
Os fatos revelam um esquema sistemático de fraude financeira — com múltiplos agentes, proteções institucionais e uma rede de cumplicidade
Os dados divulgados até agora sobre o Banco Master já não deixam margem a dúvidas: não se trata de um banco que simplesmente cresceu além das pernas. O que os fatos revelam é um esquema sistemático de fraude financeira — com múltiplos agentes, proteções institucionais e uma rede de cumplicidade que vai muito além de um único empresário mal-intencionado.

Foi um macro sistema criado para lavar dinheiro, fundado em três sistemas conhecidos:
- Isenção fiscal de igrejas evangélicas.
- propinas e financiamentos de campanha.
- reciclagem do dinheiro do crime no mercado financeiro.
A melhor reconstituição do caso até o momento é a reportagem de Consuelo Dieguez, publicada na revista Piauí de fevereiro. Trata-se de um apanhado amplo e detalhado, que demonstra como a operação do Master não foi uma iniciativa isolada, mas o produto de diversas instituições atuando de forma sincronizada — e sob a complacência de autoridades que tinham poderes e instrumentos para agir muito antes.Play Video

A seguir, o papel de cada agente.
Banco Central — Período Campos Neto
O Banco Master obteve autorização do Banco Central em 2019, sob a gestão de Roberto Campos Neto, após ter sido barrado na gestão anterior, de Ilan Goldfajn. A autorização foi concedida apesar de Daniel Vorcaro, dono do banco, carregar um histórico de irregularidades em obras e suspeitas de golpes aplicados em fundos de pensão.
Nos anos seguintes, o BC acompanhou o crescimento acelerado e arriscado da instituição e chegou a enviar 18 ofícios cobrando ajustes nas contas e correções nas práticas de governança. As advertências foram sistematicamente ignoradas. O banco continuou operando — e, com a conivência do regulador, continuou se expandindo, comprando outras instituições: Voiter, Letsbank e Will Bank.
A situação piorou quando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) passou a soar alarme. Desde 2023, o fundo realizou reuniões com Campos Neto e diretores do BC alertando que o Master era “uma bomba”. A resposta do regulador, reiterada, era que estava “tudo sob controle”.
Perto do fim de seu mandato, Campos Neto tomou algumas medidas tardias: limitou a emissão de CDBs com garantia do FGC para bancos pequenos e restringiu o uso de precatórios nos balanços. Em novembro de 2024, convocou Vorcaro e deu um prazo final de quatro meses para o banco se ajustar, sob pena de liquidação — transferindo o problema, sem resolução, para seu sucessor.
Banco Central — Período Galípolo
Ao assumir o BC, Gabriel Galípolo se viu enredado pelas bombas deixadas por Campos Neto. Em abril de 2025, o BC enviou ofício ao FGC solicitando uma “assistência financeira” de R$ 11 bilhões, argumentando, em tom de alerta, que a quebra da instituição poderia gerar um rombo de R$ 54,3 bilhões e uma eventual crise sistêmica. O FGC liberou R$ 5,7 bilhões, mas apenas de CBDs com os quais já estava comprometido. Portanto, não houve aumento do aporte.
Por trás dessa demora havia um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado em novembro de 2024, no período Campos Neto, dando 6 meses de prazo para o Master se ajustar. Qualquer medida que fosse feita antes do prazo, seria usada contra o BC.
Em abril eles entregam uma proposta de venda do banco (para o BRB) como saída. Houve mais uma dilatação do prazo, baseado em recomendações jurídicas. Ainda corre na Justiça ações bilionárias contra o BC, em outras liquidações, sob a alegação de que não foram esgotadas todas as alternativas de mercado.
Na mesma época, o BC abre um processo sancionador contra o Master por descumprimento no recolhimento de compulsório e nega um pedido waver no atendimento dos requisitos de liquidez e capital, enquanto a proposta de venda era analisada.
Em abril o Master foi proibido de emitir CDBs com garantia do FGC que remunerem mais do 100 % do CDI. Em 2024, com a garantia do FGC, o passivo do Master dobrou e atingiu quase R$ 60 bi. Em 2025 a captação líquida do Master, com garantia do FGC foi negativa em R$ 9,2 bi. E o acionista aportou 2,3 bilhões de reais no banco, entre dinheiro e conversão de letras financeiras em capital.
No mesmo período em que o BC comunicou ao Ministério Público Federal indícios de fraudes no Master, autorizou o funcionamento do Banco Pleno — pertencente a Augusto Lima, fundador e ex-sócio do próprio Vorcaro. Ao se desfazer da sociedade, Lima havia levado para o Pleno os ativos mais rentáveis do Master, notadamente o Credcesta (cartão de crédito consignado para servidores públicos), deixando os credores do banco falido sem garantias.
Há uma explicação técnica para essa autorização.
A lei prevê que administradores, controladores ou ex administradores ou ex controladores fiquem com bens indisponíveis após a liquidação de um banco. Só que Augusto Lima não se enquadrava em nenhuma destas categorias com o Master. Ele era sócio minoritário até meados de 24 e teria seus bens preservados.
Ao pedir uma licença bancária, levou uma que já estava com o Master e, com ela, levou 6 bi de passivos do Master. A partir de então, seu patrimônio passou a fazer frente para honrar o passivo. E o FGC se livrou de mais um rombo de R$ 6 bi.
