
Não há “crise humanitária” em Gaza; trata-se de um genocídio industrializado. E todos os países com laços com Israel são cúmplices dessa máquina de morte.
1.
A presença do historiador Ilan Pappé no Brasil é uma honra. Sua trajetória intelectual e sua corajosa denúncia da opressão do povo palestino servem de referência para todos aqueles que, como nós, defendem os direitos humanos e denunciam com veemência o genocídio em curso na Faixa de Gaza.
Não há mais espaço para eufemismos. O governo supremacista e racista de Israel persegue, à vista de todo o mundo, uma política de extermínio e limpeza étnica. Essa ofensiva conta com o apoio não apenas do aparato militar israelense, mas também do apoio explícito da maioria da população do país.
Desde outubro de 2023, líderes políticos e militares israelenses têm iniciado uma escalada de desumanização dos palestinos e incitação explícita ao genocídio. Essas declarações oficiais, combinadas com atos concretos de destruição em massa, levam a uma conclusão inevitável: Israel está cometendo um crime de genocídio contra o povo palestino — um crime que persiste até hoje, graças à omissão (ou cumplicidade) de grande parte da comunidade internacional.
O massacre de civis em Gaza vai muito além dos bombardeios aéreos. Em terra, soldados israelenses cometeram atrocidades, frequentemente documentadas e, hoje, até celebradas nas redes sociais. Sob o pretexto da guerra contra o Hamas, Israel tem incentivado a destruição sistemática do tecido social, político e cultural da região.
Segundo dados recentes, aproximadamente 92% dos edifícios residenciais e 69% de todas as estruturas de Gaza foram destruídos ou severamente danificados. Hospitais, escolas, sistemas de saneamento, fontes de água potável e todo o sistema de saúde foram desmantelados. A fome está sendo usada como arma de guerra: dois milhões de pessoas enfrentam grave insegurança alimentar.
A situação descrita pelo diretor da UNRWA, Philippe Lazzarini, é puro horror: “O povo de Gaza não está nem morto nem vivo. São cadáveres ambulantes.”
2.
Hoje, 87,7% da Faixa de Gaza está sob o controle das Forças de Defesa de Israel (IDF). Cerca de 2,1 milhões de pessoas estão presas em áreas devastadas, sem acesso a alimentos, água, medicamentos e qualquer perspectiva de sobrevivência. Esse isolamento não é um efeito colateral, mas um plano estratégico deliberado com o objetivo de aniquilar um povo.
Não estamos diante de uma crise humanitária. Estamos diante de um projeto político de destruição. Não há erro. Não há acidente. Há um método. Há uma intenção.
Diante desses crimes hediondos, a pergunta que surge é: o que o direito internacional exige?
A Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio (1948) obriga os Estados a prevenir o genocídio e a não ser cúmplices dele. Manter relações diplomáticas, comerciais, militares ou tecnológicas com Israel — especialmente após a abertura de uma investigação formal sobre genocídio perante a Corte Internacional de Justiça em Haia — constitui uma violação direta desta convenção.
Países que têm o poder de agir, mas optam pela inação, são manchados por essa cumplicidade. Não há mais desculpas. Aqueles que mantêm os acordos estão financiando o genocídio, como Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, corretamente apontou. Aqueles que não os violam são cúmplices.
Se realmente quisermos pôr fim ao massacre em Gaza, é urgente que os Estados-membros da ONU rompam imediatamente todas as relações com o Estado de Israel. Isso requer um embargo total de armas e a suspensão dos acordos comerciais, tecnológicos e de investimento. Infelizmente, esta é a única linguagem que o regime israelense entende.
O governo brasileiro, sob a liderança do presidente Lula, adotou posições importantes: denunciou o genocídio, aderiu à investigação da Corte Internacional de Justiça, suspendeu exportações de equipamentos militares e se retirou da chamada Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), entidade que manipula a definição de antissemitismo para silenciar críticas ao Estado de Israel — agenda atualmente promovida no Brasil por setores de extrema direita e endossada por instituições como a PUC-SP.
Mas este momento histórico exige mais. É hora de o Brasil romper todas as relações diplomáticas e comerciais com Israel.
Não apenas por coerência com os princípios da nossa política externa, mas também como um imperativo moral e legal, o genocídio não pode ser relativizado. Não pode ser ignorado. Não pode ser normalizado.
3.
