GABRIEL PALMA E O PARADOXO DA ” LIÇÃO DE CASA”

Palma analisa por que as reformas neoliberais iniciadas nos anos 80 levaram o Ocidente a uma “armadilha” de baixo crescimento.

Segundo o mercado – e o presidente do Banco Central Gabriel Galípolo – um dos problemas centrais da economia brasileira é o crescimento dos salários, acima dos ganhos de produtividade.

Se esse é o problema, qual a solução? Restringir os aumentos salariais, os reajustes do salário mínimo, os reajustes da Previdência.

Esse tipo de diagnóstico simples – e de solução ideológica – são típicos do mercado. Batizados de “lição de casa”, lembram  um pouco o filme “Casablanca”: qualquer problema que apareça, prenda os suspeitos de sempre, salários e políticas sociais.

Vamos a diagnósticos mais sofisticados e menos suscetíveis ao discurso do mercado: um artigo do economista chileno Gabriel Palma, professor titular emérito na Faculdade de Economia da Universidade de Cambridge (Reino Unido), recém publicado.
Palma analisa por que as reformas neoliberais iniciadas nos anos 80 levaram o Ocidente a uma “armadilha” de baixo crescimento, contrastando esse cenário com o sucesso do Leste Asiático.

Aqui estão os pontos principais detalhados no texto:

A “Trilogia Tóxica” do Neoliberalismo

O autor argumenta que o modelo neoliberal criou um cenário de “destrutividade não criativa” caracterizado por três fatores interligados:

 * Alta desigualdade de mercado: O aumento da concentração de renda no topo da pirâmide.

 * Baixo investimento: Uma fraqueza crônica na formação de capital produtivo.

 * Estagnação da produtividade: Um retardamento no crescimento da produção por trabalhador.

O Papel dos Rentistas

Palma define o rentista como alguém que lucra pelo controle de ativos escassos (como terra, recursos naturais ou finanças) em vez de pela criação de valor.

 * Os interesses dos rentistas são frequentemente opostos aos de todas as outras classes sociais.

 * No Ocidente, as elites rentistas capturaram o Estado, garantindo direitos de propriedade absolutos sem obrigações de desempenho.

 * Isso resultou no que o autor chama de “vingança do rentista”, onde o capital financeiro e o extrativismo dominam a economia.

O Sucesso da Ásia vs. o Fracasso da América Latina

O artigo destaca uma divergência clara no desempenho regional:

 * Ásia Emergente (Corea, Taiwan, China): Sucesso devido à capacidade do Estado de “disciplinar” os rentistas, obrigando-os a investir em tecnologia e manufatura por meio de condicionalidades.

 * América Latina (Brasil, Chile, México): Fracasso por permanecer presa ao extrativismo de baixo valor agregado e à montagem industrial “fina”, perdendo ganhos de produtividade conquistados no passado.

 * Brasil: É citado como um caso extremo onde a produtividade média permaneceu estagnada por quase meio século, independentemente do ciclo político (de Lula a Bolsonaro).  A produtividade média no Brasil permanece praticamente estagnada por quase meio século (desde 1980).

 * Em contraste, durante o mesmo período (1980–2019), a Coreia do Sul aumentou sua produtividade manufatureira em cinco vezes.

Coreia do Sul x Brasil

Uma das comparações mais marcantes no artigo é entre a Coreia do Sul e o Brasil, que ilustra como diferentes ideologias e capacidades estatais de “disciplinar” as elites levaram a resultados opostos em termos de produtividade e desenvolvimento industrial.

Aqui estão os detalhes dessa análise:

1. Divergência na Produtividade

 * Enquanto a Coreia do Sul realizou um processo acelerado de “catching-up” (alcance) da fronteira de produtividade dos EUA, o Brasil (junto com o México) perdeu quase todos os ganhos de produtividade relativa que havia alcançado durante o período de industrialização por substituição de importações (ISI).

 * A produtividade média no Brasil permanece praticamente estagnada por quase meio século (desde 1980).

 * Em contraste, durante o mesmo período (1980–2019), a Coreia do Sul aumentou sua produtividade manufatureira em cinco vezes.

2. Gestão de Rendas e Condicionalidades

 * O Modelo Coreano: O sucesso da Coreia deveu-se à criação de rendas “fáceis de adquirir”, mas “difíceis de gastar”. O Estado fornecia subsídios e proteção aos conglomerados (Chaebols), mas impunha condicionalidades de desempenho rígidas, como metas de exportação e diversificação de produtos. Se não cumprissem, o Estado retirava o apoio ou nacionalizava a empresa.

 * O Cenário Brasileiro: No Brasil, as reformas neoliberais transferiram rendas da manufatura para o extrativismo e finanças, mas sem impor qualquer contrapartida produtiva. O resultado foi uma “desindustrialização prematura” e uma elite rentista que disciplina o Estado, em vez de ser disciplinada por ele.

3. A Assimetria “Investimento-Desigualdade”

 * No Brasil, o nível de investimento privado é extremamente baixo, representando apenas cerca de um quarto da parcela de renda apropriada pelos 10% mais ricos.

 * Essa assimetria é imune ao ciclo político brasileiro: permaneceu praticamente inalterada através de cinco períodos presidenciais, de Lula a Bolsonaro.

 * Na Coreia e em outros países da Ásia Emergente, o aumento da desigualdade (quando ocorre) vem acompanhado de um crescimento rápido do investimento produtivo, evitando essa armadilha rentista.

4. Complexidade Econômica vs. Rentismo

 * A Coreia evoluiu de produtos simples (como perucas e tênis nos anos 60) para semicondutores de ponta e biotecnologia.

 * O Brasil e o restante da América Latina ficaram presos em estratégias que já atingiram sua “data de validade”: extrativismo puro e plataformas de montagem para multinacionais.

 * Enquanto o topo 1% na Coreia se apropria de rendas baseadas no conhecimento e inovação, o 1% no Chile e Brasil lucra com recursos naturais e juros extorsivos (como taxas de cartão de crédito que chegaram a 490% ao ano no Brasil em 2012).

O “Catching-up” Inverso do Norte Global

Uma tese central de Palma é que países desenvolvidos, como os EUA e a Alemanha, estão em um processo de “convergência para baixo” com as características institucionais de países subdesenvolvidos altamente desiguais.

 * Nos EUA, a desigualdade de mercado é agora superior à de quase todos os países latino-americanos, exceto Brasil e Haiti.

 * A Alemanha viu sua desigualdade de mercado saltar para níveis latinos, mantendo a paz social apenas por meio de transferências governamentais massivas.

Propostas e Conclusão

Para sair desta armadilha, o autor defende uma perspectiva “Pós-Ricardiana”:

 * Redirecionamento de Rendas: O Estado deve usar “mãos visíveis” para forçar o investimento de rendas em estratégias socialmente desejáveis.

 * Royalties Diferenciados: Em países ricos em recursos, os impostos deveriam ser maiores para quem exporta matéria-prima bruta e menores para quem processa o recurso localmente.

 * O autor conclui que, sem disciplinar o comportamento dos rentistas, o crescimento sustentável não é uma opção para o Ocidente.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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