
Os Reis Católicos de Espanha iniciaram a colonização do Novo Mundo pela atual República Dominicana, antiga Ilha Hispaniola, no Caribe, no final do século XV, alcançando, rapidamente, o México, América Central, Colômbia e Peru – onde Francisco Pizarro, natural de Extremadura, conquistador das tribos incas, fundaria, em 1535, a capital peruana, Lima, na árida costa do Pacífico. Os exploradores espanhóis, dois anos depois, criariam, em 1537, a primeira cidade da Bacia do Prata, a querida Assunção, capital do Paraguai – na mesma data em que os portugueses erguiam a pernambucana Olinda.
Assunção é conhecida, com razão, como “Mãe das Cidades”, porque, a partir da pequena vila de taipas, às margens do Rio Paraguai, seriam estabelecidas quase todas as cidades da Argentina, entre as quais, a grandiosa Buenos Aires, em 1580, após uma fracassada tentativa, em 1536. Chamada também de ‘Metrópole del Chaco’, Assunção é a mais antiga cidade do Vice-Reinado do Prata, que englobava, ainda Argentina, Bolívia, Uruguai e parte do Brasil.
Poucos se recordam, sobretudo por aqui, que, ao término da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), Assunção caiu sob controle das tropas do Imperador Dom Pedro II (1825 – 1891) e, de 1º de janeiro de 1869 a 1876, a bandeira brasileira tremulou no alto do esplêndido Palácio de los López, construído pelo Presidente Carlos Antonio López, pai do tirano Francisco Solano López (1827 – 1870), com arquitetura neoclássica – principal cartão postal da capital paraguaia. Ilustra a coluna uma foto na qual apareço diante do Palácio de los López, feita por minha esposa, Dona Andrea, em maio deste 2025, em nossa última viagem à Assunção.
A preciosa capital do Paraguai, durante a ocupação brasileira, foi saqueada várias vezes. Toda a documentação histórica encontrada seria trasladada para a Biblioteca Nacional – no centro do Rio de Janeiro. Inclusive o riquíssimo mobiliário francês do Palácio de los López, bem como da residência da irlandesa Elisa Lynch (1833 – 1886), companheira de Solano López, teria sido levado para o Brasil e Buenos Aires – Argentina e Uruguai eram aliados do Imperador D. Pedro II. Diversas obras recentes de historiadores paraguaios denunciam os danos causados pelos vitoriosos.
Um dos livros mais importantes é o do estudioso Herib Caballero Campos, “El País Ocupado”, lançado em 2013 pela Editora El Lector – associada ao prestigioso diário assunceno “ABC Color”. Estampa a capa da publicação uma gravura de época com a bandeira imperial brasileira no mastro central do Palácio de los López. O Paraguai sempre despertou minha curiosidade – país criado, a rigor, pelos incansáveis missionários jesuítas, juntamente com as tribos indígenas dos guaranis. Tive, aliás, o privilégio de trabalhar em duas emissoras de televisão paraguaias, a Telefuturo, em 1998, e a Red Guaraní, entre os anos de 2014 e 2015, ambas sediadas em Assunção, como consultor, a convite do proprietário do grupo, Don Antonio Vierci. Um homem de muita visão, empreendedor de múltiplos negócios e indústrias, a partir de Ciudad del Este, na fronteira com o Estado do Paraná. A Telefuturo é, no Paraguai, o equivalente à Rede Globo no Brasil. E a Red Guarani, que também é dos Vierci, uma espécie de SBT ou Rede Record.
A ‘Mãe das Cidades’ jamais perdeu sua elegância e tradição. E, apesar da presença imperial brasileira, por quase uma década, manteve um ritmo de vida suave, onde as esquinas, sob o sol ou no inverno, são semelhantes aos bairros de Buenos Aires – a irmãzinha mais jovem. Assunção é, para mim, más que nada, a adorável ‘Metrópole del Chaco’.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador