O BANCO CENTRAL E SUA SANHA DESTRUIDORA

A questão é a tentativa do BC de eliminar o último mecanismo anticíclico que resiste ao aperto monetário: o financiamento imobiliário.

A recente declaração do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de que a poupança seria um “Robin Hood às avessas”, revela menos sobre a caderneta e muito mais sobre a disputa silenciosa entre o Executivo e o sistema financeiro pelo comando efetivo da economia brasileira. A fala soa tecnicamente frágil e politicamente enviesada, porque dirige ao pequeno poupador uma crítica que jamais pertenceu a ele. A verdadeira questão está alhures: na tentativa do Banco Central de eliminar o último grande mecanismo anticíclico que resiste ao aperto monetário — o financiamento imobiliário.

Para entender isso, é preciso contextualizar.

O maior problema da inflação não é apenas o aumento de preços, mas a concentração de renda que ela produz. Nos anos 1980, supermercados vendiam à vista para comprar a prazo e aplicavam o caixa no overnight; grandes empregadores se beneficiavam da corrosão diária dos salários; e o mercado financeiro colhia ganhos automáticos sem risco. Quem tinha capital aplicava e preservava seu poder de compra; quem dependia de salário perdia diariamente. A inflação era um mecanismo de redistribuição regressiva, mas com beneficiários muito claros — e nenhum deles era o pequeno poupador da caderneta.

Hoje, a concentração não vem mais da inflação: vem da taxa de juros. O endividamento das famílias drena renda diretamente para os rentistas. O trabalhador perde poder de compra antes mesmo que seu salário chegue ao mercado, porque parte dele é destinada a honrar dívidas cujas taxas são incompatíveis com qualquer racionalidade. O crédito consignado, que deveria ser o mais barato do país por ter risco zero e desconto em folha, cobra juros que superam até o dobro da taxa básica, operando como um imposto privado sobre o salário.

Mas o efeito mais profundo dos juros não está no bolso das famílias: está no orçamento público. Ao contrário da inflação, que corroía salários, o juro corrói impostos. A arrecadação se transforma em serviço da dívida, antes mesmo de se tornar investimento, saúde, educação ou infraestrutura. O orçamento nasce amputado. A concentração deixa de ser apenas de renda e passa a ser de poder: o poder de decidir o rumo da economia.

É exatamente aqui que entra o incômodo do Banco Central com a poupança. Não porque ela prejudique o pobre, como se insinua, mas porque ela impede que o juro exerça todo o seu efeito contracionista. A poupança financia o crédito imobiliário com taxas inferiores à Selic. Isso significa que, mesmo com juros altíssimos, a construção civil — setor intensivo em emprego e responsável por ativar dezenas de cadeias produtivas — continua funcionando. O Banco Central aperta, mas o setor resiste. O crédito imobiliário não desaba. A recessão não se instala na velocidade desejada.

A crítica à poupança, portanto, não é social: é operacional. A estrutura da caderneta impede que a política monetária produza o grau de desaceleração que o Banco Central julga necessário. Daí a proposta, apresentada de forma técnica, mas com implicações políticas óbvias: migrar o financiamento imobiliário para “captação a mercado”. Em outras palavras, submeter a casa própria ao juro alto.

A consequência é inequívoca. Se o crédito imobiliário passar a seguir a Selic, programas como o Minha Casa Minha Vida se tornam inviáveis; prefeituras perdem seu principal instrumento de investimento; a construção civil, que sustenta regiões inteiras, será a primeira vítima da política monetária; empregos desaparecerão ao menor movimento de alta dos juros. O Executivo perde a capacidade de reagir a crises, porque qualquer tentativa anticíclica será anulada pela taxa de juros. Trata-se de retirar do governo eleito o comando da política econômica e entregá-lo ao mercado financeiro, erigido à condição de árbitro soberano.

No fim das contas, a pergunta que se impõe é simples:
o que produz mais danos sociais — a inflação que a taxa de juros pretende combater ou a concentração de renda e poder provocada pelo próprio remédio?

A inflação corrói salários; o juro corrói a sociedade inteira.
A inflação empobrece; o juro transfere.
A inflação cria instabilidade; o juro cria dependência.
A inflação atinge o presente; o juro destrói o futuro.

Ao rotular a poupança como “Robin Hood às avessas”, o Banco Central desloca o debate para um bode expiatório conveniente. A caderneta não é o problema. O problema é que ela resiste ao projeto de subordinar toda a economia — incluindo o Estado — à lógica implacável do juro alto. A poupança não prejudica o pobre: ela atrapalha a crise que o Banco Central gostaria de provocar.

LUIZ MELCHERT ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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