AUTO DE FÉ IBÉRICO DE ELIAS CANETTI

Chama-se Ibérica, como sabemos, a península onde se encontra Portugal e Espanha – assim batizada há cinco mil anos pelos gregos. O nome foi mantido pelos romanos e significa a região mais Ocidental do continente europeu. O conceito de Península Ibérica ganhou tradução em hebraico para Sefarad, com a chegada da grande diáspora judaica – expulsa do Reino de Israel, justamente pelos invasores romanos, no ano 70 de nossa Era Comum. Desde então, todos os judeus nascidos na Península Ibérica passaram a ser denominados de Sefaraditas. Hoje, no universo de quase 16 milhões de judeus existentes no planeta, 20 por cento têm ancestrais de Espanha e Portugal.

A maioria dos descendentes de Abraão, sobretudo, em Israel, Estados Unidos, Argentina e Brasil, é Azkenazita, isto é, da linhagem dos hebreus que se refugiaram nos antigos domínios do Sacro Império Romano Germânico. Já os Sefaraditas são os expulsos da Península Ibérica, no final do século XV, por não aceitarem a conversão forçada ao Catolicismo, imposta, primeiramente, em 1492, pela Espanha, dos Reis Católicos Fernando II de Aragão (1452 – 1516) e Isabel I de Castela (1451 – 1504), e, cinco anos depois, em 1497, pelo Reino de Portugal, por determinação do Rei Dom Manuel I (1469 – 1521), O Venturoso. Um dos mais ilustres eruditos sefaraditas do século XX foi Elias Canetti (1905 – 1994), nascido na diáspora, em Ruse, na Bulgária, à margem direita do Rio Danúbio, diante da localidade romena de Giurgiu. Educado na refinada Viena do ancien régime dos Habsburgo, porém, residiu boa parte de sua vida entre a inglesa Londres e a suíça Zurique, ao Norte da capital Berna, maior metrópole helvética de língua alemã.

Canetti dominava, perfeitamente, o ladino, o castelhano medieval preservado até nossos dias pelos Sefaraditas. Mas foi escrevendo em alemão, o idioma no qual melhor se expressava, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1981, com o extraordinário romance “Die Blendung” (“Auto da Fé”), publicado há exatamente 90 anos, em 1935, numa efervescente Viena às vésperas do anschluss, ou seja, da anexação à Alemanha nazista de Adolf Hitler (1889 – 1945) – que ocorreria em 1937.

O personagem central da obra, o jovem tímido Kaen, judeu como Canetti e o autor tcheco Franz Kafka (1883 – 1924), membros da elite iluminada da Mitteleuropa, passou quase toda a vida encastelado em sua esplêndida biblioteca vienense até casar-se com a própria empregada e conhecer, de verdade, o mundo para além dos livros. A anexação da Áustria à Berlim levaria Canetti para Londres e, com o recrudescimento da perseguição aos judeus, na Segunda Guerra (1940 – 1945), terminou por refugiar-se na neutra Suíça.

O sobrenome original da família era Cañete – natural da Província de Cuenca, ao centro da Espanha, em Castilla La Nueva, próxima à ex-capital Toledo e à capital Madrid, na árida La Mancha, do célebre Cavaleiro Dom Quixote, protagonista da obra de Miguel de Cervantes (1547 – 1616). Da mesma região de Canetti é o principal filósofo medieval espanhol, Isaac Abravanel (1437 – 1508), igualmente, Sefaradita, provavelmente, antepassado do apresentador da televisão brasileira, Silvio Santos, pseudônimo artístico de Senor Abravanel – cuja família deixou a Península Ibérica, como os Cañete, encontrando refúgio no Mediterrâneo Oriental, na então cidade turca de Salônica, reintegrada à Grécia desde o término da Grande Guerra (1914 – 1919).

Canetti é ainda hoje bastante lido na Europa do Norte, inclusive por ingleses e povos germânicos, mas pouco difundido, não somente no Brasil, também em Portugal – ao contrário de Kafka. E, no entanto, Canetti, bem como Abraão Abravanel, deveriam ser mais conhecidos por todos nós – e não apenas por Sefaraditas e Azkenazitas.   

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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