
CHARGE DE ZÉ DASSILVA
As últimas pesquisas publicadas, todas negativas para o governo e positivas para o Presidente-candidato, revelam uma contradição
A recente pesquisa Quest traz um índice de reprovação do governo de 56% dos eleitores, aprovação de 41%%, em linha descendente, e, chocantemente para o Presidente Lula e seus admiradores, a indicação de que 62% dos brasileiros não o querem novamente como candidato à presidência da República.
Se a avaliação do governo incluir um escape para o regular, isto é, se entre Positivo, Negativo e Regular, o quadro piora. Dos entrevistados, 41% optaram pelo Negativo e 27 pelo Positivo, passando a distância entre os polos de 15 pontos percentuais (Reprovação x Aprovação) para 24 pontos (Negativo x Positivo). No Regular se escondem 29%.
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Mas, uma média de 45% da amostra consultada, quando se indaga sobre a disputa eleitoral de 2026, responde que votaria preferencialmente em Lula contra todo e qualquer dos seus potenciais adversários, inclusive Jair Bolsonaro.
Nada ė definitivo, mas para quem tem a aprovação do seu governo por apenas 41% do eleitorado (ou 27%, a depender das opções) e uma contraindicação de 62%, aparecer com 45% de apoio à reeleição não deixa de ser surpreendente.
Essa surpresa se faz mais acentuada, de certo modo, um alívio para os apoiadores do governo rejeitado, quando se observam os números. Lula venceria Bolsonaro, por 44% contra 40%; Michelle Bolsonaro, pelos mesmos 44%, porém contra 38%; Tarcísio de Freitas, por 43% a 37%; Eduardo Bolsonaro, por 45% a 34%; Pablo Marçal, por 44% contra 35%; Ratinho Jr, por 42% a 35%; Zema, 43% a 31%; e Ronaldo Caiado, por 44% a 30%.
São bons números para quem sofre tanta restrição e reticências, ainda que sejam números menos confortáveis que aqueles de dezembro de 2024, quando Lula aparecia com 15 pontos percentuais de vantagem sobre Bolsonaro (51% x 35%).
As últimas pesquisas publicadas, todas negativas para o governo e positivas para o Presidente-candidato, revelam essa contradição, dimensão dialética onde geralmente se encontra a verdade.
O Brasil politizado
Um fenômeno que tem sido referido por alguns analistas da política brasileira é o que se tem classificado como grande politização da sociedade.
Ontem, perguntei ao estofador e empalhador, que recupera cadeiras, inclusive cadeiras de palhinha, na esquina da minha rua, qual o preço da restauração do acento de uma cadeira. Ele me informou o preço e, sem me dar tempo de qualquer ponderação, emendou uma crítica ao governo, a quem responsabilizou pela inflação que alcançou tudo na vida, do ovo à palhinha. Ele não ficou aí, avançou na crítica, agora ao STF, reproduzindo um combo conhecido e frequente no discurso da extrema-direita brasileira. A conversa tomaria um rumo diferente de uma simples negociação, se eu não estivesse atrasado para meu compromisso.
Podemos dizer que se trata de uma politização canhestra, porque o estofo da discussão, sem trocadilho, do nosso estofador pode não ser tão abalizado. Mas não há como negar que a “saída do armário” de um espectro ideológico, discreto e silencioso, no passado, trouxe para as ruas um ativismo antes amortecido pelos meios de comunicação e nos espaços de debate domésticos e domesticados.
É nesse contexto que as pesquisas de opinião eleitorais têm se realizado. Claro, não só está presente no contexto esse elemento, que tem sido chamado de polarização, por alguns, ou politização, por outros. Inflação, insegurança pública, altas taxa de juros, empregos precários, salários baixos, fila do SUS e outros problemas afligem os brasileiros e também estão no contexto.
Uma oportunidade de fala
É nesse sentido que aqui faço a especulação de que as pesquisas de opinião eleitorais, ora realizadas no Brasil, estejam se oferecendo, à parte dos entrevistados, como uma oportunidade de fala. Uma interpelação do entrevistado ao governo.
Ė verdade; tudo a que se responde é uma oportunidade fala. Mas as respostas que essas pesquisas trazem, na sutileza de suas contradições, parecem mais estratégicas do que o habitual.
Parecem uma espécie de meio de comunicação pelo qual parte da população está dizendo ao governo que está insatisfeita, que ele precisa tomar medidas mais concretas e efetivas para enfrentar esses problemas – mas isso dito com expectativa, não com hostilidade.
