
O caso do Irã representa a dinâmica do alastramento da violência como linha de fuga e o frenesi militar americano serve apenas para disfarçar a derrota ocidental
Deixem-me explicar, sucintamente, como vejo as coisas, agora que o mundo assiste, meio distraído, meio apreensivo, à crise do Irã. Primeiro, e talvez o mais importante — acho que Trump é o presidente americano que foi escolhido para administrar a derrota ocidental na Ucrânia.
Fá-lo de três formas, a saber: a) esta guerra não é a minha, esta guerra é de Biden; b) em segundo lugar, uso os meus poderes mágicos para transformar, de um momento para o outro, o Estado que mais apoiava um dos beligerantes no Estado que é agora o árbitro imparcial da paz; c) finalmente, para manter a ilusão de grande potência imperial, recorro a um “micro-militarismo” inconsequente, com o único propósito de mostrar como estão intactas as minhas espetaculares capacidades militares. Num único ano, o presidente Trump bombardeou sete países: Síria, Irã, Iêmen, Somália, Iraque, Nigéria e Venezuela. Nada mal para quem se acha merecedor do Nobel da Paz.

A exibição teatralizada da violência — seja a violência interna contra a sua própria população, seja a violência externa contra os outros povos — tornou-se o traço distintivo da política americana. E, no entanto, esta violência constante, esta ameaça latente de uso da força, não é uma prova de força, mas de fraqueza.
As periferias deixaram de obedecer, o direito internacional deixou de ter importância e o centro imperial reage a qualquer contrariedade com o uso da força. No fundo, todos estes nano conflitos (a guerra do Irão durou dois dias, o ataque aos Houthis, no Iêmen, durou três) parecem manobras de diversão para disfarçar uma verdade incómoda – o fracasso estratégico do Ocidente na guerra da Ucrânia.
A Venezuela é talvez o caso mais emblemático. Invadiram o país, raptaram o presidente, arrastaram-no pelas ruas como um criminoso e declararam, no final, que passavam a dirigir o país de longe. Um colonialismo à distância, por assim dizer. Mas não existe colonialismo sem colonos e não existe colonialismo sem ocupação física do território. E uma coisa sabemos da história: nada disto será esquecido. Bem vistas as coisas, a única coisa que daqui resultou foi o crescimento da hostilidade à América.
As duas faces da política americana são as tarifas e o “micro militarismo”. Ambas políticas fracassadas. As tarifas não conduziram à industrialização do país e o espetáculo das pequenas operações militares não reforçou a liderança americana. Em síntese, a minha tese é esta: o caso do Irão representa a dinâmica do alastramento da violência como linha de fuga e o frenesim militar americano serve apenas para disfarçar a derrota ocidental. Nada disto é um bom sinal para o mundo e tudo isto é muito mais sério do que parece.
JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( PORTUGAL / BRASIL )