
Ele não precisou convencer as Nações Unidas a autorizar a Guerra do Golfo contra o Iraque em 1990, como fez George Bush pai. Nem mentiu, como George W. Bush fez em 2003, atribuindo a invasão do Iraque e a eventual derrubada de Saddam Hussein a inexistentes armas químicas de destruição em massa. Ele não se preocupou em conseguir que 34 países (incluindo a Argentina) se juntassem às forças americanas, como em 1991, ou, para disfarçar uma força internacional, pelo menos quatro países como em 2003 (Inglaterra, Espanha, Austrália e Polônia); Israel é parte do conflito. Ele sequer pediu permissão ao Congresso de seu próprio país. Donald Trump quer que a vitória final seja não apenas exclusivamente para os Estados Unidos, mas, ainda mais especificamente, para si próprio.
Em suas próprias palavras: “O que nenhum outro presidente dos Estados Unidos teve a coragem de fazer”, independentemente das consequências, viciado em riscos como se não houvesse vida além do presente, consumindo cada um dos 1.057 dias que lhe restam até 20 de janeiro de 2029, quando deverá entregar a presidência ao seu sucessor. Ele já aproveitou intensamente os primeiros 403 dias de seu segundo mandato. Estes são os últimos anos de vida ativa para um homem que hoje tem 79 anos, terá 81 ao final de seu mandato e parece determinado a vivê-los com a maior intensidade possível.
Não é só ele; são as condições que o moldam que também o influenciam: tanto em 1990 quanto em 2003, as invasões foram terrestres e visavam avançar em linha reta. Tanto em sua intervenção na Venezuela (veremos se será bem-sucedida) quanto no Irã, suas ações dependem da cooperação dos próprios habitantes dos países atacados, aproveitando-se do descontentamento da população com seus governantes. No caso do Irã, os protestos são massivos; na Venezuela, presume-se que esse mesmo desejo de se livrar dos governantes esteja latente.Os autoritários não gostam disso.A prática do jornalismo profissional e crítico é um pilar fundamental da democracia. Por isso, incomoda aqueles que acreditam possuir a verdade.Hoje, mais do que nunca.
Provavelmente, entre as condições que possibilitaram que Trump se tornasse quem é, está a enorme má reputação internacional dos governos da Venezuela e do Irã, e no caso deste último, ainda mais do que no Iraque de Hussein, por ser a semente de um fanatismo violento com consequências que transcendem sua área geográfica, sendo a Argentina o melhor exemplo com os ataques da década de 90.
O avião venezuelano comprado do Irã e tripulado por iranianos, detido em Ezeiza durante a presidência de Alberto Fernández, une as duas frentes de batalha de Trump na Argentina. Um paradoxo da história: em 1990, a Argentina foi o único país latino-americano a contribuir com tropas para a Guerra do Golfo, apenas para receber em resposta o bombardeio da Embaixada de Israel em Buenos Aires em 1992 e do centro comunitário judaico AMIA em 1994, tudo durante a presidência de Carlos Menem. E então, na oscilação pendular da história, houve o pacto com o Irã durante a presidência de Cristina Kirchner, denunciado em 2011 por Pepe Eliaschev no PERFIL, inicialmente negado e depois confirmado em 2013 com a assinatura do Memorando de Entendimento com o Irã, ambos a pedido do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
A Argentina seria o porão do mundo, onde convergem todos os pontos do universo descritos em “O Aleph”, de Borges.
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“Entrumpados” é uma série que estreou no ano passado, na qual o correspondente da Televisão Espanhola em Washington narra o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em 2016, durante seu primeiro mandato, José Miró, colunista do jornal andaluz, já havia intitulado sua coluna de “EnTRUMPados”. E embora não tenhamos sido originais no título de nossa coluna no programa matinal do Perfil desta quinta-feira, que intitulamos “Dia 808: Milei está en(Trump)ado”, certamente foi oportuno, pois quarenta e oito horas depois acordamos com algumas de nossas previsões confirmadas.
Foi declarado: “Trump está atravessando um dos momentos mais complexos de seu segundo mandato: sua liderança se projeta fortemente no cenário internacional, enquanto, ao mesmo tempo, ele enfrenta riscos militares, tensões econômicas e uma deterioração da situação política interna que pode limitá-lo no curto prazo. A frente mais delicada é a crise com o Irã. O maior temor dos mercados é que um conflito possa levar a um bloqueio do Estreito de Ormuz, a passagem marítima por onde flui aproximadamente 20% do petróleo mundial. Analistas de energia estimam que mesmo um breve fechamento poderia elevar o preço do petróleo para entre US$ 120 e US$ 150 por barril, com impacto direto na inflação global. Mesmo um conflito limitado poderia fazer com que o preço do barril ultrapassasse US$ 80 ou US$ 100.”
As pesquisas mostram que Trump enfrenta índices de aprovação relativamente baixos: cerca de 38% de apoio e mais de 50% de desaprovação em algumas pesquisas recentes. Ainda mais preocupante para a Casa Branca é a percepção pública de sua liderança: uma pesquisa Reuters/Ipsos revelou que seis em cada dez americanos acreditam que o presidente se tornou “errático” com a idade, incluindo uma parcela significativa de eleitores republicanos. Essa percepção também se reflete nas avaliações de sua política econômica, onde muitos cidadãos acreditam que suas decisões são imprevisíveis demais.
(…) Além disso, parlamentares democratas revelaram que arquivos desclassificados do FBI sobre o caso Epstein mencionam uma alegação de estupro contra Donald Trump que foi ocultada pela própria administração republicana, apesar de uma lei exigir a divulgação de toda a investigação.
(…) Não é só Milei que está “enganada”, o país inteiro está. Esperemos que o governo e o presidente encontrem uma maneira de minimizar o impacto da complexa situação de Trump em nossa situação já precária.
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Enquanto a morte do aiatolá Ali Khamenei era confirmada, o que se revela a segunda operação em que os Estados Unidos conseguiram depor à força o chefe de governo de um país, o sucesso da ação militar e fundamentalmente política de Trump no Irã continua em curso.
Tudo indicava que, após o revés na Suprema Corte com as tarifas, o Congresso estava se preparando para limitar preventivamente o uso da força pelo presidente contra o Irã, e Trump se antecipou a isso.
Jornais israelenses preveem pelo menos uma semana de confrontos armados, enquanto Milei viaja no próximo sábado com oito governadores para Nova York, com o objetivo de atrair investidores.
Esperamos que as vicissitudes políticas de Donald Trump não afetem negativamente a Argentina e que os povos da Venezuela e do Irã consigam superar regimes autocráticos com o menor custo humanitário possível.
JORGE FONTEVECCHIA “PERFIL” ( ARGENTINA)