
Em 1976 decidiu abandonar o mundo. Internou-se em uma clínica geriátrica. Morreu em 1980. Mas não se sabe onde passou seus últimos anos.
Os dois senhores, participantes da história nacional, estavam imersos em recordações, com o porão da memória sendo vasculhado pelo biógrafo curioso.
- E Adalgisa Nery, o que sabem?
Adalgisa Nery, poeta, cronista, contista, nos anos 40 e 50 foi uma das musas da intelectualidade carioca, ao lado de Cecilia Meirelles. Seu nome havia surgido em algumas das entrevistas que fiz com velhos poçoscaldenses.
Em particular, falavam de seu segundo marido, Lourival Fontes, o poderoso diretor do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda do governo Getúlio Vargas. E falavam com troça, de sua falta de traquejo social, a ponto de beber a água para lavar os dedos, na boate da Urca, em Poços.Play Video
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As lembranças de ambos saíam de Poços, e pousavam no Rio de Janeiro dos anos 50 e 60, na fase mais fervilhante de suas vidas. E Adalgisa era um ponto luminoso.
Filha de um pai matogrossense e de uma mãe portuguesa e neta de franceses, Adalgisa nasceu em 1905 no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Desde cedo, mostrava atração pela poesia. Aos 16 anos casou-se com o pintor Ismael Nery, com quem teve 7 filhos, dos quais apenas 2 sobreviveram.
Seu universo enriqueceu-se fantasticamente com a rede de relações do marido. No Rio, passou a conviver com intelectuais como Álvaro Moreyra, Aníbal Machado, Antônio Bento, Graça Aranha, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Mario Pedrosa, Murilo Mendes e Pedro Nava. Especialmente Murilo Mendes e Bandeira.
Entre 1927 e 1929 o casal foi morar na Europa e se aproximaram da vanguarda da época, Villa-Lobos e Tomas Terán, a Marc Chagall e Juan Miró.

Nery morreu jovem, em 1934, deixando para a companheira uma intensa espiritualidade, que marcou a obra de ambos, um círculo intelectual dos mais criativos.
Depois da vida outras mortes viverão
Trazendo o pólen dos silêncios insepultos
Nos ventos desatados pelos prantos.
Depois do amor outros cansaços se levantarão
Marcando as carnes gretadas pelo tédio
Na aparência de satisfação.
Adalgisa conseguiu um emprego na Caixa Econômica e, depois, integrou o Conselho de Comércio Exterior no Itamaraty.
Dez anos depois, casou com Lourival Fontes, político influente, diretor do poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, e marido autoritário e centralizador, mas que ampliou seu círculo social.
Conviveu com artistas de Hollywood, que vieram ao Rio, dentro da política de boa vizinhança. Foi retratada por Diego Rivera e Frida Kahlo.

O casamento durou 13 anos e terminou depois de uma relação extraconjungal de Lourival com Maria do Carmo de Matos, sua assistente no DIP.
Com 50 anos, Adalgisa continuou arrebentando corações. Depois de seus livros de poemas, enveredou pela crônica, trabalhando no Diário de Notícias e na Última Hora, de Samuel Wainer, com a coluna “Retrato sem Retoques” revelando-se uma fina observadora das mudanças urbanas..
“As ruas estão cheias de pressa, mas os olhos das pessoas continuam vazios. Ninguém se olha. O homem que carrega o embrulho pensa na dívida, a moça com o vestido novo pensa no olhar que não veio, e o velho pensa em nada, porque já gastou o que tinha de pensar.
O bonde passa e leva a cidade inteira sentada em bancos de madeira. E eu penso: será que um país também anda de bonde? Sempre no mesmo trilho, sempre a mesma rotina, esperando que o destino seja outro, mas o destino é só a curva que já conhecemos.”
Com a queda de Getúlio, decidiu pela militância política. Em 1960 foi eleita deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro. Foi reeleita por mais dois mandatos. Em 1969 sua carreira política foi interrompida pelo AI-5.
Em 1976 decidiu abandonar o mundo. Internou-se em uma clínica geriátrica. Morreu em 1980. O que os biógrafos não sabem é onde passou seus últimos anos.
Em 1980 fui trabalhar no Jornal da Tarde, mas com a cabeça já fincada nos anos 40 e 50 no Rio de Janeiro. Pedi para a sucursal do Rio levantar a vida de Adalgisa. Na matéria, contavam que nos últimos anos foi abrigada por Flávio Cavalcanti, o mais ostensivo conservador da imprensa, em um sítio que tinha nas imediações do Rio de Janeiro. Flávio jamais divulgou esse ato.
Mas voltemos aos nossos dois senhores, o banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles e seu fiel amigo, Homero Souza e Silva.
Na varanda da fazenda de Homero, em Botelhos, quando perguntei de Adalgisa Nery, o velho senhor suspirou profundamente:
- Ela não gostava de mim, me criticava muito em suas crônicas na Última Hora.
E Homero, como quem acaba de lembrar de algo importante:
- Puxa, Walther, esqueci de te contar. Em um jantar na casa de William Mason (presidente da Alcoa), ela bebeu um pouco mais e me confessou que era apaixonada por você.
- Uh, Homero, e só agora você me conta?
Fez-se um silêncio na varanda e os dois senhores ficaram observando as montanhas da Mantiqueira, com o olhar saudoso daqueles que vão se despedindo de um passado intenso.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)