O CREPÚSCULO DA PERÍCIA E A ASCENSÃO DO ESTADO POLICIAL

O que mais se compra na Polícia Federal?

Só por uma questão temporal, Fritz Lang não se inspirou na Polícia Federal brasileira para compor o clássico “Os Mil Olhos do Dr. Mabuse”. O que o Partido da Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) está montando com a Operação Master, mais conhecida como Lava Jato 2, seria de levantar os cabelos do espírito democrático do país – se não fosse tão Avis rara.

Peça 1 – os vazamentos da PF

Não adianta tentar atribuir o vazamento do inquérito à CPMI do INSS. Todos os vazamentos estão sendo feitos pela Polícia Federal, por via direta ou indireta.Play Video

O último foi a foto de Daniel Vorcaro sendo fichado.

De uma experiente testemunha da da vida pública brasileira:

“Quem vendeu as fotos de identificação de Vorcaro, peças legais essenciais prévias ao encarceramento dele à Imprensa? Sem quebra de dever funcional por alguém essas fotos não poderiam ter vazado. Isso significa que a Imprensa corrompeu alguém no Serviço Público e numa área tão sensível como a Polícia Federal… O que mais se compra por lá?”

Definitivamente, a PF se deixou corromper. Por dinheiro, interesse político, o que seja, deixou-se corromper. E em sociedade com um Ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça.

Nos primeiros dias da captura dos telefones de Vorcaro, a perícia da PF vazou as notas sobre o contrato da esposa de Alexandre de Moraes. Nos dias seguintes, as mensagens tentando comprometer o atual diretor de fiscalização do Banco Central.

Peça 2 – o caso Fábio Luiz

O caso de Fábio Luiz é o exemplo acadêmico do uso político da contabilidade. Ao divulgar movimentações brutas sem o filtro de uma perícia séria — que explicaria o mecanismo de aplicações e resgates automáticos do Banco do Brasil —, a PF cria um “escândalo de milhões” onde pode haver apenas um saldo modesto. É um trabalho intencionalmente precário, desenhado para o linchamento público, não para a verdade processual. O jogo político de um grupo restrito na CGRC joga no ralo a reputação de 10.000 peritos sérios.

A perícia poderia apurar o valor real que entrou na conta, já que “movimentação” registra movimento de entrada e saída de dinheiro, a origem dos recursos que entraram e se são compatíveis com a renda e os negócios de Fábio. Fez um trabalho intencionalmente porco, com propósitos políticos.

Um exemplo:

1. A conta remunerada do Banco do Brasil funciona com sistema de aplicação automática. Sempre que o saldo da conta fica positivo, no fim do dia o sistema transfere automaticamente para um fundo de investimento.

2. Quando o cliente saca o dinheiro, o sistema resgata automaticamente a aplicação e o valor volta para a conta corrente.

3. Imagine o mês iniciando com um depósito de R$ 1.000,00. Cada dia corresponde a uma movimentação de R$ 2.000 – R$ 1.000 de resgate; R$ 1.000 de aplicação.

4. Em 30 dias, a movimentação será de R$ 60 mil, mesmo que o saldo real continue próximo a R$ 1.000.

Pode ser isso, pode ser que não. A resposta viria de uma perícia séria da PF. Mas o grupo que assumiu a operação preferiu fazer o jogo político, comprometendo a imagem da corporação. 

Conclusão: um grupo de menos de dez peritos está jogando no ralo a reputação de mais de 10.000 peritos da corporação.

Peça 3: O Fantasma da Lava Jato

Os erros que anularam a Lava Jato renascem na Operação Master. No passado, foram os sistemas da Odebrecht sem cadeia de custódia; hoje, são extrações de dados em massa feitas de forma nebulosa. Naquela época, laudos de superfaturamento eram baseados em “estimativas”; hoje, diálogos são pinçados de celulares sem o contexto necessário, servindo apenas para validar as hipóteses acusatórias dos delegados.

Peça 4 – a perícia no caso Master

O primeiro sinal da articulação política dos peritos veio poucos dias após a apreensão dos aparelhos de Vorcaro, quando passaram a circular vazamentos para jornalistas que sempre atuaram como canal de transmissão da PF.

Quando Toffoli ordenou a mudança do corpo de peritos, imediatamente foi alvo de uma campanha inclemente, claramente municiada pelos levantamentos da Policia Federal nas operações sobre o mercado financeiro. Os grandes “furos” jornalísticos não passavam do mesmo padrão Lava Jato: publicação automática dos releases da PF.

Quando o Ministro Alexandre de Moraes questionou os laudos com os supostos diálogos com Daniel Vorcaro, no dia da sua prisão, a resposta de O Globo foi a de que o laudo era da perícia técnica da PF, como se fosse sinal de garantia.

Essa mesma perícia foi entregue aos deputados da CPI do INSS, com autorização expressa do Ministro André Mendonça. No meio, diálogos pessoais, que nada tinham a ver com o caso, e outros absurdos. O que impediria uma PF, com esse grau de abuso, de manipular informações, de incluir nomes de jornais críticos nas delações – como fizeram com o DCM. Ou de manipular as conversas de Vorcaro com autoridades, ou as conversas no celular? Qual o nível de confiabilidade das perícias?

Peça 5 – o sistema de indicação dos peritos

Na Polícia Federal, os responsáveis por análises técnicas em investigações são os peritos criminais federais, vinculados à Diretoria Técnico‑Científica da Polícia Federal e ao Instituto Nacional de Criminalística.

Embora o protagonismo dos delegados seja menos “popstar” que na era Curitiba, a centralização sob Daniel Mostardeiro Cola e a DICOR é mais profunda. O vazamento não é erro, é método. O país assiste, entre o silêncio de um Ministério Público apático e um STF sitiado por suas próprias vulnerabilidades, à restauração de um Estado Policial onde a perícia não serve à Justiça, mas ao poder. E com os mil olhos do Dr. Mabuse.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL )

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