
O extraordinário filme “Ainda Estou Aqui”, do carioca Walter Moreira Salles Júnior, trouxe de volta ao cenário nacional, passado meio século, os ‘anos de chumbo’ do regime iniciado em 1964, que se prolongaria até 1984, período marcado por sobressaltos e radicalizações. O cineasta, nascido em 1956, é filho do banqueiro e diplomata Walter Moreira Salles (1912 – 2001), natural da mineira Pouso Alegre, que se notabilizou, entre 1950 e 1954, como Embaixador do Brasil, em Washington, durante o último mandato do gaúcho Getúlio Vargas (1882 – 1954), e, de 1962 a 1964, foi Ministro da Fazenda do Presidente João Goulart (1919 – 1976) – deposto há 51 anos justamente pelo golpe militar. Waltinho Moreira Salles, como o realizador é conhecido, cresceu numa família liberal e progressista, e sofreu, tal qual tantos brasileiros, com o obscurantismo que tomou conta do País sob o governo autoritário.
O longa-metragem é, principalmente, um valioso resgate histórico. Tão importante, neste momento, quanto recordar, 10 anos após seu falecimento, um dos mais argutos intelectuais da esquerda brasileira daqueles tempos, o baiano Armênio Guedes (1918 – 2015), membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que, contestando os ventos soprados de Cuba, ousou questionar a luta armada e pregou a resistência não violenta. Homem tímido e de gestos contidos, sem alterar o tom de voz suave, defendeu a democracia como um valor universal – contrariando grande parte dos líderes do Partidão que, mesmo criticando o caminho das armas, ao qual a União Soviética se opunha, não desaprovavam totalmente um eventual confronto bélico.
Guedes desafiou, assim, o próprio chefe do PCB, o gaúcho Luís Carlos Prestes (1898 – 1990) , de quem, aliás, havia sido secretário na década de 1940. Prestes obedecia às ordens de Moscou, que mantinha relações com Brasília, porém, nunca renegou completamente a estratégia de ação militarizada contra a ditadura. Quatro dirigentes baianos do Partidão, contemporâneos de Guedes, romperiam, entretanto, com Prestes e se incorporariam à guerrilha. O mais famoso foi Carlos Marighella – criador da ALN (Aliança Libertadora Nacional) – executado, aos 58 anos, em uma emboscada no bairro paulistano dos Jardins, na noite de 4 de novembro de 1969, preparada pelo delegado Sergio Paranhos Fleury (1933 – 1979).
Outro que mergulhou de cabeça na luta armada foi Mauricio Grabois (1912 – 1973). Jamais abandonou o stalinismo e foi um dos fundadores, em 1960, do Partido Comunista do Brasil (PC do B). De família russa judaica, originária da Bessarábia, atual Moldávia, morreria na selva amazônica, na Guerrilha do Araguaia. O terceiro foi Mário Alves (1923 – 1970), um dos instituidores do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), morto nas dependências do quartel da Polícia do Exército, à Rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, como Rubens Paiva, personagem de “Ainda Estou Aqui”. O quarto foi o historiador Jacob Gorender (1913 – 2013), de pais judeus, igualmente, da Bessarábia, como Grabois, que acompanhou Alves, engajando-se no PCBR.
Jornalista, na essência, Guedes, criou a “Voz Operária”, órgão oficial do Partidão, e foi, acima de tudo, um visionário – como definido por dois de seus mais brilhantes colegas – os jornalistas Mario de Almeida e Elio Gaspari. Tive o privilégio de compartilhar, por duas ocasiões, a redação com Guedes, ambas em São Paulo, na revista semanal “Istoé” e no diário econômico “Gazeta Mercantil”. Ele sabia ouvir os interlocutores. Mas também sabia discordar. Guedes, como Rubens Paiva, ficarão aqui para sempre.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL )
Albino Castro é jornalista e historiador