto o cunhado e parceiro de negócios no Banco Master, Fabiano Zettel, foram presos pela Polícia Federal, por determinação do ministro André Mendonça, novo relator do caso Master no STF. Também foi preso na mesma operação o “sicário” Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela Polícia Federal como responsável por monitorar e planejar ataques contra adversários do banqueiro. No grupo apelidado de “A Turma” no celular de Vorcaro, o “sicário”, que tinha longa folha corrida nas delegacias de BH, era encarregado de “moer” adversários e espionar a PF, o Ministério Público Federal e até o FBI. Com tantos segredos e responsável por “pirâmide financeira” na capital mineira, o que estouraria com sua prisão, “sicário” morreu sexta-feira, no hospital, após tentar suicídio (não se sabe por qual dos motivos) dia 4, quarta-feira, na carceragem da PF mineira.


A tradição do dinheiro ‘cash’
A preferência por doações “cash” era uma tradição brasileira. Até Fernando Collor, eleito em 1989,  sequestrar os ativos financeiros em março de 1990, e também acabar com o cheque ao portador e aplicações e depósitos financeiros não identificados, era uma prática tão poderosa que os “tesoureiros de campanha” movimentavam fortunas e guardavam segredos. PC Farias, tesoureiro de Collor, morreu em circunstâncias não totalmente esclarecidas. De Paulo Maluf dizia-se que não se importava em perder nas urnas eleições presidenciais ou ao governo de São Paulo. Os ganhos na campanha compensavam.

Jânio Quadros, “o homem da vassoura”, candidato do UDN que ia combater a corrupção, em 1960, começou a despontar como favorito na disputa contra o marechal Henrique Lott, ex-ministro do Exército de Juscelino Kubitscheck. Pelo vasto canteiro de obras em que se transformou o Brasil, com a construção de Brasília e a abertura de estradas que ligassem as capitais estaduais à futura capital do país, os empreiteiros estavam apoiando Lott, candidato de JK. Entretanto, já naquela época, era comum os grandes empresários tentarem ficar bem com os dois lados da disputa (vide o que andaram fazendo banqueiros e a Odebrecht até à “Lava-Jato”). Líder dos empreiteiros do Rio de Janeiro (ainda a capital federal), Harold Polland reuniu colegas da construção pesada para um encontro com JQ em manhã de domingo, antes das eleições de outubro de 1960.

Marcado para as 11 horas, Jânio chegou sozinho, com uma pasta de couro, pouco depois das 10h30, ao apartamento do empreiteiro, morador do Edifício Chopin, na Avenida Atlântica, antes do alargamento (de 1968). Solícito, Polland indagou ao candidato se aceitava um refrigerante ou uma outra bebida. “Um uísque mesmo”, bradou JQ. Harold Polland deu dinheiro ao motorista para comprar um “scoth” legítimo no vizinho Copacabana Palace. Com o “scoth” em mãos, perguntou se queria com gelo. “Puro mesmo”, disse cruamente Jânio Quadros, que se serviu de uma dose tripla e bebeu até ficar corado.

Os empreiteiros foram chegando e Harold Polland (cujo nome foi dado a um viaduto na BR-40, na serra de Petrópolis) fazia as apresentações. Ao fim das quais, fez um pequeno discurso, manifestando a disposição dos empreiteiros em ajudar na campanha, citando a montagem de palanques nas grandes capitais e a possibilidade de doações em dinheiro. “Em espécie mesmo”, exclamou Jânio, para espanto geral, e foi abrindo a pasta para recolher as contribuições de cada empresário. Finda a coleta, sem promessas, Jânio agradeceu a colaboração e se despediu à francesa. O caixa de campanha bancou sua permanência por meses em Londres, após a renúncia, em 25 de agosto de 1961. Ao morrer, após ser prefeito de São Paulo, tinha uma fortuna em imóveis.

A preferência dos Bolsonaro por dinheiro em espécie está comprovada nas “rachadinhas” nos gabinetes do filho 01, quando era deputado da Alerj, o agora senador e candidato do PL à Presidência em 2026, Flávio Bolsonaro, e no do filho 02, o ex-vereador Carlos Bolsonaro, que renunciou ao mandato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro para concorrer ao Senado pelo PL de Santa Catarina. Tão logo quando indiciado na trama golpista, o ex-presidente lançou uma “vaquinha” nas redes sociais para custear a defesa dos advogados. Arrecadou uma vasta “boiada” de mais de R$ 17 milhões via Pix, dos quais destacou R$ 2 milhões para o filho 03, o agora ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tramar nos Estados Unidos contra o Brasil, instigando o tarifaço de Trump e a tentativa de parar o julgamento do STF. Bolsonaro gastou R$ 8 milhões com os advogados até aqui.

Por tudo isso, existem não só os controles de movimentação financeira do Coaf. A Justiça Eleitoral praticamente proibiu contribuições de empresas a campanhas eleitorais. É preciso ter a identificação do doador, pessoa física. No entanto, como as igrejas (de qualquer denominação) estão isentas de prestarem contas ao Imposto de Renda, além de exercerem forte influência sobre os eleitores evangélicos, novos “currais eleitorais” das grandes cidades e suas periferias, os pastores podem fazer operações triangulares com empresas (recebem dízimos e ofertas e “lavam” parte do dinheiro em doações dos pastores). Toda a atenção deve ser redobrada pela Justiça Eleitoral, e o caso Master pode indicar muitas práticas que extrapolam a “maior fraude financeira” do país.

O ‘modus operandi’ do Master
As investigações da PF vêm revelando um lado oculto e mafioso das atividades do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que vai muito além da alavancagem de recursos no mercado (no varejo, com a garantia de aplicações até R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e no atacado, com aplicações de fundos de pensão, com apadrinhamento político. Por sinal, por pouco o “senador amigo” Ciro Nogueira (PP-PI) não emplaca emenda que elevaria para R$ 1 milhão, em 2024, a garantia do FGC à captação em CDBs e letras financeiras. Multiplicaria por quatro a alavancagem do banco de Vorcaro. As investigações devem revelar as entranhas da parceria de Vorcaro (agora preso e despido da vaidade dos cabelos longos e da barba cultivada, submetido ao tratamento dos presos comuns: cabelo e barba raspados, camiseta e chinelo; como aconteceu com o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral). É curioso que os dois partidos que mais o apoiaram, o Progressista (PP) e o União Brasil, negociem uma federação – a “União Progressista”. 

Mas as operações de “hackers” junto à PF e ao MPF, as quais era encarregado de contratar o falecido “sicário”, que permitiram a Vorcaro saber, com antecedência [até para “consultar Moraes” na conversa ainda não bem explicada], da existência de mandado de prisão da 10ª Vara Federal de Brasília (vazada para site amigo e ensejando ação cautelar imediata de seus advogados no dia 17/11/25, quando foi preso ao embarcar para Dubai, com escala no paraíso fiscal de Malta, no Mediterrâneo), revelam ainda corrupção com instâncias administrativas. Ao ser preso, Vorcaro alegou que iria “negociar a venda do banco com o fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos” (o banco foi liquidado pelo BC dia 18 de novembro). 

Inquérito interno do BC indicou que o ex-diretor de Fiscalização da gestão Paulo Roberto Campos (2019-2024, período em que o Master, constituído em 2018, após a compra do Banco Máxima, deslanchou), Paulo Sérgio Souza, que, como funcionário de carreira do BC, passou a atuar como superintendente de Fiscalização, ao ser substituído por Aílton Aquino em janeiro de 2025, na gestão Gabriel Galípolo, exercia o papel duplo de funcionário do BC e despachante de luxo do Master. Trocas de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, mostram uma cobrança ríspida de Vorcaro pelo não pagamento dos “serviços de consultoria” de Paulo Sérgio Souza, através de suposta empresa de consultoria. Outro superintendente, de supervisão bancária, Belline Santana, também foi afastado por suspeita de corrupção pelo BC. Há a negociação de uma fazenda de Paulo Sérgio e um irmão, em Muzambinho (MG), por R$ 30 milhões, para um fundo administrado por Zettel, que servia a encobrir operações escusas do Master. Trata-se da mesma dinâmica ou “modus operandi” que envolveu a compra de cotas do Spa Tayayá, da família do ministro José Antônio Dias Toffoli, em Ribeirão Claro (PR). Pelo contrato milionário do Master com o escritório Barci de Moraes e filhos, gerido por sua mulher, Viviani Barci de Moraes, o ministro Alexandre de Moraes deve explicações mais amplas e diretas do que a nota oficial da Secretaria do STF.

O lado mais cabeludo
Ao mesmo tempo em que Daniel Vorcaro foi despido da vaidade de sua cultivada cabeleira e barba torneada, vieram à tona escabrosas revelações de orgias sexuais paralelas a seminários promovidos pelo Master no exterior. Convém falar disso no Dia Internacional da Mulher.

À imagem e semelhança do caso de Jeffrey Epstein, “suicidado” na prisão nos Estados Unidos em 2019, durante o primeiro governo Trump, hoje novamente assombrado pelas acusações de pedofilia com meninas de 13 a 17 anos – que levaram à prisão o Príncipe Andrew, no Reino Unido, Vorcaro tinha seu Epstein caboclo. Ele recrutava moças para viajar nos jatos do grupo Master e animar os convescotes no exterior com a presença de empresários, políticos e altas autoridades do Judiciário e do Banco Central. Como Epstein, a preferência era por modelos louras ou de pele clara, e que fossem estrangeiras, sem domínio do português, para deixar os convidados mais desinibidos.

Trump ataca Irã mirando a China
É impossível desconsiderar que o objetivo do segundo governo Trump é evitar que a China tire a hegemonia americana na economia. Em paridade do poder de compra, o PIB chinês já passou o dos Estados Unidos. Recapitulando as ações de Trump, elas começam com os tarifaços. E seguem com a tentativa de bloquear a produção de circuitos eletrônicos (“chips”), mediante restrições ao acesso global às terras raras. Houve efeito bumerangue. As cadeias de produção nos EUA foram atingidas e foram feitas exceções aos “chips” e às próprias tarifas. De resto, derrubadas pela Suprema Corte no mês passado.

Restou a Donald Trump atacar a China no ponto mais sensível: a dependência do petróleo e do gás importados. A aliança com Israel no ataque ao Irã, dono das terceiras maiores reservas de petróleo do mundo, e que tem na China seu maior cliente (o Brasil exportou 32% para lá no último trimestre de 2025), veio a calhar. Mas veio precedido pelo ataque à Venezuela para captura do ex-ditador Nicolás Maduro e a reabertura do acesso das petrolíferas americanas às maiores reservas de petróleo do mundo. Com autossuficiência atual e futura dos EUA, o teatro de guerra no Oriente Médio só prejudica a China, a Índia e as demais economias concorrentes à americana, agora atingidas mais duramente que pelo tarifaço. Com o pré-sal, o Brasil está, por ora, beneficiado.

GILBERTO DE MENEZES CÔRTES ” JORNALDO BRASIL ” ( BRASIL)

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