No último mês, a escalada de violência em Gaza atingiu níveis sem precedentes. O número de palestinos mortos em operações militares israelenses chegou a 60.000, incluindo milhares de crianças, e um número alarmante de feridos em bombardeios. Hospitais, escolas e abrigos da ONU foram completamente destruídos. Desde março de 2025, a ajuda humanitária está bloqueada, com entregas intermitentes e muito abaixo do necessário.
A fome está sendo usada como arma de guerra, legitimada pela população israelense. Aproximadamente 80% das redes de abastecimento de água foram destruídas e a população sofre de sede em pleno verão. O número de crianças menores de cinco anos sofrendo de desnutrição aguda triplicou. Gaza agora tem o maior número de amputações de crianças per capita do mundo.
A imagem mostra uma mulher sentada, usando um vestido longo e escuro, segurando uma criança magra no colo. A criança, visivelmente magra, encara a mulher, que parece observá-la com preocupação. O fundo é simples, com paredes claras e alguns objetos ao fundo que sugerem uma situação vulnerável.
O governo supremacista israelense, com o apoio ou a indiferença da maioria da população — que não vê as imagens dos horrores em Gaza, censuradas pela mídia — está implementando seu plano de tornar a Faixa de Gaza inabitável por meio da destruição total e da limpeza étnica dos palestinos. Sem a menor hesitação, o Ministro da Defesa anunciou sua intenção de concentrar inicialmente 600.000 palestinos no sul, na cidade destruída de Rafah, em uma “cidade humanitária” — um campo de concentração, como o chamou o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert — o que seria o primeiro passo para a transferência de palestinos para outros países.
Entre janeiro e março de 2024, a Corte Internacional de Justiça emitiu medidas provisórias contra Israel, reconhecendo o risco plausível de atos de genocídio contra a população palestina. O que antes era plausível é agora, segundo um número crescente de especialistas em genocídio e direito internacional, incluindo israelenses, uma conclusão inescapável: as ações de Israel em Gaza constituem genocídio contra o povo palestino.
Os relatórios de Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, apontam na mesma direção. Já em março de 2024, ela afirmou que Israel estava travando uma campanha genocida (o que explica por que se tornou alvo de sanções dos EUA). O que está acontecendo em Gaza, Albanese nos lembra, não é um conflito entre iguais, mas uma campanha de extermínio contra uma população sitiada e colonizada, impedida de viver com dignidade.
4.
Esta é uma situação de longo prazo, sistemática e estrutural, não um conflito episódico ou autodefesa circunstancial. Isso demonstra claramente que apelos indignados às práticas genocidas de Israel em Gaza estão fadados ao fracasso. O próprio Secretário-Geral da ONU, António Guterres, criticou recentemente a comunidade internacional por sua indiferença ao sofrimento dos palestinos famintos na Faixa de Gaza, chamando a situação de “uma crise moral que desafia a consciência global”.
A Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio impõe obrigações a todos os Estados signatários. Estas incluem o dever de prevenir o genocídio e de não ser cúmplice dele. Manter relações diplomáticas, comerciais, tecnológicas e militares com um Estado sob investigação por genocídio constitui, no mínimo, uma violação flagrante da devida diligência exigida dos Estados-membros da ONU pelo direito internacional.
Os Estados, e especialmente os aliados de Israel, que nunca interromperam sua ajuda militar, mas agora clamam pelo fim da “catástrofe humanitária” em Gaza e pelo levantamento do bloqueio israelense à ajuda humanitária, devem agir muito além das palavras de indignação. Se quiserem pôr fim imediatamente à carnificina em Gaza, os meios existem e são amplamente conhecidos pela comunidade internacional.
Chegou a hora de impor sanções – políticas, diplomáticas, econômicas e culturais. Países verdadeiramente indignados com Israel devem agir de forma consistente: romper laços com um Estado que incentiva o genocídio, impor um embargo abrangente de armas e suspender acordos comerciais e de investimento.
Acabar com o genocídio em curso em Gaza exige mais do que apelos indignados: exige ações concretas e imediatas.
PAULO SÉRGIO PINHEIRO ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Paulo Sergio Pinheiro é professor aposentado de ciência política da USP; ex-ministro dos Direitos Humanos; relator especial da ONU para a Síria e membro da Comissão Arns. Autor de, entre outros livros, “ Estratégias de Ilusão: A Revolução Mundial e o Brasil, 1922-1935″ (Compagnie des Lettres) [ https://amzn.to/4le1Cnw ]