
Conquistou seu espaço na GloboNews, sem imposições, sem cutucões nas colegas, mas sendo Jornalista e usando bem as informações em tempo real
No passado, vivia no planeta Terra um híbrido de gente e máquina de escrever chamado de jornalista. Os arqueólogos até hoje tentam decifrar sua consistência, analisando os últimos exemplares, ainda não exterminados pelo asteroide digital que arrasou a terra, do mesmo modo que o asteróide que exterminou os dinossauros.

O jornalista vivia não apenas atrás de notícias, mas de interpretações, de explicações, ajudando a colocar um pouco de ordem no caos das informações. Mas sempre voando como pipas, controladas pelo carretel das redações e dos interesses da casa. E tendo momentos de gozo infinito, quando conseguia a informação definitiva, a explicação esclarecedora, o furo legítimo.
Alguns deles ousavam voos mais altos e, da imensidão do céu da informação, julgavam ter conseguido vôo próprio, porque fundado nos melhores princípios do jornalismo. Não poucos despencaram dos céus, tal e qual Ícaro, acreditando que podiam voar.Play Video
Essa instabilidade criou vários espécimes de jornalistas, antes de sua extinção. Havia os acomodados, que aceitavam as mudanças do vento. Havia muitos espertalhões, atuando como birutas de aeroporto, tentando adivinhar os rumos do vento para agradar o monitor. O fenômeno da rasteira era frequente, em nome da visibilidade junto ao público – e às chefias. Havia os jornalistas especializados em trabalho sujo, quando a empresa tinha que defender interesses de personagens indefensáveis.
Digo tudo isso para homenagear uma jornalista: Daniela Lima.
Briguenta, acho que sempre foi. Quando mediadora do Roda Viva, critiquei um programa com Glenn Greenwald, por ter se fixado demais no questionamento da Vaza Jato e menos na estratégia de divulgação do material, uma obra prima de cooptação da mídia. Fui bloqueado no X. Depois, fui desbloqueado.
Quando ela foi contratada pela CNN, passei a assistir a emissora, devido ao banho diário de notícias, graças a um time bom de comentaristas, mas graças, principalmente, à Daniela. Eu e a Eugênia a batizamos de “maritaca” – tal a rapidez com que engatava frases, ideias, sem perder a linha de raciocínio.
Quando foi contratada pela GloboNews, estava claro que seria uma das estrelas da casa. Em pouco tempo, conquistou seu espaço maritacando, sem imposições, sem cutucões nas colegas, sendo Jornalista e valendo-se de forma esplêndida das informações em tempo real, vindas do WhatsApp.
De repente, a maritaca parou de sorrir. A moça tem o semblante explícito como o vidro de um espelho. Percebi uma sombra nas suas faces e até dei um toque para um amigo, diretor de um canal concorrente, que algo estava ocorrendo com Daniela Lima.
Pouco depois, foi demitida, com a emissora valendo-se dos mesmos não-argumentos que experimentei algumas vezes, quando colidi com a linha da casa. Diziam de uma pesquisa, que a apontou como muito esquerdista, ou muito radical, ou muito sorridente, sei lá, o argumento é apenas a desculpa.
E, aí, nos desvãos das redes sociais, li que um grupo de colegas da GloboNews foi até sua casa, hipotecar solidariedade e apoio. Nas apresentações dela, especialmente na CNN, dava para vislumbrar um tipo minoritário de homo jornalista: o talentoso bom caráter. A maneira como reconhecia trabalhos de colegas, levantava a bola de técnicos, de pesquisadores, parecia mais do que um mero jogo de cena.
Depois de uma fase de insegurança, foi contratada pela UOL e por uma rede de rádios, a TMC, antiga Transamérica. Recuperou o brilho instantaneamente. Tornou-se uma das campeãs do Instagram. Em poucos meses conferiu um status jornalístico inédito para a emissora.
Dia desses, foi atacada por Glenn Greenwald, um jornalista que, sem a bússola de dossiês, transformou-se em uma biruta de aeroporto. Saí em sua defesa.

Aí, recebo, de uma das jornalistas mais destacadas da atual geração, essa mensagem:
- Querido, obrigada por isso! Dani é uma baita jornalista. Mas não só: é muito bom caráter. Obrigada!
Apenas confirma um caso em que a imagem pública consegue refletir a imagem privada, fenômeno que só ocorre com pessoas de caráter ilibado.
LUIS NASSIF “JORNAL GGN” ( BRASIL)