
Fiquei muito impressionado, no início de 1976, ao visitar uma extensiva mostra retrospectiva do araraquarense Lívio Abramo (1903 – 1992), mestre dos mestres na arte da xilogravura, no Museu de Arte Moderna (MAM), diante da Baía da Guanabara, no Parque do Flamengo, perto do Aeroporto Santos Dumont. Eu me mudaria pouco depois para Madri como correspondente do jornal “O Globo” e jamais esqueci as fabulosas criações do irmão mais velho do querido Diretor de Redação da “Folha de S. Paulo”, Cláudio Abramo (1923 – 1987) – a quem, aqui, dediquei uma coluna, em abril de 2023.
Narrei uma ocasião em que, em 1982, o jornalista causou grave tensão em Roma numa entrevista coletiva do líder sindicalista polonês Lech Walesa, na sede da Stampa Estera, ao aparecer vestindo um enorme e pesado casaco de pele de urso, comprado numa viagem a Moscou, semelhante aos usados pelos antigos agentes soviéticos da KGB.
Chamou-me atenção, na exposição no MAM do primogênito dos Abramo, sobretudo, uma série de gravuras intitulada “Las Lluvias”, ou seja, “As Chuvas”, consagrada aos temporais que varrem, nos meses de verão, a entrañable capital paraguaia Assunção – para onde o artista se transferiu em 1962 e lá viveu por 30 anos. São imagens memoráveis e arrebatadoras. Sintetizam, com riscos negros, a sensação experimentada durante as tempestades tropicais que alagam a cidade. Suas primeiras obras datam dos anos 1920, fortemente influenciado pelo expressionismo europeu, e, na década seguinte, aproxima-se da antropofágica Tarsila do Amaral. Ingressaria, posteriormente, no escritório de Oswaldo Bratke, uma das grandes empresas de arquitetura de São Paulo.
As gravuras foram determinantes para apaixonar-me por Assunção. Prometi a mim mesmo, um dia, conhecer a metrópole que tanto inspirou Abramo, pioneiro da gravura moderna brasileira e um dos artistas mais criativos do Brasil. Sua produção contempla três mil peças – incluindo mosaicos e painéis de arquitetura, desenhos, pinturas, ilustrações para jornais e livros, cenários e figurinos de teatro.
Estive pela primeira vez em Assunção, entre março e abril de 1995, e lá voltei por dois anos sucessivos. Retornaria ainda em 1998, mas, desta feita, para prestar consultoria junto ao Departamento de Jornalismo da Telefuturo, principal canal de televisão do Paraguai, cujo proprietário, Don Antonio Vierci, mantinha um laço de amizade com o então Presidente do Grupo Sílvio Santos, Guilherme Stoliar, que me indicou para fazer a consultoria na emissora de Assunção. Foi a equipe de Vierci que me levou à viúva de Lívio Abramo – de quem, adquiri duas valiosas xilogravuras originais das chuvas paraguaias – uma das quais ilustra esta coluna.
Ambas se encontram, atualmente, em lugar de destaque, no meu apartamento no bairro paulistano de Higienópolis. Os trabalhos de Lívio Abramo também estão presentes em outros pontos de São Paulo. Especialmente na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, à Avenida Morumbi, quase ao lado do Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo Estadual.
Foram projetos arquitetônicos executados em 1954 para a Bratke. São preciosos pisos de mosaico português. A tradição lusitana difundiu-se amplamente utilizada na pavimentação de calçadas e praças, porém, foram artistas como Abramo que introduziram novas possibilidades plásticas da técnica ao extremo nos dois pisos da residência da família Americano – com desenhos batizados de Foz do Rio Amazonas e Circo. Mas, para mim, até hoje, “Las Lluvias” são a marca registrada da genialidade de Abramo.
ALBINO CASTRO”PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador