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Peça 1 – sobre teorias da conspiração
Quando começou a Lava Jato, ousei identificar a política anticorrupção como novo passo das estratégias geopolíticas norte-americanas. A intelligentzia torcia o nariz e lançava a sentença condenatória: “Teoria conspiratória!”. Dado o diagnóstico, nada mais se dizia porque o tema já tinha sido previamente liquidado.
Desde 1967, quando a CIA emitiu o memorando Dispatch 1035-960, o termo “teoria da conspiração” passou a ser usado como ferramenta de contrapropaganda. O objetivo era claro: deslegitimar críticas ao relatório oficial sobre o assassinato de John F. Kennedy. A expressão tornou-se um escudo semântico contra qualquer investigação que desafiasse narrativas oficiais — especialmente aquelas que envolvem os interesses geopolíticos dos Estados Unidos.Play Video
O documento tinha um título prosaico — “Countering Criticism of the Warren Report” — mas se tornou histórico: ele inaugura a estratégia moderna de rotular críticos como “teóricos da conspiração”.
No Brasil, esse mecanismo foi ativado durante a Lava Jato. A política anticorrupção, longe de ser apenas um esforço ético, pode ser interpretada como parte de uma estratégia de alinhamento institucional ao Ocidente — uma nova fase do lawfare, onde a Justiça se torna instrumento de guerra política.
Peça 2 – As “Primaveras” e a indignação como espetáculo
Entre 2003 e 2014, três ondas de revoltas populares — Revoluções Coloridas, Primavera Árabe e Maidan — inauguraram uma nova gramática política. Todas seguiram um roteiro semelhante:
- Revolta moral contra corrupção e autoritarismo.
- Dramatização midiática que amplificava o conflito.
- Captura institucional por forças alinhadas ao Ocidente.
ONGs, fundações e agências como USAID e NDI atuaram como catalisadores desses processos, transformando a indignação em governabilidade emocional. A democracia passou a ser encenada em tempo real, com líderes performáticos e narrativas polarizadas.
Peça 3 – Milei e Zelensky: personagens da nova era
Ambos emergem do entretenimento — Zelensky como comediante e ator, Milei como economista midiático. Ambos encarnam o arquétipo do “povo contra a casta”, comunicam-se diretamente com as massas via redes sociais e transformam suas figuras pessoais em símbolos do Estado.
| Elemento | Zelensky | Milei |
| Estética da rebelião | Lives, apelo moral | Memes, TikTok, linguagem irreverente |
| Narrativa “povo x sistema” | Contra oligarquia pró-Rússia | Contra a casta política parasitária |
| Apoio externo | USAID, NDI, OTAN | Atlas Network, think tanks libertários |
| Economia moral da política | Esperança e heroísmo | Raiva e purificação |
| Resultado estrutural | Consolidação pró-OTAN | Consolidação pró-Wall Street |
Peça 4 – O Departamento de Estado como diretor de cena
O apoio dos EUA a Zelensky e Milei não se limita a elogios diplomáticos. Há uma arquitetura complexa de influência:
- Financiamento de reformas e treinamentos institucionais.
- Suporte midiático e combate à desinformação.
- Coordenação direta com o Departamento de Estado e o Pentágono.
- Alinhamento com think tanks como Cato Institute e Atlas Network.
Na prática, isso transforma países como Ucrânia e Argentina em protetorados administrativos, com dependência financeira, militar e narrativa.
Peça 5 – A teoria do choque e o colapso político
Faz parte da estratégia do liberalismo. Aproveite momentos favoráveis e promova o maior choque que puder nas instituições e na organização do Estado.
Ambos prometeram reformas profundas e combate à corrupção. Ambos falharam.
Zelensky viu sua aprovação despencar após escândalos internos, influência de oligarcas e lentidão nas reformas. Foi salvo pela guerra com a Rússia, que reconfigurou sua imagem.
Milei, sem uma guerra para redimir sua gestão, mergulhou a Argentina em miséria, desmonte do Estado e fuga de capitais. A promessa de renovação moral se converteu em destruição institucional.
Peça 6 – Escândalos e redes obscuras
Ambos acumulam denúncias graves:
- Zelensky: Pandora Papers, favorecimento a empreiteiras, controle da agência anticorrupção.
- Milei: escândalo da criptomoeda $LIBRA, áudios sobre corrupção familiar, vínculos com empresários investigados por tráfico e lavagem.
A estética da moralidade, ao que parece, serve também para encobrir práticas duvidosas e redes de poder transnacional.
Peça 7 – Conclusão: o espetáculo como estratégia
A nova geopolítica não se faz apenas com tanques e tratados. Ela se encena. A indignação popular é coreografada, os líderes são personagens e a moralidade é o roteiro. Zelensky e Milei são apenas dois dos protagonistas dessa dramaturgia global — onde o Departamento de Estado é o diretor, e o povo, muitas vezes, apenas plateia.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN”( BRASIL)