
A diferença entre Malu Gaspar e o caso Watergate é a mesma do jornalismo de likes para o jornalismo profissional, no caso, o do The Washington Post.
Está confusa a discussão sobre o off em jornalismo.

Parte-se do pressuposto – correto – de que a denúncia, no jornalismo, não tem as mesmas características da denúncia criminal. Não cabe ao jornalista levantar todas as provas, mas alertar para suspeitas de malfeitos.
A partir daí vem essa interpretação esdrúxula, de que nenhuma denúncia jornalística precisa vir acompanhada de provas e chega-se ao cúmulo de comparar a denúncia de Malu Gaspar – sobre as 4 supostas conversas de Alexandre de Moraes com Gabriel Galípolo para interceder pelo Master – com Watergate.Play Video
E isso é dito como se fosse fruto de grande pesquisa, de um jornalista tratado como historiador e assumida pela ombudswoman da Folha, que teoricamente deveria fornecer as linhas de jornalismo para o jornal.
O Watergate começou como um crime meio tosco e terminou como um terremoto institucional. A diferença entre uma coisa e outra atende pelo nome de jornalismo profissional — no caso, o do The Washington Post. Vamos por partes.
Como começou o escândalo de Watergate
Na madrugada de 17 de junho de 1972, cinco homens são presos dentro do complexo Watergate, sede do Comitê Nacional do Partido Democrata, em Washington.
Na batida, a polícia encontrou equipamentos de escuta eletrônica (bugs), câmeras, dinheiro vivo em notas sequenciais, ligações diretas com o Comitê para Reeleição do Presidente (CRP) — ironicamente apelidado de CREEP
Inicialmente, o caso foi tratado como um arrombamento político estranho, mas irrelevante.
A apuração
A partir das primeiras denúncias, deflagrou-se a apuração. Sucessivas reportagens mostraram que funcionários da Casa Branca pagaram silêncio (hush money), o FBI sofreu pressão política para frear a investigação, o caso não era um crime isolado, mas parte de uma máquina de espionagem política.
É só depois disso tudo, que surge a fonte mais famosa da história do jornalismo, o Deep Throat, fonte anônima de alto escalão que confirmou as pistas e entregou fitas, com gravações de audiências no salão Oval.
Foram mais de 400 reportagens diretamente ligadas ao Watergate, centenas de notas, análises, editoriais e cronologias, cobertura contínua por mais de dois anos.
Não foi uma “matéria bombástica” que possa sequer ser comparada às denúncias de Malu Gaspar, que não resistiram um dia. Na reportagem seguinte, sumiram as supostas 4 ligações telefônicas de Moraes.
A diferença básica
E aí entra a diferença básica: a chefia de redação do Washington Post, Ben Bradlee, o editor-chefe do Washington Post, analisava cada matéria, aprovava aquelas que seguiam critérios básicos de jornalismo, vetava as que não fossem minimamente consistente, e bancava a cobertura junto à direção. Sob seu crivo, jamais passaria uma denúncia baseada em 6 fontes anônimas de mercado e sem nenhum elemento adicional para corroborá-la.
Reduzir tudo ao direito absoluto ao off – como fizeram vários jornalistas brasileiros – é uma humilhação para o jornalismo.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)