
CHARGE INTERNACIONAL
É raro assistir a uma vitória em que sentimos que alguma coisa mudou na cultura política da esquerda
Que extraordinário sucesso político. É raro assistir a uma vitória em que sentimos imediatamente que alguma coisa mudou na cultura política da esquerda. Talvez duas coisas — primeiro, a esquerda bateu-se de fato contra as gritantes desigualdades sociais; segundo a esquerda comprometeu-se a fazer de facto o que disse querer fazer. E talvez este seja o traço mais importante desta candidatura — nunca cedeu à lisonja dos “mercados” nem à pressão mediática daqueles que o procuravam condicionar, chamando-o de radical esquerdista (para Trump, um comunista). Pelo contrário, assumiu-se orgulhosamente como socialista democrático e assim continuou até ao fim. Nessa noite, os socialistas democráticos europeus coraram de vergonha.
O que esta campanha deixa de extraordinário na vida política é o renascimento da social-democracia, agora pela mão de um candidato norte-americano. A social-democracia é uma ideologia europeia, concebida por intelectuais europeus, dentro de partidos políticos europeus (como isto hoje parece estranho) e que moldou a Pax Europeia a seguir à segunda guerra mundial. A social-democracia fez a conciliação entre marxismo e democracia, entre igualdade e liberdade individual, entre mercado livre e estabilidade social. O seu êxito foi tão grande, tão avassalador, que em breve toda a Europa teria orgulho no seu modelo social europeu, no seu Estado social, no seu sistema de ensino para todos, no seu serviço nacional de saúde, no seu sistema de segurança social. Cem anos depois, a social-democracia parece morta na Europa e renasce na política americana. Absolutamente extraordinário.
Depois, ainda, a autenticidade. Mamdani nunca disse apenas o que era convencional, nunca disse apenas o que já estava aceite pela maioria, nunca “contou narizes” antes de agir. Apresentou, com uma desarmante candura, o seu programa político sem saber como aquele seria recebido. Recusou o discurso fácil, redondo, que agrada a todos e que, portanto, não tem arestas: “arte previsível, com efeitos previsíveis, com recompensas previsíveis”. Correu riscos, principalmente depois de começar a subir nas sondagens. Foi genuíno. Demoraram a entender: só o povo o levou a sério.
Vejo as reações políticas dos seus adversários e todas elas me parecem mais elogios que criticas. Dizem que as medidas do seu programa são inviáveis. Que não haverá dinheiro suficiente para as financiar. Que são medidas contrárias a tradição política norte-americana. Que são medidas irrealistas e demagógicas. E penso para mim próprio que tudo isto já foi dito antes contra o presidente Roosevelt, quando, há cerca de cem anos, fez dos bancos os seus adversários e dos cidadãos humildes as pessoas a salvar da grande recessão. Sim, Mamdani irá aprender na prática que a política é muitas vezes a escolha do mal menor – porque não escolhendo o mal menor, virá o maior. Sim, Mamdani irá aprender na prática que a ação executiva é o grande desafio da política e que esta vai alem de fazer discursos. Mas não duvidem: ele tem a ambição de fazer tudo o que prometeu. E isso é muito bem-vindo.
JOSÉ SÓCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( PORTUGAL / BRASIL)