
Já era perdidamente apaixonado por Lisboa quando, em 1977, conheci, finalmente, a invencível cidade do Porto, metrópole tripeira que dá nome ao querido Portugal, geograficamente marcada, como a capital alfacinha, pelas inúmeras ladeiras. Que surpresa extraordinária. Tinha sido enviado do Rio de Janeiro a Madri, como correspondente de “O Globo”, e, por várias vezes, fui à capital portuguesa, para realizar a cobertura dos golpes e contragolpes, bem como eleições antecipadas, que assinalaram os anos seguintes à Revolução dos Cravos – brotada na primaveril manhã de 25 de Abril de 1974.
Enamorei-me, à primeira vista, do Porto – como havia acontecido com Lisboa. Amei tanto, que voltei repetidamente às margens do Rio Douro, que a separa de Vila Nova de Gaia, onde se concentram as grandes produtoras do precioso vinho do Porto. Numa dessas viagens, já residindo em Roma, e trabalhando no mesmo jornal carioca, fui especialmente para assistir ao jogo que faria do Futebol Clube do Porto campeão português de 1977-78, na última rodada da competição, no velho Estádio das Antas, quando a equipa do artilheiro brasileiro Duda (1947 – 2021), alagoano de Maceió, goleou o Sporting de Braga por 4 a 0. Era um ensolarado domingo de 11 de junho de 1978. Fazia 10 anos que os tripeiros não conquistavam o título lusitano. Foi uma festa lindíssima e comemorei a vitória, acompanhando os adeptos dos dragões, das Antas até o alto da Avenida dos Aliados, antigo endereço da sede do clube.
Foi justamente durante esse giro, por quase todo o centro da cidade, que pensei, seriamente, em fazer o sonhado Caminho de Santiago de Compostela, partindo do Porto, distante apenas 240 quilômetros da capital da Região Autônoma da Galícia – de onde emigrou para o Brasil o meu amado e saudoso pai, Albino, “el viejo”, após a Segunda Guerra Mundial (1940 – 1945).
O itinerário é muito inferior ao original Caminho de Santiago de Compostela que, desde a Idade Média, tem início no centro de Paris, na Tour Saint Jacques, ou seja, Torre de Santiago, na Place de Saint Jacques, a quase 1.500 quilômetros da Praza do Obradoiro, no casco antiguo de Santiago de Compostela, na Província de La Coruña – uma das quatro que formam a Galícia espanhola, juntamente com Pontevedra, Orense e Lugo. O tempo foi passando e eu adiando o trajeto a pé até Santiago.
Lá estive em diversas ocasiões – chegando sempre de carro ou trem, duas das quais em anos Xacobeos, ou Santiagueños,em 1982 e em 2010. São os anos em que a data de Santiago, 25 de julho, cai em um domingo. Para celebrar, o principal acesso à catedral, a Porta Santa, fica aberta aos peregrinos. Acabei nunca concretizando o desejo de andar, dias a fio, do Porto a Santiago de Compostela. Mas, recentemente, em um passeio de fim de semana à cidade paulista de São Roque, polo vinícola, estive em Alma Galiza, uma fazenda de cepas de uvas de ótimos vinhos galegos – como o antológico Alvariño e o Ribeiro. Fui apresentado, então, à gaúcha Andrea Prestes, que tem como atividade levar grupos de brasileiros a percorrer o Caminho de Santiago – saindo do Porto e de outros pontos, inclusive do interior da França. A excursionista publicou numerosos livros sobre suas idas e idas a Santiago de Compostela, sendo um deles relatando, exclusivamente, o percurso a partir do Porto.
Presenteou-me com um exemplar, e, na dedicatória, recomendou que eu não desista jamais do projeto de alcançar a capital galega com as minhas próprias pernas – sem apelar para asas de aviões ou através de trens ou de carro. Como fiz incansáveis vezes. Desafio aceito.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL/ PORTUGAL)
Albino Castro é jornalista e historiador