EM TEMPOS DE GUERRA UM ALEMÃO VISITA A CASA BRANCA

A sofisticada política externa europeia acha errado que o Irã se defenda

Dias depois do ataque ao Irã o chanceler alemão visitou Trump na Casa Branca. A visita não teve outra finalidade senão mostrar de que lado estava o governo alemão — ao lado dos agressores, contra os agredidos. Ao lado da força bruta, contra o direito internacional. Como em muitos outros países europeus o cinismo político foi levado a um ponto em que todos acabaram (com a nobre exceção do primeiro-ministro espanhol) não a condenar a ação militar americana, mas a resposta iraniana. A sofisticada política externa europeia acha errado que o Irã se defenda.

A critica ao cinismo moral ocidental diz respeito, exatamente, a este duplo critério:  a lei internacional aplica-se aos fracos, aos fortes é legitimo usar a força para a defesa dos seus interesses. Nas instituições europeias é uma tristeza —  não se ouve nada mais do que a irritante subserviência dos altos funcionários. Foi a isto que a Europa chegou: os funcionários dão tudo ao aparelho, na esperança que o aparelho lhes dê tudo — porque sem o aparelho não valem nada.

Mas voltemos à Casa Branca e à visita do chanceler. No fundo o líder alemão faz apenas aquilo o que a Europa tem feito desde o início deste segundo mandato — bajula a liderança “predatória” do presidente americano (o termo é de Stephen Walt). Estes são os tristes anos do grotesco servilismo europeu. Repararam no que disse o secretário-geral da Otan, Mark Rutte?  Esse talvez político diz que o presidente americano “merece todos os elogios” pelos esforços de paz no Médio Oriente e chama-lhe, carinhosamente, “Paizinho”. Gianni Infantino, esse magnifico presidente da FIFA, criou um prémio que entregou a Trump chamado “FIFA Peace Prize”. A Europa perdeu o juízo. E, talvez pior — perdeu o sentido do ridículo.

Mas a coisa vai mais longe – o chanceler alemão esteve naquela sala oval ouvindo em silêncio os insultos que o presidente americano se permitia fazer ao primeiro-ministro espanhol. Disse ele: “A Alemanha tem sido fantástica, mas a Espanha tem sido terrível. Não nos permitiram usar as suas bases, podíamos usá-las se quiséssemos, mas não quisemos. E, já agora, a Espanha não tem uma grande liderança — vamos cortar todos os negócios que temos com Espanha”. O que impressiona nesta fala não é a falta de educação para com o político espanhol, mas a covardia do político alemão. Em muitos anos de política europeia é a primeira vez que vejo uma coisa destas: um responsável europeu, um primeiro-ministro europeu, assistir calado ao desrespeito para com uma nação europeia e para com um colega que se senta ao seu lado no Conselho Europeu. Se a Alemanha pretende liderar a Europa, a Europa ficou a saber com o que conta.

Finalmente, porque a economia do texto não dá para mais. Chamo a atenção para o facto do chamado rearmamento europeu, que tanto tenho criticado nesta coluna, representar no fundo, no fundo, um apelo ao rearmamento alemão — esse será o único resultado com relevância estratégica: o rearmamento alemão. Em 2025 a Alemanha gastará em defesa mais que qualquer outro país europeu em termos absolutos; o seu orçamento militar é já hoje o quarto no mundo e em 2029 será de 189 biliões de dólares, mais do triplo do que era em 2022. Julgo não me enganar muito se dizer que logo, logo, começaremos a ver a França a espreitar por cima do ombro e regressarão as vozes assustadas do tempo da guerra fria que lembrarão os medos de François Mitterrand que, dizem, gostava de citar François Mauriac a propósito da reunificação alemã: “Amo tanto a Alemanha que prefiro que existam duas”.  Eis o que me ocorre dizer ao ver um alemão de visita à Casa Branca, em tempos de guerra.

JOSÉ SOCRATES ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( BRASIL)

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