
Netanyahu está conduzindo uma campanha alegando que tudo o que é relatado sobre a fome e as mortes em Gaza é uma gigantesca “mentira” orquestrada em escala global. A realidade é outra.
Yonatan Netanyahu deu a vida para salvar centenas de israelenses sequestrados. Ele foi o único membro do comando Sayeret Matkal morto na Operação Entebbe, realizada por essa força de elite para libertar os 248 israelenses a bordo do voo 139 da Air France, desviado para o Aeroporto de Kampala em 1976.
A operação na qual o Tenente-Coronel Netanyahu morreu conseguiu resgatar quase todos os capturados pelos fedayeen da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). Meio século depois, seu irmão é o principal responsável por uma operação militar que já custou a vida de mil soldados israelenses e mais de 60.000 civis palestinos, além de ter resgatado muito menos israelenses vivos do que aqueles resgatados pela FPLP e pelo ditador ugandense Idi Amin.
O velho Netanyahu morreu resgatando e vencendo, mas seu irmão Benjamin fracassou em sua guerra de terra arrasada, que agora completará dois anos sem derrotar o Hamas ou resgatar todos os reféns.
O grupo jihadista abjeto que massacrou civis israelenses com o pogrom de 7 de outubro de 2023 atingiu seu objetivo, buscando forçar Netanyahu a fazer exatamente o que ele fez: lançar uma guerra de devastação e extermínio que mancharia a imagem de Israel e tornaria a bandeira palestina conhecida em todo o mundo.

O governo israelense e as Forças de Defesa de Israel (IDF) são os autores materiais do crime hediondo, orquestrado pelo Hamas. Para enfrentar a onda de condenação que varre o mundo, Netanyahu nega o óbvio. Segundo o primeiro-ministro israelense, “não há fome em Gaza”, e as alegações sobre a fome e os massacres de civis são uma mentira colossal.
Para o governo israelense, ao acreditar nessa mentira, Londres está “recompensando o Hamas”. Mas o governo britânico, assim como os governos francês e canadense, diz o contrário e exige um cessar-fogo, o influxo maciço de suprimentos alimentares e o abandono dos planos de anexação da Cisjordânia e de Gaza. Caso contrário, o Reino Unido avançará no reconhecimento do Estado Palestino.
Quem está dizendo a verdade? Tudo indica que a descrição britânica da situação em Gaza é precisa. Além disso, é consistente com a da ONU e de muitas organizações humanitárias, incluindo duas organizações israelenses que acusam Netanyahu de genocídio.

A maioria do mundo considera a versão israelense uma campanha falaciosa de uma suposta “conspiração antissemita” para espalhar uma “mentira” colossal. Até Trump disse que há fome em Gaza e que pessoas estão morrendo. E a fonte de informação do chefe da Casa Branca é a onipresente CIA.
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Da mesma forma, o Reino Unido tomou a decisão de avançar em direção ao reconhecimento do Estado palestino com base em informações do MI-6, e esse aparato de inteligência teve ampla penetração em Gaza e na Cisjordânia desde que a Palestina era um protetorado britânico.
Londres tem o direito histórico de ser ouvida em nome de Israel. Foi o governo britânico quem primeiro propôs a existência de tal Estado, na Declaração de Balfour. Em 1917, o chefe do Ministério das Relações Exteriores, Arthur Balfour, propôs a criação de um Estado judeu na Palestina, um território que logo deixaria de fazer parte do Império Otomano, derrotado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

O fato de a Palestina ter se tornado um protetorado britânico após a retirada turca fortaleceu a influência de Londres na Assembleia Geral da ONU, que em 1947 aprovou a Resolução 181, que deu origem a Israel.
Neste ponto das calamidades que sofreram, a maioria dos habitantes de Gaza deveria estar ciente de que morrer de fome ou sob as bombas israelenses é precisamente a estratégia do Hamas. Deveria estar claro porque, desde que assassinou funcionários e líderes do Fatah em 2007 para monopolizar o poder em Gaza, nunca construiu abrigos antiaéreos ou alarmes, nem solicitou interceptadores de mísseis ao Irã. A insolência dos habitantes de Gaza é a estratégia do Hamas. Sua guerra não é travada em território devastado ou em território israelense, mas sim no âmbito da opinião pública mundial. Lá, estigmatiza Israel como um Estado criminoso.
O pogrom de 2023 foi planejado para alcançar exatamente o que alcançou: dar a Netanyahu o casus belli necessário para lançar uma guerra de extermínio. Nem as quatro guerras com países árabes, nem a invasão do Líbano em 1982, nem todos os confrontos com o Hezbollah prejudicaram a imagem de Israel tanto quanto esta guerra desencadeada pelo Hamas.

Essa organização não teria alcançado tal feito sem Netanyahu. Thomas Friedman descreveu há muito tempo o fracasso de Netanyahu nesta guerra no The New York Times. Este prestigiado intelectual judeu chama o governo israelense de “o pior, o mais fanático e amoral da história de Israel”.
B’tselem e Physicians for Human Rights são duas ONGs humanitárias israelenses profundamente envolvidas no que está acontecendo em Gaza e, com informações abundantes, concordaram em acusar o governo israelense de “genocídio”.
O escritor israelense David Grossman também acusou Netanyahu de “genocídio”. Entrevistado por um jornal italiano, o autor de “Além do Tempo” explicou que “é devastador” entender o que está acontecendo em Gaza “a partir da nossa história e da nossa suposta sensibilidade ao sofrimento da humanidade”.

O jornalista judeu Tony Korn, radicado nos Estados Unidos e editor da revista Time por quinze anos, denuncia o “uso cínico do Holocausto e do antissemitismo” para a “violência colonialista”. Certamente, Netanyahu e seus aliados de extrema direita se encaixam no rótulo de “rentistas do Holocausto”, cunhado por Saramago para descrever esse cinismo desprezível.
Muitas figuras judaicas apontam os danos a Israel e ao judaísmo causados pela criminalidade com que Netanyahu responde aos crimes do Hamas. Mas não são apenas ele, seu governo e os jihadistas os culpados por essa catástrofe. Também são culpados os Estados árabes que nada fizeram para desarmar o Hamas e removê-lo de Gaza. Especialmente as monarquias que não exigem sua rendição para acabar com o sofrimento dos moradores de Gaza, nem oferecem exércitos para tomar o território, facilitando assim a retirada das tropas israelenses, a possibilidade de autogoverno e a marcha rumo à Solução de Dois Estados.
CLÚDIO FANTINI ” REVISTA NOTÍCIAS” ( ARGENTINA)

