
Eduardo Paes esnobou o palanque petista, pediu ‘vale-night’ para entrar no trem miliciano do PL e Flávio Bolsonaro disse “não!”. Imaturo, o prefeito bailou na curva
Eduardo Paes foi vítima da Operação Lava Jato no seu ramo fluminense, liderado pelo ex-juiz Marcelo Bretas. Municiados por pedaços de inquéritos saídos de Curitiba, o procurador da República Eduardo El-Hage e Bretas envolveram o atual prefeito do Rio de Janeiro numa série de falsos escândalos de corrupção e atingiram em cheio sua reputação.
Ex-juiz e procurador regional pareciam trabalhar em sintonia com o clã Bolsonaro, que em 2018 apoiou o até então desconhecido ex-juiz Wilson Witzel, candidato do PL ao governo naquele ano trágico para o país. O desmonte da imagem pública de Paes destruiu quaisquer chances que ele tinha de vencer a eleição para governador do estado naquele ano. Witzel venceu-a, saindo da lama e depois virando laranja chupada no balaio dos bolsonaristas.
Eduardo Paes elegeu-se em 2020 para o terceiro mandato à frente da Prefeitura carioca e desde 2023 recebe todo o apoio financeiro que precisa do presidente Lula e do governo federal do PT (inclusive sob Dilma Rousseff) — como ocorreu nos dois primeiros mandatos, de 2009 a 2016. Tendo sido uma figura tinhosa da oposição a Lula na CPI dos Correios (2005/2006, época das denúncias do tal “mensalão”), pediu perdão por seus exageros retóricos e foi perdoado.
Lula articulou apoio a Paes
Ciente de ser o Rio de Janeiro um terreno minado para a esquerda em geral, e para o Partido dos Trabalhadores em especial pois sua legenda jamais venceu eleições majoritárias na capital ou no estado, Lula convenceu os petistas fluminenses de que ali os inimigos comuns deles, de Paes e de quem faz política tradicional no estado eram as facções criminosas, as milícias e o bolsonarismo. Essa trinca do cão dos infernos é responsável pelo Rio ser o que é — e o presidente da República imaginou que em 2026 poderia enxotar todos eles do Palácio Guanabara pondo o seu PT e o seu amigo pessoal Eduardo Paes no mesmo palanque.
Imaturo, agoniado por tomar atalhos eleitorais para vencer pelos caminhos mais fáceis — e a Democracia não admite atalhos, é uma estrada reta como a avenida Caxangá (no Recife) e sem retornos como a Linha Vermelha (no Rio) — o prefeito carioca urdiu uma traição e abriu uma agenda de conversas com o deputado Altineu Côrtes, do PL, com o senador Flávio Bolsonaro e fez mesuras abjetas para Silas Malafaia.
“Mexeu com Malafaia, mexeu comigo. Silas Malafaia é meu amigo”, chegou a dizer o prefeito numa solenidade de puxa-saquismo explícito chamada em desagravo ao pastor evangélico e líder de uma denominação familiar. Eduardo Paes almejava ser recebido no coração do PL bolsonarista, trair o PT do presidente Lula e celebrar uma aliança eleitoreira pragmática que potencialmente fá-lo-ia vencer a eleição de governador em primeiro turno.
No último domingo, em cima de um palanque na periferia da capital fluminense, Paes deixou claro o seu objetivo: andar pelo estado de braços dados com os bolsonaristas, os milicianos e os faccionados em geral na campanha do próximo ano. Várias alas do PT que negociavam com ele uma aliança em nome de um futuro limpo para o estado que é a síntese do domínio do poder público pelo crime organizado se revelaram perplexas.
No momento, Paes não tem caminho de volta
A piscada desavergonhada de Eduardo Paes na direção do clã Bolsonaro e do PL durou menos de 24 horas. No fim da manhã da última segunda-feira o senador Flávio Bolsonaro rechaçou uma aliança com o prefeito do Rio, disse (com outras palavras, pois sua inteligência rasa não permite muitas metáforas) que ninguém pode paquerar Lula e querer casar com Bolsonaro e deixou claro que o PL do Rio de Janeiro analisa alguns nomes para apoiar ao governo em 2026 e nenhum deles se chama “Eduardo Paes”.
Agora, humilhado por excesso de esperteza, o prefeito está sozinho em cena que nem um cão sarnento chupando manga no Aterro do Flamengo num fim de tarde abafado na outrora “Cidade Maravilhosa”. Não é impossível, mas é improvável que os petistas e a esquerda do Rio voltem a olhar com condescendência para Eduardo Paes, que os esnobou. Depois do tom duro que usou com o prefeito, é impensável que Flávio Bolsonaro o acolha em seu partido e o apoie para o governo em 2026.
O PSD, partido de Paes dirigido com astúcia ímpar por Gilberto Kassab, pode se ver obrigado a seguir sozinho no estado que detém o terceiro maior eleitorado do país e isso vai se refletir no número de deputados a serem eleitos para a Câmara em 2026 — quanto mais deputados, maior fundo e mais amplo o cacife de negociações em Brasília.
Nesse momento, o prefeito gane lamurioso costeando o alambrado das estátuas equestres do Aterro e a duras penas aprendeu: ainda não é um ás da política; é mero coadjuvante na cena nacional.
LUIS COSTA PINTO ” BLOG ICL NOTÍCIAS” (BRASIL)