
A “luta” entre Melo e Mendes, com o primeiro a acusar o segundo de “facilitador de negócios”, beneficiou muito Cotrim e Seguro. Este começou mal, mas tem acertado o rumo e parece hoje bem situado para chegar à segunda volta
1.Quem passará à segunda volta nas eleições do próximo domingo? É uma pergunta para que ninguém tem resposta. Sequer uma resposta em termos de uma indiscutível “forte probabilidade” de acertar. Escrevo segunda-feira, 12, antes de conhecida uma sondagem de uma entidade credível, a Universidade Católica, com um universo mais largo, e por isso mais representativo, do que o das tracking polls diárias realizadas pela Pitagórica para a CNN/TVI, Jornal de Notícias e CNN. Mas, qualquer que seja o resultado “indiciado” por essa sondagem, creio que um alto grau de imprevisibilidade se manterá quanto aos dois candidatos que disputarão a segunda volta entre os cinco com possibilidade de a ela acederem: António José Seguro, André Ventura, Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo, Marques Mendes.
Esta é uma originalidade absoluta relativamente a todas as anteriores presidenciais. Dupla originalidade absoluta, aliás. Porque: a) é única a certeza de segunda volta nas presidenciais, só houve uma, nas de há 40 anos, mas não antecipadamente certa, dado que, b) nessa eleição de 1986 Freitas do Amaral teve 46,31% na primeira volta, e havia a certeza de que iria à segunda – enquanto agora não há e julgo mesmo que nenhum candidato chegará sequer aos 25%…
2. Conjugada esta realidade com a óbvia possibilidade de André Ventura ir à segunda volta e a quase certeza de nela perder com qualquer outro candidato, daqui resulta a questão do chamado “voto útil” colocar-se já na primeira volta. Podendo, pelo menos se as próximas sondagens mantiverem idênticos resultados e tendências, ter influência nos resultados de Ventura e dos candidatos à esquerda de Seguro.
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Em relação ao “chefe” do Chega, sendo certo que os seus incondicionais devotos lhe darão os seus votos, a dúvida é se há uma franja menos extremista, menos dominada pela fé em Ventura, mais pragmática, dos quase 23% de eleitores do partido nas legislativas, que poderá pôr a cruzinha noutro candidato, em particular em Cotrim de Figueiredo ou Gouveia e Melo.
E se este efeito do “voto útil” não é completamente improvável em relação a Ventura, é muito provável em relação a parte dos potenciais eleitores de Catarina Martins e Jorge Pinto. A primeira tem mostrado as qualidades que, mesmo não estando de acordo com as suas ideias, se impõe reconhecer-lhe, mormente ser a melhor e mais empática “debatedora”; e o segundo, até agora quase desconhecido, é sem dúvida a “revelação” política desta campanha, inclusive pela preparação demonstrada.
Mas tal não impede aquele “efeito”, e por isso suponho que Pinto ficará claramente abaixo e Catarina não ficará claramente acima (como se justificaria) dos resultados nas últimas legislativas dos partidos que os apoiam, o Livre e o BE respetivamente. Pelas mesmas razões António Filipe, o melhor candidato que o PCP podia arranjar, com um longo e respeitado percurso como deputado, o máximo a que pode aspirar é chegar aos cerca de 3% do partido nas eleições de 2025.
3. Na campanha, até ao momento em que escrevo, o mais notório, se não erro, é a progressiva subida/ascensão de António José Seguro e Cotrim Figueiredo. Que creio ficar a dever-se muito não à sua própria ação mas à “luta” entre Gouveia e Melo (GM) e Marques Mendes (MM); ou de GM contra MM, aquele com quem disputa mais o espaço político, como se vê das muitas figuras destacadas do PSD que apoiam o almirante.
Quando GM, no debate a dois com MM, o acusou de ser um “facilitador de negócios”, explicando o que em seu entender isso significa, acusação que repetiu no debate a 11 na RTP, abriu uma nova frente de combate muito difícil para o candidato apoiado pelo PSD, o com mais longa e variada experiência política, da qual aliás se reclama como grande “trunfo”. Se a acusação fosse feita por outro candidato ela seria talvez irrelevante, levada à linha de conta das habituais querelas e dos constantes ataques interpartidários. Mas feita pelo ex-líder da campanha contra a Covid-19 bateu forte, dada a imagem de “seriedade” que preserva, apesar dos danos noutros aspetos a essa imagem causados pela campanha.
Não tenho dúvida de que este “episódio”, com continuação a outros níveis, foi um golpe, até psicológico, para Marques Mendes. Agravado pelos reflexos que terá tido nos resultados das referidas tracking polls, em que passou para quinto lugar, e a certa distância dos outros quatro, quando tinha estado em primeiro. Já em relação a Gouveia e Melo não sei se lhe foi favorável ou desfavorável: ele foi, inevitavelmente, o que mais desceu, mas em relação a sondagens feitas há muito e em abstrato, pois ainda nem existiam candidatos concretos.
A minha impressão é de que MM também perdeu com a (excessiva) colagem ao Governo, negada mas bem notória, por exemplo ao não se pronunciar, com um pretexto absurdo, sobre a sua proposta de lei laboral. GM, pelo contrário, embora com óbvias debilidades e, sobretudo no início, acusando a falta de traquejo nos debates, soube dar uma ideia de colaboração, mas crítica, independente, com o Executivo.
Seja como for, julgo impossível fazer uma previsão fundamentada dos resultados de ambos: Marques Mendes continua a ser um candidato muito forte, embora longe da “supremacia” que a certa altura parecia ter; quanto a Gouveia e Melo a minha principal dúvida é se haverá ainda uma larga faixa da chamada “maioria silenciosa” que o prefere, hipótese que não excluo e a verificar-se também pode levá-lo à segunda volta.
4. No que respeita aos outros três candidatos, já falei de Ventura. Resta acrescentar que se nos debates e no início da campanha manteve o extremismo, em geral sorridente, e a agressividade que o caracterizam, nos últimos dias tentou passar uma imagem mais moderada e civilizada. O que suponho não influirá no seu resultado, mas teve o inesperado condão de levar Cotrim de Figueiredo a declarar que numa segunda volta pode apoiá-lo. Declaração para mim surpreendente de um candidato com boa presença e um bom discurso, na perspetiva das ideias que defende, e que como líder da IL sempre soube demarcar-se com nitidez do Chega. Creio que esta posição, na sequência de uma carta enviada ao primeiro-ministro a prometer ser seu “aliado” se…, em nada o beneficia. Veremos.
Enfim, quanto a António José Seguro parece-me que começou bastante mal. Foi a entrevista em que não se dizia de esquerda ou centro-esquerda, foi uma certa passividade, ou falta de vigor e de veemência, passíveis até de serem interpretadas como falta da exigível indignação perante posições e comportamentos como os de Ventura. Progressivamente, porém, foi acertando o rumo, tornando-se mais natural/ele próprio, mais claro, direto, afirmativo – nomeadamente das suas convicções. Sem prejuízo de manter e sublinhar a tónica da “moderação”, o que acho muito bem, pois a considero uma virtude também na política, desde que sem abdicações ou transigências nos valores e princípios essenciais, em cuja defesa se impõe ser radical.
Assim, ganhando também com os ataques entre outros candidatos, recusando praticar certo estilo agressivo ou “politiqueiro” de campanha, Seguro tem avançado de forma consistente e parece hoje muito bem situado para chegar à segunda volta. Nesta, porém, para vencer qualquer candidato que não seja o chefe do Chega, tem de ter muitos votos do centro/direita e da direita, hoje dominantes no País. Isto significa, por um lado, que se percebe bem a abertura desde já a esses setores; e, por outro lado, a eventual imprescindibilidade de nessa segunda volta haver um ajustamento ou uma reorientação da campanha, em sentido inverso à de Mário Soares em 1980…
JOSÉ CARLOS VASCONCELLOS ” VISÃO” ( PORTUGAL)