CIÊNCIA & DEMÊNCIA NA ECONOMIA:A HIERARQUIA OCULTA DO SISTEMA MONETÁRIO GLOBAL

Como bem aponta Paulo Gala: para entender a economia real, é preciso abandonar a ideia de “equilíbrio” e focar na geopolítica das finanças.

O Alerta de Olavo de Carvalho

Em meados dos anos 90, mencionei em minha coluna na Folha um artigo de Olavo de Carvalho — que ainda não havia enlouquecido. O título era “Ciência e Demência”. Sua tese: o intelectual se especializa em determinada ciência e passa a dever tudo a ela — reputação, espaço profissional. Quando olha para a realidade e ela não corresponde à teoria, desenvolve então uma nova teoria para comprovar que a realidade está errada.

Olavo ficou tão grato pela menção — na época estava maldito, sem espaço na mídia — que o convidei para jantar em casa. Ele chegou, admitiu que era louco (mas com a vantagem de perceber antecipadamente os surtos e se internar), falamos sobre o Jornal da Tarde, onde ambos trabalhamos em períodos distintos. Então começou com suas teorias conspiratórias: FHC queria implantar o comunismo no país e o último bastião de resistência era o Banco Central. Expliquei que, com as taxas de juros e câmbio praticadas, o BC estava destruindo as empresas. No dia seguinte, seu blog trazia nova interpretação: a arma de FHC para destruir o capitalismo era justamente o BC.

Faço esse preâmbulo para analisar a correlação proposta por Olavo entre ciência e demência — especialmente aplicável à macroeconomia contemporânea.Play Video

A Falsa Ciência da Macroeconomia Ortodoxa

O economista aprende macroeconomia através da planilha de Ilan Goldfajn e das análises estocásticas. Se o déficit fiscal for X, haverá aumento Y na inflação, obrigando a Selic a ir para Z. Tudo com rigor analítico extraordinário, estimando a variação da inflação ou do câmbio em até dois dígitos após a vírgula. É uma ciência extraordinária. São esses cálculos que disparam comandos de compra ou venda de ativos.

No entanto, é uma falsa ciência, sem correspondência com a realidade.

A Verdadeira Dinâmica da Inflação

Qualquer estudo sério sobre inflação colocará como ponto central o câmbio. Quando o real se desvaloriza, os preços dos produtos comercializáveis (aqueles fixados em dólares) aumentam, porque será necessário mais reais para adquiri-los. Vice-versa: quando o real se valoriza, os preços dos comercializáveis caem. Esse movimento pressiona a inflação para cima ou para baixo.

O que define o câmbio não é a balança comercial ou o superávit, mas o carry trade — a estratégia financeira de captar recursos em países com juros baixos e investir em outros com juros altos, embolsando a diferença. Ele é o principal referencial para a política monetária do BC.

A rentabilidade da operação depende do diferencial entre juros internos e externos e das expectativas de variação cambial. O país precisa oferecer ganhos para atrair investimento em dólares, competindo com outras economias emergentes. Se houver ganhos maiores no México ou na África do Sul, o dinheiro migrará para lá. Essa disputa obriga a manter taxas de juros permanentemente elevadas, comprometendo o desenvolvimento nacional.

A Segunda Mistificação

Aqui entra a segunda mistificação da “ciência versus demência”: a ideia de que o país precisa oferecer equilíbrio fiscal e ambiente econômico favorável para atrair dólares. Os dólares que afetam o câmbio através do carry trade são capitais eminentemente especulativos, sem relação com investimento produtivo.

Paulo Gala e as Regras Ocultas do Dinheiro Global

Um dos poucos resultados positivos da quebra do Master foi trazer Paulo Gala de volta às análises econômicas. Ele traduz em linguagem acadêmico-conceitual esses princípios de mercado no artigo As Regras Ocultas do Dinheiro Global: Verdades que a Economia Tradicional Não Explica.

O texto propõe análise crítica sobre a hierarquia do sistema monetário internacional, afastando-se da visão convencional de que o dinheiro é apenas meio de troca neutro. Ele foca na ideia de que o sistema financeiro global funciona como estrutura de poder e estratificação.

1. A Hierarquia das Moedas

Gala argumenta que as moedas não são iguais. Existe uma “pirâmide de liquidez” onde o dólar americano ocupa o topo absoluto.

Moedas Centrais: Têm aceitação universal e servem como reserva de valor global.

Moedas Periféricas (como o Real): São consideradas ativos de risco. Em momentos de crise, o capital foge dessas moedas em direção ao topo da pirâmide, explicando a volatilidade crônica de países emergentes.

2. O Dinheiro como Relação de Poder

Diferente da economia neoclássica, Gala sugere que o valor do dinheiro não vem apenas da escassez ou utilidade, mas da capacidade do Estado de cobrar impostos e da confiança institucional. O sistema global é desenhado para beneficiar quem emite a moeda de reserva, permitindo que os EUA operem com déficits insustentáveis para qualquer outro país.

3. A Ilusão da “Eficiência de Mercado”

O texto critica a noção de que os fluxos de capital buscam sempre a melhor alocação produtiva. Para Gala:

  • O sistema atual favorece a financeirização — o dinheiro gerando dinheiro sem passar pela produção.
  • Os países periféricos ficam presos em armadilha onde precisam manter juros altos para atrair capital volátil, sufocando a indústria local.

4. Ciclos de Liquidez e Dependência

Os países em desenvolvimento são “passageiros” dos ciclos do Federal Reserve. Quando os EUA aumentam os juros, a liquidez global seca, drenando recursos da periferia e causando crises cambiais, independentemente da saúde fiscal interna desses países.

A Emissão de Dívida: Dois Pesos, Duas Medidas

De acordo com a análise de Paulo Gala, a emissão de dívida tem efeitos radicalmente diferentes dependendo da posição do país na hierarquia monetária mundial:

Emissão de Dívida pelos EUA (Topo da Pirâmide)

Capacidade de Déficit Ilimitado: Como o dólar é a moeda de reserva global, os EUA podem operar com déficits insustentáveis para outros países. Emitem dívida na própria moeda que o resto do mundo precisa para poupar e realizar trocas comerciais.

Exportação de Moeda: A dívida americana funciona como principal ativo de liquidez do mundo. Ao emitir dívida, os EUA fornecem ao sistema global a “matéria-prima” financeira necessária para o comércio internacional.

Autonomia de Política: O governo americano não sofre risco de crise cambial ao emitir dívida, pois não depende de moeda estrangeira para se financiar.

Emissão de Dívida pelos Países Periféricos (Base da Pirâmide)

Risco de Liquidez e Volatilidade: Países como o Brasil emitem moedas consideradas “ativos de risco”. Quando há instabilidade global, investidores vendem essa dívida periférica para comprar dólares, causando desvalorização cambial e inflação.

A Armadilha dos Juros Altos: Para convencer investidores a carregar sua dívida, os países periféricos são obrigados a manter taxas muito superiores às dos países centrais. Isso atrai capital especulativo (carry trade), mas sufoca o investimento produtivo e a indústria local.

Dependência Externa: A sustentabilidade da dívida desses países não depende apenas de sua saúde fiscal, mas das decisões do Federal Reserve. Se os EUA aumentam os juros, a liquidez é drenada da periferia, forçando esses países a elevar ainda mais seus juros para evitar colapso da moeda.

Conclusão

Para os EUA, a emissão de dívida é instrumento de exercício de poder e expansão econômica.

Para os países periféricos, ela é fonte de vulnerabilidade constante aos ciclos financeiros globais.

A mensagem principal de Paulo Gala é clara: para entender a economia real, é preciso abandonar a ideia de “equilíbrio” e focar na geopolítica das finanças. A riqueza das nações está diretamente ligada ao lugar que sua moeda ocupa na ordem global e à sua capacidade de resistir à extração de valor pelo sistema financeiro central.

A macroeconomia ortodoxa, com suas planilhas e modelos estocásticos, é a ciência que Olavo de Carvalho descreveu: tão sofisticada em suas ferramentas que se tornou incapaz de enxergar a realidade. E quando a realidade não se encaixa nos modelos, são os países periféricos que pagam o preço.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” (BRASIL)

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