A EXTREMA DIREITA COMO FENÔMENO DO CAPITALISMO TARDIO

O avanço da extrema direita reflete as contradições do capitalismo tardio, entenda como e por que

Numa década marcada por inflação alta em diferentes países, insegurança no trabalho, crises migratórias e guerras, a extrema direita deixou de ser uma ideia e voltou a disputar o centro do palco.

O avanço dos movimentos ultraconservadores ao redor do planeta não acontece por acaso, ele reflete problemas profundos do sistema econômico em que vivemos. Quando sociedades atravessam turbulências financeiras prolongadas e a promessa de que “amanhã será melhor” desaparece, forças políticas reacionárias encontram terreno fértil.

É nesses momentos que discursos de exclusão, nacionalismo exagerado e a defesa de líderes autoritários ganham força.

Aqui vamos entender por que o crescimento da extrema direita dialoga com um momento histórico frequentemente descrito como capitalismo tardio, como surgem os projetos autoritários e como a extrema direita alimenta o ressurgimento de ideologias autoritárias em pleno século XX.

O que é extrema direita?

A extrema direita é um guarda-chuva que reúne correntes e movimentos à direita do conservadorismo tradicional, geralmente associados ao nacionalismo radical e ao autoritarismo. Em diferentes contextos, a extrema direita pode assumir feições populistas, reacionárias, ultraconservadoras, nativistas e, em alguns casos, abertamente supremacistas.

Na Europa, exemplos incluem a AfD (Alternativa para a Alemanha), o Reunião Nacional, de Marine Le Pen, na França, e o Fratelli d’Italia, de Giorgia Meloni — eleita primeira-ministra em 2022. Nos Estados Unidos, destacam-se grupos como Proud Boys e Oath Keepers, que participaram dos ataques ao Capitólio em janeiro de 2021, após a derrota de Donald Trump nas eleições realizadas no ano anterior.

Na América Latina, o Brasil viu o ressurgimento de grupos bolsonaristas radicais responsáveis pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, enquanto na Ásia, organizações como o RSS na Índia promovem nacionalismo hindu radical.

Esses movimentos compartilham características comuns: o culto à figura de líderes carismáticos, discursos conspiratórios contra “elites globalistas” e a mobilização do medo em relação a minorias e imigrantes, por exemplo.

Historicamente, a extrema direita floresceu em momentos de crise aguda do capitalismo, quando a desintegração social criou demanda por soluções autoritárias que prometiam restaurar ordem e a identidade nacional. O contexto atual não é exceção a esse padrão.

Na foto, Alice Weidel, escolhida pelo partido de extrema direita alemão, AfD, para concorrer ao cargo de chanceler em 2025. Foto: EFE 
Na foto, Alice Weidel, escolhida pelo partido de extrema direita alemão, AfD, para concorrer ao cargo de chanceler em 2025. Foto: EFE

O método político da extrema direita:

Mais do que um conjunto fixo de ideias, a extrema direita costuma operar por métodos reconhecíveis:

  • Polarização moral (o adversário como ameaça existencial)
  • Suspeita sistemática contra imprensa, justiça e universidades
  • Culto à liderança e desprezo por mediações institucionais
  • Punitivismo e apelos a soluções rápidas (inclusive fora das regras)

Essa lógica ajuda a entender por que a extrema direita pode crescer mesmo em sociedades com eleições regulares: ela não precisa derrubar a democracia de uma vez, mas sim corroê-la aos poucos.

Saiba mais em: Como as democracias morrem: o jogo de poder por trás da vontade popular

O conceito de capitalismo tardio e a relação com a extrema direita

O conceito de “capitalismo tardio”, muito difundido por pensadores da Escola de Frankfurt, descreve uma fase em que o sistema econômico enfrenta problemas profundos que não consegue mais resolver.

Diferente do que acontecia antes com crises seguidas de recuperação econômica, agora estamos em uma situação de estagnação crônica, onde a riqueza se concentra cada vez mais nas mãos de poucos.

Nessa etapa, a economia passa a girar cada vez mais em torno do mercado financeiro, os empregos se tornam mais precários e instáveis, e os recursos naturais se esgotam rapidamente. É assim que as crises deixam de ser acontecimentos raros e viram rotina, juntamente com recessões frequentes, desemprego, endividamento generalizado e deterioração dos serviços públicos.

Famílias veem seu poder de compra diminuir mês a mês, lutando para manter o padrão de vida. Comunidades inteiras experimentam a desintegração de modos de vida estabelecidos, com fábricas fechando, comércios falindo e laços sociais se desfazendo.