Dizemos parte da população, porque uma outra parte já vem dizendo isto, desde muito, com hostilidade ou já sem expectativas.
É dessa nova parcela de manifestantes que se trata, inclusive dos leais nordestinos, a parte que ora desequilibra a balança contra o governo.
Não entendemos que se trata desse ou daquele outro problema que domina a opinião pública, porque sabemos, como nos ensinou Bourdieu, que “A opinião pública não existe”. Existe a opinião construída pelos diversos canais dominantes, ainda que não se prescinda de alguma concretude para essa construção. Nesse momento, na pesquisa da Quest, destaca-se a insegurança pública. Mas os problemas existem e acossam as pessoas diferentemente; alguns mais genericamente, como a inflação, outros mais especificamente, como a fila do SUS.
Diante da insatisfação com os resultados, da persistência dos preços altos, dos salários baixos, da incerteza pela precariedade dos empregos, parte dos eleitores, provavelmente eleitores do próprio Lula, estão dizendo que esperam do governo resoluções. Mas ainda esperam.
A irritação e inconformismo dessa parcela vão ao ponto de dizer que não querem mais o presidente como candidato.
Mas quando esses eleitores se colocam diante do dilema de Lula ou outro nome que, de algum modo, representa o seu oposto – de Bolsonaro a Caiado, passando por Tarcísio de Freitas – a maioria relativa dos eleitores, mas sempre acima dos 40%, prefere reeleger o presidente.
Interlocutores ausentes
Cabe observar dois detalhes adicionais, lembrando sempre que o Diabo mora no detalhe.
A pesquisa eleitoral, ao assumir papel de interpelação, como um recurso de enviar recado, reafirma a dificuldade dos populares encontrarem os interlocutores devidos, a quem levar seus reclamos.
Foi nesse sentido que neste mesmo espaço dissemos, em artigo sob o título de Não basta, que trocar o ministro das Comunicações não bastaria. É preciso fazer política, como interlocução e como ação.
As recentes pesquisas, com suas contradições, são mais uma demonstração de como, nessa conjuntura baudreliana, longa e cheia de nuances, os políticos que apoiam o governo, seus assessores e aliados mais próximos, não podem, sob pena de grandes perdas, continuar, plantados nos gabinetes. Os militantes dos partidos progressistas, responsáveis por ou interessados no atual governo, precisam sair do recolhimento. Os sindicalistas, lideranças públicas e democratas com preocupações sociais, os defensores dos direitos humanos, que emprestaram seu prestígio, na resistência representada por Lula, devemos ultrapassar nossos escritórios, salas e espaços dominados, nossos “lugares de fala”. Ė preciso ir em direção a essa grande parcela popular que não encontra interlocutores para falar de política, senão nas campanhas eleitorais, por contados 3 meses. E agora, temerariamente, respondendo aos institutos de pesquisa de opinião eleitoral.
Segundo detalhe: o aumento dos números adversos, de reprovação, de rejeição, etc, que se espelha a cada pesquisa anunciada pode ir se sedimentando, tomando um caminho sem volta.
A leitura do filme que se desenrola, do final de 2024 para hoje, assusta e deve assustar.
Compare-se a vantagem de Lula na pesquisa Quest de dezembro – 15 pontos percentuais sobre Bolsonaro, há apenas 3 meses – com essas mais recentes e percebe-se bem que, sendo verdade minha suposição, a interpelação está cada vez mais forte e perigosa.
Vale lembrar que interpelação, nos dicionários disponíveis, significa “o ato em que o credor demanda o devedor para que realize a obrigação a que está vinculado”. As promessas de “revogaço”, associadas às perdas da reforma da previdência, da reforma trabalhista e de outros direitos, não foram, atė agora, cumpridas ou pelo menos pautadas. Mas as concessões ao chamado mercado, a título de equilíbrio fiscal, representaram novas perdas nas políticas sociais e na remuneração do trabalho.
Essas quebras e a timidez em enfrentar os altos preços do mercado estão nesse débito do governo, ainda não honrado.
Não seria estranho nem inusitado que o adensamento de um sentimento popular de frustração, estimulado por acontecimentos, palavras e obras, vindos de variados lugares, se transforme em tendência irreversível.
Antes disso, pode ser que a política enquanto interlocução e ação voltem a ser praticada por todo um campo, não só o governo, que ora se encontra interpelado.
CLÁUDIO GURGEL ” JORNAL GGN” ( BRASIL)
Claudio Gurgel é economista, cientista político e Professor Titular da Universidade Federal Fluminense, UFF.