A ILUMINADA AMSTEDAM FAZ 750 ANOS

à esplendor do Renascimento do Grão-Ducado de Florença, no centro da Itália, aconteceu nos estertores da longa Idade Média (476 – 1453) e marca até hoje, indelevelmente, a arte e o pensamento do Ocidente. Portugal emerge, em seguida, na Idade Moderna (1453 – 1789) com seu fabuloso Ciclo das Navegações. À mesma época, surge no coração do Sacro Império Romano Germânico, embrião da Alemanha, em 1517, a Reforma Protestante, do teuto Martinho Lutero (1483 – 1546), que dividiria, para sempre, os cristãos e, essencialmente, a Europa – assim como a região setentrional do Novo Mundo.

O protestantismo mais severo, abraçado pelo francês João Calvino (1509 – 1564), levaria à criação da República das Sete Províncias Unidas, tendo como capital a holandesa Amsterdam, que neste 2025, no dia 27 de outubro, comemora os 750 anos de fundação. Seu apogeu ocorreu no século XVI – após os Países Baixos se tornarem independentes, em 1578, da soberania dos Habsburgo, herdeiros dos Reis Católicos, principais inimigos dos protestantes.

Os calvinistas batavos, liberais e capitalistas, expandiram em todos os continentes a guerra contra os católicos espanhóis. Mas, a rigor, os maiores confrontos acabaram sendo travados nos vastos domínios do Império Português – que, de 1580 a 1640, esteve sob a Coroa de Madri. Os mercadores neerlandeses da Companhia das Índias Ocidentais tomaram de assalto o Nordeste brasileiro, fixando a capital em Recife. E conduzindo a Companhia das Índias Orientais, ocuparam territórios nas Áfricas e na imensa Ásia – da Índia Portuguesa, inclusive a Província de Goa, às Molucas, no Arquipélago da Indonésia, erigindo, ali, a metrópole de Batávia, atual Jacarta.

A Holanda tornou-se, rapidamente, hegemônica nos mares. Sobretudo no lucrativo comércio das especiarias. Liderança que só seria perdida no século XVIII, quando os ingleses, adversários, igualmente, da Espanha e da Santa Sé de Roma, passaram a dominar os oceanos. Amsterdam acolheu milhares de famílias judias que, expulsas da Espanha, e, posteriormente de Portugal, terminariam estabelecendo-se nos Países Baixos.

Um dos filhos desses refugiados, o filósofo Bento Espinosa (1632 – 1677), nascido já em Amsterdam, no bairro hebreu, próximo à monumental Sinagoga Portuguesa (foto), conhecida também como A Esnagoga, seria o precursor do Iluminismo. O liberalismo batavo permitiu a edificação, na Rua dos Judeus, no centro histórico de Recife, da primeira sinagoga de todas as Américas. Restaurada e reaberta em 2000, com o financiamento da Fundação Cultural Banco Safra – da família de mesmo sobrenome, de raízes sefaraditas, luso-espanhola, radicada, inicialmente, na síria Aleppo e, depois, em Beirute, capital do Líbano, de onde emigraram para São Paulo.

A presença dos neerlandeses no Nordeste contou com um admirável governador-geral, o alemão Maurício de Nassau (1604 – 1679), que praticamente refundou a cidade. Construiu as duas primeiras pontes do continente americano, bem como magníficos palácios, às margens do Rio Capibaribe, para além de extensos parques e de um jardim zoológico. Amsterdam prosperou em torno de uma ponte sobre o rio Amstel, que deu origem ao seu nome. E, por sua vez, os holandeses ainda criariam, nas Américas, duas Amsterdam. Uma em Recife, e, a segunda, nos Estados Unidos, na atual Nova York. Ambas eram chamadas de Neue Amsterdam, ou seja, Nova Amsterdam.  

A metrópole batava foi, sem dúvida, a grande rival de Lisboa. A capital portuguesa, porém, é mais antiga. Existe desde a Era Romana e foi reconquistada aos muçulmanos por Afonso II, O Bolonhês, entre 1249 e 1250 – e daria mundos ao mundo. Por outro lado, o Iluminismo da Amsterdam de Espinosa, como o Renascimento florentino, continua a encantar e inspirar todo o planeta.  

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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