BTG Pactual
O BTG Pactual desempenhou um papel ambíguo no caso: lucrou antes e depois da quebra do Master.
Como distribuidor, o banco de André Esteves vendeu em larga escala os CDBs do Master a seus clientes. Por essa prática, o BTG, assim como XP e Nubank, enfrenta ações judiciais por propaganda enganosa — a acusação é de que as instituições não alertaram adequadamente os investidores sobre o risco real do banco.
Quando ficou claro que o Master iria à liquidação, o BC optou por vender os ativos da instituição no mercado em vez de acionar o patrimônio pessoal de seus controladores. Nesse momento, Esteves comprou a participação do Master em diversas empresas — entre elas Light, Fasano e Veste — por R$ 1,5 bilhão, valor bem abaixo do que os ativos valiam no papel. Antônio Oliveira Neto, que atua na defesa dos fundos de previdência lesados, chamou a operação de “negócio de abutre” e afirmou que ela esvaziou o caixa do Master, deixando os credores sem os ativos necessários para serem ressarcidos.
A Rede do Master
Instituições adquiridas ou derivadas
Voiter, Letsbank e Will Bank foram compradas pelo Master com a conivência do BC. Logo após as aquisições, passaram a emitir agressivamente CDBs sob o guarda-chuva das garantias do FGC, ampliando a captação do esquema.
O Banco Pleno, como mencionado, foi criado por Augusto Lima em tempo recorde, já carregando os ativos mais valiosos do Master. O Credcesta foi o principal deles.
Gestoras e fundos
A gestora Reag, fundada por João Carlos Mansur, administrava quase todas as operações financeiras suspeitas do Master. Liquidada pelo BC, a Reag é investigada pelo Ministério Público de São Paulo por suspeita de envolvimento com a facção criminosa PCC em operações no setor de combustíveis. A conexão direta com o Master está em apuração.
O empresário Nelson Tanure, suspeito de ser sócio oculto do Master, utilizou uma série de fundos e holdings — Estocolmo, Phoenix, Banvox Holding Financeira, Ilha de Patmos, Planner, Trustee, Modal e a empresa britânica Aventti Strategic Partners — para realizar operações trianguladas e inflar artificialmente o balanço do banco.
Os fundos Arleen e Leal, ligados a Fabiano Zettel (cunhado de Vorcaro e ex-pastor), foram utilizados em transações financeiras com familiares do ministro do STF Dias Toffoli — inclusive em negócios envolvendo o resort Tayayá.
Ativos usados para inflar o balanço
O Master investia os recursos captados em fundos carregados de ativos de empresas em dificuldades ou em recuperação judicial, muitas delas ligadas a Tanure. Os valores eram inflados artificialmente para dar uma falsa aparência de solidez ao banco. Entre as empresas utilizadas: Light, CVC, Ambipar, Oi, Gafisa, Alliança Saúde, Oncoclínicas, Ligga Telecom, Westwing e Emae.
A Tirreno Consultoria era uma empresa-fantasma usada para forjar a venda de carteiras de crédito fictícias. Já a Fictor, holding de investimentos, atuou às vésperas das prisões como falsa “compradora”, anunciando um consórcio inexistente com “investidores árabes” numa tentativa desesperada de encenação para evitar a liquidação.
Bancos estatais cooptados
O BRB foi o principal alvo da operação de salvamento articulada politicamente. O banco estatal chegou perto de pagar R$ 12,2 bilhões por carteiras de crédito que se revelaram falsas. A operação teve forte influência do governo do Distrito Federal e de parlamentares como Arthur Lira e Ciro Nogueira.
A Caixa Econômica Federal sofreu pressão da cúpula do Congresso para comprar R$ 500 milhões em papéis do Master. A resistência ao negócio custou a demissão de três gerentes que se recusaram a avalizar a operação.
Banco Digimais
Instituição ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, o Digimais operava de maneira semelhante ao Master e teve seus balanços comprometidos com ativos podres transferidos pelo próprio banco — conduzidos por Maurício Quadrado, um dos fundadores do Master que atuou na gestão do Digimais.
Fundos de previdência lesados
Dezoito fundos de previdência de estados, municípios e empresas aplicaram o dinheiro de servidores no Master e saíram sem garantias. Entre os que acionaram a Justiça estão o Rioprevidência (governo do Rio de Janeiro, com quase R$ 1 bilhão aplicado), a Amprev (Amapá) e o Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (MS).
O que os fatos mostram
O caso Banco Master já seria gravíssimo se se tratasse apenas de má gestão e omissão regulatória — e é exatamente isso que está comprovado. Um rombo de R$ 52 bilhões no FGC, pressões políticas documentadas sobre o BC e sobre bancos estatais, um ministro do STF com vínculos suspeitos com a instituição e um regulador que, contrariando precedentes históricos de rigor, agiu com lentidão e complacência reiterada.
As investigações em curso podem confirmar algo ainda mais grave: uma organização criminosa estruturada, com ramificações no sistema político e no crime organizado. Mas é importante manter clara a distinção entre o que está apurado e o que ainda está sendo investigado — não para minimizar o escândalo, mas para entendê-lo com precisão.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)