
Ao lado de Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin forma a tríade de compositores intrinsecamente paulistanos dos últimos 50 anos
Nesta segunda-feira (13), uma rodada musical saudará os 75 anos de Eduardo Gudin, compositor paulista. A definição não é por acaso. É para confirmar que, ao lado de Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin forma a tríade de compositores intrinsecamente paulistanos dos últimos 50 anos.
Ao longo dos últimos 55 anos, tivemos vidas em paralelo. Primeiro, mal saindo da adolescência, nos festivais universitários da Tupi, criação do grande Fernando Faro.
Eu era apenas o secundarista, vindo de Poços de Caldas e São João da Boa Vista, e conseguindo emplacar algumas músicas nos festivais. Gudin já era o nome. Ele e Gonzaguinha foram as grandes revelações dos festivais universitários.Play Video
Mas sua estreia foi antes, com apenas 16 anos apareceu no programa “O Fino da Bossa”, convidado por Elis Regina devido ao seu talento como violonista. No mesmo período, aliás, foi o segundo colocado em um festival de violões, perdendo apenas para o grande Sérgio Assad, com quem eu concorria nos festivais secundaristas de São João da Boa Vista.
Em 1969, conquistou o terceiro lugar no festival da Record com “Gostei de Ver”, parceria com Marco Antonio Ramos. E emplacou o primeiro dos seus clássicos, “Lá se vão meus anéis”, com Paulo César Pinheiros, vencedor do 4 ° Festival Universitário da Tupi e defendido pelos Originais do Samba.
Não ficou apenas no violão e nas composições. Nos anos seguintes, se consolidou definitivamente como o compositor paulistano, com o LP Eduardo Gudin, de 1973, com a foto icônica dele e seu grupo na mesa 8 do Bar do Alemão. Apareciam na foto personagens que fui conhecer alguns anos depois, como o violonista Zé Buda, Danilo, filho de Fachina, o cappo do Palmeiras, e o inesquecível Dagô, o dono do bar, e seu pandeiro.
No final dos anos 1960, Poços de Caldas começou a organizar seus festivais. Aproveitei meus contatos, nos festivais da Tupi, e convidei vários compositores a concorrerem por lá. Foi uma turma boa, Renato Teixeira, Jorge Ben, o trio da Rhodia, com Hermeto, Lanny Gordin e Alemão, e Eduardo Gudin e sua turma do bar do Alemão.
Mas deu errado. Um júri inacreditável desclassificou algumas das músicas, promoveu outras sem nenhum nível. E ficou parecendo que havia sido montada uma patranha para me dar a vitória. E Gudin passou a me olhar torto.
Quando me mudei para São Paulo, em 1970, Gudin já era o ídolo da rapaziada boemia. Algumas amigas me convidaram para conhecer o “bar do Gudin”, como era chamado o bar do Alemão depois da foto no LP. Me enrolei no trânsito e não encontrei o bar.
Nosso primeiro encontro foi algum tempo depois, em uma bar que ficava no segundo andar de um sobrado, esquina da Consolação com a Paulista, onde Gudin se apresentava. Fomos com um grupo grande. No intervalo, cruzei com Gudin no balcão do bar. Ele me falou que frequentava Poços, que sua mãe conhecia o meu pai. Na volta do show, convidou-se para tocar uma de minhas músicas. Fiquei surpreso com a gentileza. A caminho do palco, nos cruzamos na escada e ele me disse:
- Agora você toca e eu fico na mesa conversando, igual você estava!
Aí conheci o lado ranheta do Gudin.
Por volta de 1975, saindo de um dos fechamentos da Veja, 5a à noite, fui parar no Bar do Alemão. O bar já estava na muda. Gudin começou a frequentar outros pontos, Dagô contratou Nelsinho Risada para caixa. Nelsinho era um exímio cavaquinhista.
