
Haddad argumenta que o capitalismo não está apenas em sua fase industrial clássica, mas entrou em um modo “superindustrial”, no qual o conhecimento e a ciência se tornam fatores centrais de produção
Ainda não recebi o livro do MInistro Fernando Haddad. Baseio-me, portanto, nas resenhas

A natureza do capitalismo contemporâneo
Haddad argumenta que o capitalismo não está apenas em sua fase industrial clássica, mas entrou em um modo “superindustrial”, no qual o conhecimento e a ciência se tornam fatores centrais de produção — além da terra, trabalho e capital tradicionais.
O livro revisita e atualiza textos dos anos 1980 e 1990 para mostrar como os processos de produção mudaram com tecnologia, o conhecimento transformou as cadeias produtivas e as classes sociais se reconfiguraram em resposta a essas dinâmicas.Play Video
Nesse contexto, a última classe social que emerge é aquela composta por cientistas, engenheiros, técnicos e consultores que são agentes inovadores, diferentes dos antigos funcionários qualificados.
A partir daí, divide a classe dos não-proprietários em três grupos: o cognitariado, o proletariado e o precariado.
A exterminação do emprego
Repito, ainda não li o livro, por isso não sei quais as propostas de políticas públicas propostas.
Mas vamos a uma análise objetiva das implicações dessa revolução tecnológica sobre a economia e sobre a democracia.
O primeiro impacto é o da acumulação de riqueza, processo em andamento e não apenas entre as empresas de tecnologia. A financeirização ampla da economia tem produzido uma concentração de poder em todos os campos do comércio e da indústria. É só conferir como as grandes redes farmacêuticos criaram um duopólio que está liquidando o que resta de farmácias independentes.
O segundo é o da eliminação do emprego.
A ampla mecanização reduziu a oferta de empregos para os colarinhos azuis – os empregados da produção.
A inteligência artificial já está promovendo uma razia nos colarinhos brancos – os funcionários de escritório.
A tendência é de reduzir a condição de vida do proletariado, a oferta de empregos para os colarinhos brancos e um aumento exponencial do precariado.
O que ocorre hoje:
- redes de farmácia acabando com as farmácias independentes;
- redes de supermercados avançando cada vez mais sobre as lojas de periferia;
- as plataformas reduzindo cada vez mais o mercado do comércio de rua.
As políticas compensatórias
Há impactos diretos sobre a economia – reduzindo o mercado de consumo -, e sobre a democracia – aumentando o mal-estar social.
Os impactos desse processo já são visíveis. E a única ferramenta de combate são políticas compensatórias, claramente insuficientes ante o desafio posto.
Além disso, mídia e especialistas limitam-se a discutir o chamado catch-up, um conceito da economia do desenvolvimento que significa, literalmente, “alcançar quem está na frente”.
E a discussão sobre como enfrentar um futuro incerto resume-se ao investimento em pesquisa (relevante!), ferramentas de financiamento de start-ups (importante!), políticas de atração de investimentos de ponta (importante!), e deixam de lado o essencial: como preservar o bem estar social e garantir a sustentabilidade do precariado.
Não sei se o livro de Haddad avança em princípios de políticas públicas e conselhos ao Ministro Haddad.
A única maneira é acrescentar ao moderno e ao compensatório o apoio à pequena e micro empresa. Ela é a grande geradora de emprego. Ela é o laboratório para as futuras médias e grandes empresas. Ela é a garantia de estabilidade política e social, de melhoria da renda, de redução da criminalidade, de garantia de um melhor ambiente social e político.
A pátria solidária
E o caminho não é o empreendedorismo individual, mas o associativismo em todos os níveis. O associativismo fortalece os fracos, é um antidoto ao individualismo selvagem.
Já existem exemplos concretos de como organizar os pequenos, como direcionar pesquisa para alavancar arranjos produtivos, como estimular a figura do prefeito empreendedor.
Mirem-se no exemplo de Maricá:
Parcerias com institutos de pesquisa permitem desenvolvimento de produtos aproveitando a produção agrícola local. Há o estímulo ao desenvolvimento de aplicativos adequados às necessidade locais.
Há um sem-número de atores que podem ser convocados para a grande luta nacional em defesa do pequeno:
- sistema S, das confederações empresariais;
- MST, acelerando a desapropriação de terras, permitida pela legislação;
- envolver o cooperativismo, o Siscoob, o sistema de crédito do Banco do Brasil e as compras públicas para estimular a pequena propriedade;
- montar programas federais de financiamento a Prefeituras empreendedoras.
- envolver o MDIC, a Secretaria Nacional de Economia Soliidária.
Antes de tudo isso, organizar uma grande Conferência Nacional, começando pelos municípios, reativando o Forum Permanente de Micro Empresas e Empresas de Pequeno Porte.
É um tema para levantar o país apontando o futuro e consolidando o slogan de Pátria Solidária.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN”( BRASIL)