
O Centrão não apenas está ficando fora da cobertura, até agora, como conseguiu que a cobertura atendesse diretamente seus interesses.
Não é segredo a maneira como a imprensa mainstream trata o Centrão. É visto com desprezo. Suas manobras, com as emendas secretas, são sistematicamente denunciadas. E existem todos os sinais de ligação direta do Centrão com Daniel Vorcaro e o escândalo Master.

Mas, milagrosamente, o Centrão não apenas está ficando fora da cobertura, até agora, como conseguiu que a cobertura atendesse diretamente seus interesses.
Tudo isso graças a um dos fenômenos mais deletérios da cobertura jornalística: o chamado efeito boiada, que ocorre em coberturas complexas.Play Video
Em temas complexos, não há um planejamento de cobertura, uma inteligência central juntando as peças, definindo as pautas e filtrando as notícias. Cria-se, então, uma enorme barafunda, um efeito boiada no qual o rebanho é conduzido pelos chamados bois-guias, aqueles repórteres ligados a um dos grupos de interesse envolvidos alimentados por algumas informarções exclusivas, que, através de vazamentos selecionados, conduzem a boiada.
Basta instruir o boi guia a ir na direção pretendida, que a boiada vai atrás.
Vamos entender melhor o jogo.
Peça 1 – a CPI dos Precatórios
No final dos anos 90, a CPI dos Precatórios envolveu Congresso e mídia por várias semanas.
Um determinado jornalista da Folha atuava como boi-guia, conduzindo a boiada para jogar a responsabilidade do golpe nas costas de um pequeno banco do Rio de Janeiro, o Vetor. O golpe tinha começado na prefeitura de São Paulo, do prefeito Paulo Maluf. Consistia em levantar (ou inventar) dívidas pré-Constituinte. Depois, conseguir a aprovação do Senado para transformá-las em precatórios, que seriam negociados no mercado.
O esquema começou na Prefeitura de São Paulo. Depois se estendeu a prefeituras vizinhas e para estados dos mais variados. Ora, nasceu com Maluf, passava pela aprovação de um senador ligado a Maluf – Gilberto Miranda. Ou seja, todos os indícios de que o centro do golpe era Maluf. Mas o boi guia – um colunista da Folha – conseguiu direcionar a boiada para cima de um pequeno banco carioca, o Vetor. Não tinha lógica.
Tratei, então, de “cevar” o banqueiro, tratando o tema com discernimento: mostrando onde as acusações eram furadas, onde eram corretas. Ele admitiu ser um intermediário de Maluf, mas não o chefe do esquema. Acabou confessando para o senador Roberto Requião, um dos membros da CPI.
Terminada a cobertura, Otávio Frias Filho me pediu indicações de como o jornal deveria atuar em futuras coberturas.
Disse-lhe que o melhor caminho era a criação de uma sala de situação. Jamais aconteceu.
Peça 2 – o caso Master
Fenômeno semelhante ocorre na cobertura do Banco Master. É uma cobertura destrambelhada, na qual a boiada corre atrás dos temas levantados pelo boi guia.
Vamos entender a lógica dos políticos do Centrão. Para eles, interessava levar a boiada em direção a dois ângulos específicos da cobertura.
Expediente 1 – tirar o inquérito do Supremo Tribunal Federal e passar para a 1ª Instância. Como há pessoas com direito a foro especial – os políticos envolvidos com o Master – abriria a possibilidade de uma anulação completa do inquérito.
Expediente 2 – tirar a responsabilidade dos conselheiros e diretoria do BRB e jogar em cima do diretor de fiscalização do Banco Central.
Analise, agora, a cobertura do caso, através do trabalho da jornalista mais empenhada em trazer furos.
1. Concentrou-se em ataques aos dois Ministros do STF, com a intenção objetiva de tirar o inquérito das mãos do STF. Em nenhum momento apareceu um editor, um diretor de redação, para apontar para esse paradoxo: se tirar das mãos do STF, o inquérito será anulado. Não houve um coordenador para ordenar uma análise isenta sobre o comportamento do Ministro Dias Toffolli no inquérito. E sobre os riscos de jogar o inquérito para a 1ª Instância. Levantou-se o passado de Toffoli e recorreu-se ao chamado jornalismo de intrigas: notas abusando do termo “mal estar” de policiais federais em relação a medidas de Toffoli.
2. Todas as colunas do boi guia sobre o BRB limitaram-se a vender a versão de que o banco foi pressionado pelo diretor de fiscalização do Banco Central. Crucificou-se a reputação de um funcionário de carreira do banco, sem o menor cuidado, como se reputação fosse algo inexpressivo, para poupar as raposas feitas que compunham o BRB. Analisem se o boi guia publicou um artigo sequer mencionando os políticos do Centrão.
Peça 3 – o descrédito da mídia
A maior parte dos leitores se fia nas manchetes, no lide das matérias, nas suspeitas jogadas aqui e acolá. Ora, bolas, o que diferencia a imprensa que se pretende séria do jornalismo marrom e das chuvas de granizo das redes sociais, é o discernimento, a capacidade de contextualizar os fatos, juntar as pontas.
Esse tipo de jogada afeta o exercício do jornalismo, a missão do jornalismo, atinge a todos. Equipara o jornalismo aos influenciadores. E a responsabilidade não é do boi guia, mas dos chefes do rebanho, que permitiram esse grau de promiscuidade, em troca de algumas manchetes.
E aí a versão pega e a desinformação chega à primeira página do Estadão.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)