O GENOCÍDIO EM GAZA E UMA ENTREVISTA QUE ME ASSOMBRA HÁ SEMANAS

CHARGE DE AROEIRA ” BLOG BRASIL 247″

O jornalista palestino Ramzy Baroud perdeu 56 familiares na guerra. E então parou de contar

Como jornalistas, às vezes ouvimos histórias que ficam pra sempre com a gente. Grudam no fundo do nosso cérebro.

A sensação de impotência diante da injustiça, sobretudo quando é injustiça fabricada, compulsória, cheia de cúmplices, é avassaladora.

E a entrevista que fiz com o jornalista palestino Ramzy Baroud para o podcast Pauta Pública (que você pode ouvir aqui) me assombra há semanas.

Fico repassando as imagens de horror que ele descreve e as análises precisas que faz, pensando que não estamos falando de atrocidades do passado mas do presente, que se desenrolam enquanto eu escrevo essa coluna. Enquanto você lê essa coluna. Corpos de civis, mulheres e crianças e até de animais que são executados por puro sadismo, estão caindo nesse momento.

(Foto: Reuters/Mahmoud Issa)

Ramzy, um historiador, escritor e colunista com textos publicados pelo mundo todo, de repente se viu misturado às histórias que reportava sobre Gaza.

Na contagem de mortos desde o avanço de Israel sobre a faixa em outubro de 2023, passou a incluir a de seus familiares próximos. Tios, primos, cunhado, irmã. Chegou a 56. E então parou de contar.

“Sou descendente de refugiados palestinos. Eu mesmo sou um refugiado e dei esse status aos meus filhos. Mas viver em um processo ativo de extermínio real, de acordo com a definição legal de genocídio, é algo que está além de qualquer coisa que eu poderia esperar” me disse logo no início de nossa conversa.

Dos horrores relatados pelo jornalista, a história de sua irmã é a que mais me assombra.

“Minha irmã era um exemplo do empoderamento das mulheres em Gaza. Ela era uma líder comunitária. Educava e mobilizava a comunidade, tentava arrecadar dinheiro para certos hospitais”, lembra Ramzy.

Ele diz que quando a guerra começou, o trabalho da irmã médica se intensificou, ao mesmo tempo em que como mãe ela tentava salvar os filhos, que agora estão espalhados por vários campos de refugiados em Gaza.

O marido era chefe do departamento de Direito da Universidade de Al-Azhar, alguém respeitado em seu campo, e que tinha dificuldades para andar. Algo em seu sistema nervoso.

Quando o exército israelense começou a atacar o sul de Gaza, onde vivia com os filhos, se recusou a fugir. Por insistência da família, resolveu tentar.

“Ele sai com os meninos e, em determinado momento, os drones ficaram muito próximos deles e ele começa a implorar para que os filhos fugissem. ‘Qual é a vantagem de todos nós sermos mortos ao mesmo tempo?’ perguntava para os filhos. E isso também criou um conflito para os meninos, porque eles tiveram que fugir. Não havia alternativa. E então ele é morto”.

Ramzy conta que o professor foi atingido na cabeça por uma bala israelense ou por um pequeno projétil lançado por um drone e morreu ali. E seus filhos se recusaram a deixar a área, mesmo sendo agora um palco de massacres e execuções, porque queriam recuperar o corpo do pai.

“Essa foi também a obsessão da minha irmã nos últimos meses de sua vida, tentando dar ao marido um enterro adequado, mas ela não conseguiu. Não conseguiu”, lamenta o jornalista.

Na última conversa que teve com a irmã ao telefone, ela disse à Ramzy que já tinha morrido. Que existia no corpo mas sua mente e seu espírito estavam em outro lugar.

A médica havia acabado de vivenciar o massacre de Nuseirat, quando o exército israelense atacou o campo de refugiados para salvar alguns de seus soldados com a ajuda dos americanos.

Eles conseguiram libertar quatro reféns, à custa de matar 271 palestinos e ferir outros 800.

“Naquela época, minha irmã estava cuidando de um dos filhos em Lusat e estava a caminho de Kunis para cuidar do outro. Ela dividiu a família para aumentar as chances de sobrevivência. Lembro-me da última ligação que tive com ela, porque ela passou pelo massacre e me disse que havia morrido naquele dia. Que ela só existia no corpo, mas sua mente e seu espírito estavam em outro lugar”.

A médica caminhou entre corpos mutilados nas ruas, centenas deles. Alguns, ainda vivos, imploravam por ajuda.

“Como faço para juntar corpos mutilados quando não há recursos, nem médicos, nada? Eu simplesmente congelei. Tentei confortar, dar as mãos, mas as pessoas continuavam morrendo em minhas mãos’. E ela disse “eu morri naquele dia”.

A irmã de Ramzy vai então até sua casa destruída, encontra duas paredes de pé no porão, coloca uma cadeira e um cobertor em cima para dormir e passa algumas noites lá, enquanto trabalha em um hospital.

“Em uma dessas vezes, quando ela estava dirigindo para casa, um drone israelense veio atrás dela e a matou. Foi claramente um ato de assassinato porque, naquela época, eles estavam tentando eliminar o número de médicos palestinos que trabalhavam em áreas que Israel queria destruir”.

E então, mais uma vez, o jornalista e historiador Ramzy Baroud acordou de manhã e teve de reportar a morte de sua própria irmã em detalhes.

A entrevista com Ramzy Baroud na íntegra pode ser ouvida no feed do Pauta Pública nas principais plataformas de áudio e no site da Agência Publica.

ANDREA DIP ” BLOG ICL NOTÍCIAS ” ( BRASIL)

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