” SER INIMIGO DOS EUA É PERIGOSO, SER AMIGO É FATAL”

As periferias deixaram de obedecer e a potência dominante vê-se agora obrigada a usar a violência onde antes bastava a sugestão

O ataque ao Irã representa a metabolização da guerra. Na minha forma de ver as coisas ela traduz uma exibição militar como método de gestão de danos perante o fracasso estratégico ocidental na guerra da Ucrânia. Todos estes micro-militarismos em que os Estados Unidos se envolveram recentemente (Síria, Iêmen, Somália, Iraque, Nigéria, Venezuela) não passam de fúteis demonstrações de força que não disfarçam a insegurança imperial — as periferias deixaram de obedecer e a potência dominante vê-se agora obrigada a usar a violência onde antes bastava a sugestão. A agressão ao Irã não é sinal de força, mas de fraqueza. Primeiro ponto.

Segundo ponto: o pior de tudo é a crescente desconfiança mundial na liderança americana. A força nunca foi suficiente e a ordem mundial não existe sem lei. Este constante menosprezo pelo direito, pelas regras básicas de relação entre os países, apresentam os Estados Unidos como inaptos para comandar. Tal como antes no Iraque, em 2003, este ataque irresponsável e selvagem contra o Irã, que não representa nenhuma ameaça (nem distante, nem iminente) para os Estados Unidos, compromete a credibilidade americana e arrasta para a infâmia os seus aliados ocidentais — a duplicidade de critérios é simplesmente horrível: condenámos a Rússia pela invasão da Ucrânia; calamo-nos agora com a agressão dos Estados Unidos (o máximo do cinismo politico foi ver alguns países europeus condenarem, não a agressão, mas a resposta militar do Irã). Todo este exibicionismo militar sem propósito ou consequência, pode muito bem ser, para usar a metáfora marxista, a “parteira” da história e da nova ordem em nascimento.  Dizia Kissinger: “ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, ser amigo é fatal”.

Finalmente, terceiro ponto. É talvez útil lembrar o que a história da guerra moderna nos ensina sobre os assassinatos dos líderes das nações inimigas. A táctica de decapitação do inimigo é, em primeiro lugar, detestável e covarde. Há algo de repugnante quando se estabelece como objetivo táctico a eliminação dos chefes inimigos. Por outro lado, os resultados são duvidosos — podem, no imediato, oferecer uma certa vantagem, dificultando o funcionamento da cadeia de comando, mas, em contrapartida, trazem um impacto indiscutível na escalada do conflito e no crescimento do ódio nos corações dos beligerantes atingidos.

É preciso não esquecer que os líderes abatidos são, normalmente, símbolos nacionais da luta e do combate, cujo assassinato fortalece o ânimo militar e aumenta a vontade de combater. E depois, argumento a meu ver mais convincente, o método compromete a dificuldade em regressar à mesa das negociações e em encontrar soluções não militares. A razão é simples de perceber: não se deve matar aqueles com quem, um dia, deveríamos fazer a paz. Este ataque ao Irã não é apenas uma violação gravíssima do direito internacional, mas um erro político gravíssimo para o Ocidente. O ataque ao Irã tornou o mundo pior para os Estados Unidos — e muito pior para os seus amigos.

JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( PORTUGAL / BRASIL)

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