Com o bar quase vazio, Nelsinho veio prosear na nossa mesa, e disse-lhe que tocava bandolim. Imediatamente apareceu o bandolim do bar e tocamos “Tenebroso”, de Ernesto Nazareth. Depois disso, montou-se a nova estrutura musical do bar. Havia o Heraldo, eximio violonista, assim como Nelsinho fanático por Anibal Augusto Sardinha, o Garoto. Depois, Serginho Leite, com um talento incrível no violão 7 cordas. E um time fantástico de ranhetas, como Pelão, produtor de músicas, negão Almeida, sambista e vendedor de livros, Baiano, aposentado da Marinha, a turma da CESP, com um vasto conhecimento musical, Jorge Broadway, um aluno da Unicamp de voz aveludada, que cantava como um crooner da Broadway, Tina, nossa musa maior.
Passamos a tocar quase diariamente e o Alemão tornou-se o centro do choro e do samba. Mas continuou sendo o Bar do Gudin, que aparecia pelo menos uma vez por semana. Depois, passou a ser frequentado por Carlinhos Vergueiro e tentou-se uma disputa entre os dois jovens promissores.
Em 1985, sua composição “Verde”, com J.C. Costa Neto, explodiu no Festival da Globo, interpretado por Leila Pinheiro. E apareceu seu lado de empreendedor cultural, participando da criação da Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo e, depois, tornando-se seu diretor artístico.
Enquanto desenvolvia seu lado de arranjador, não parava de conquistar grandes parceiros musicais. Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho. E sua parceria inesquecível com Tito Madi e Paulinho Nogueira no LP “Para que nossa emoção sobreviva”.
Ano a ano, nossa amizade foi se consolidando. Não era apenas o violonista, o compositor, o líder calado de um belo grupo de universitários compositores, mas a pessoa curiosa com a política, com a economia e com uma inteligência musical rara, mesmo entre os músicos.
Por inteligência musical considero a capacidade de entender nuances da música. Por exemplo, no bandolim levei tempos para descobrir um recurso criado por Jacob, que consistia em imprimir uma cadência às palhetadas, como se fosse uma câmara de eco. Uma noite, Gudin veio comentar esse estilo de interpretação, que mesmo bandolinistas de primeira teriam dificuldade em identificar.
Tivemos algumas belas polêmicas musicais, especialmente sobre as raízes da bossa nova. Eu via a influência do samba choro, trazida por João Gilberto, e do bolero, por Luiz Bonfá. Gudin insistia na preponderância do samba e demonstrava como o violão de João Gilberto simulava o surdo, nas cordas graves, e o tamborim, nas finas.
Os dois lados tinham razão, mas as discussões eram riquíssimas, uma forma de eu aprender nuances musicais.
Devo a Gudin um presente inesquecível. Por coincidência, seus pais vieram morar no Paraíso, em um prédio vizinho ao de meus pais. Um sábado, chegando no prédio, encontro Gudin saindo do apartamento dos pais. Perguntou-me o que iria fazer à tarde. Disse-lhe que iria trabalhar.
- Você não quer ir comigo encontrar com Baden Powell?
Como assim? Eu seria capaz de cancelar a entrevista mais importante por essa possibilidade. Peguei meu bandolim e segui com ele até um hotel na rua Augusta, onde Baden estava hospedado.
Lá, vi o inesquecível. Gudin mostrou uma música nova para Baden. E Baden ficou tecendo harmonias, construindo o arranjo ao vivo e em cores. Depois, pediu que eu tocasse um choro e me acompanhou.
Gudin é pessoa tão ligada à sua história que, anos depois, foi para o supremo sacrifício de adquirir o Bar do Alemão, para impedir que fosse fechado. A pandemia liquidou com o projeto e ficamos, ambos, órfãos do nosso bar.
Mas a amizade continua. Quando foi agraciado com o título de Cidadão Paulistano, pela Câmara Municipal, convidou-me para compor a mesa. Na minha fala, lembrei que meu pai namorou a mãe de Gudin. Imediatamente ele tomou o microfone para esclarecer:
- Mas quando ambos eram solteiros.
São 50 anos de amizade, de afinidades, de encontros musicais.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)