Essa realidade cria espaços vazios na política e a extrema direita se apressa em ocupá-los com suas promessas e seus bodes expiatórios.

No capitalismo tardio, as crises deixam de ser exceções e viram rotina, criando um terreno fértil onde a extrema direita oferece bodes expiatórios para problemas estruturais. Foto: HikingArtist 
No capitalismo tardio, as crises deixam de ser exceções e viram rotina, criando um terreno fértil onde a extrema direita oferece bodes expiatórios para problemas estruturais. Foto: HikingArtist

A relação entre a extrema direita e crises econômicas

A conexão entre crise econômica e extrema direita não é automática, mas é historicamente recorrente. Crises são momentos em que o medo social vira combustível político: desemprego em alta, inflação corroendo salários, perda de renda e instabilidade generalizada aumentam a demanda por certezas — e a extrema direita se especializa em transformar problemas estruturais complexos em culpados simples e visíveis.

No Brasil, a turbulência econômica recente ilustra bem como a insegurança material alimenta o debate político.

É nesse terreno de ansiedade que a ascensão da extrema direita lança raízes profundas. Não porque a inflação ou o desemprego “produzam” automaticamente autoritarismo, mas porque crises dessa magnitude organizam emoções coletivas: medo do futuro, raiva da situação presente e sensação de abandono pelas instituições.

A política institucional deixa de ser percebida como caminho para soluções e passa a ser vista como parte do problema. O debate público se torna mais punitivo, menos reflexivo. É dessa forma que a extrema direita se apresenta com um retrato claro: uma promessa simples, de ordem imediata, para dores complexas.

Em vez de explicar os mecanismos estruturais da crise, ela aponta dedos: culpa os políticos tradicionais, os imigrantes, as minorias que supostamente “recebem privilégios”, ou conspirações globais abstratas.

No capitalismo tardio, as crises deixam de ser exceções e viram rotina, criando um terreno fértil onde a extrema direita oferece bodes expiatórios para problemas estruturais. Ilustração: Caio Gomez 
No capitalismo tardio, as crises deixam de ser exceções e viram rotina, criando um terreno fértil onde a extrema direita oferece bodes expiatórios para problemas estruturais. Ilustração: Caio Gomez

Neoliberalismo, extrema direita e autoritarismo

Neoliberalismo” não é apenas uma política econômica; é também uma cultura de governo em que o Estado é pressionado a funcionar como empresa: cortar gastos, “otimizar” serviços, reduzir proteção social e tratar direitos como custos.

No Brasil, medidas e reformas que reorganizam o papel do Estado (como regras fiscais e mudanças na legislação trabalhista) se tornaram marcos de disputa política.

Quando o Estado deixa de garantir bem-estar e segurança, as pessoas naturalmente procuram outras formas de pertencer e se proteger. É aí que a extrema direita entra, oferecendo algo aparentemente sólido: uma identidade nacional forte, um senso de comunidade (mesmo que excludente) e a promessa de voltar a uma ordem “natural” das coisas.

O que a social-democracia e o Estado de bem-estar deixaram de oferecer acaba sendo preenchido por uma solidariedade ao avesso — uma que funciona justamente excluindo o “outro”, seja ele quem for.

O mais curioso é que muitos desses movimentos de extrema direita hoje falam contra as elites, se apresentam como defensores do povo, mas na prática defendem políticas econômicas ultraliberais. Prometem proteger o trabalhador nacional contra uma suposta ameaça dos imigrantes, mas, quando chegam ao poder, implementam reformas que tornam o trabalho ainda mais precário para todo mundo.

Essa contradição se sustenta porque o apelo não é racional — é emocional.

Não importa tanto o programa político em si, mas como essas narrativas fazem as pessoas se sentirem: pertencentes, protegidas, parte de algo maior. O foco é a identidade, não a busca por uma coerência ideológica.

O Estado de bem-estar social diminuiu ao longo dos anos e criou vácuos que a extrema direita preencheu com promessas de proteção e privatização. Imagem: AFP Photo
O Estado de bem-estar social diminuiu ao longo dos anos e criou vácuos que a extrema direita preencheu com promessas de proteção e privatização. Imagem: AFP Photo

Extrema direita no Brasil e no mundo

A volta de Donald Trump à Casa Branca, confirmada nas urnas em 2024, e o desempenho histórico da AfD (Alternativa para a Alemanha), que terminou em segundo lugar na eleição federal alemã de 2025, são dois sinais de uma onda mais ampla de avanço da extrema direita na política internacional.

Diante desse cenário, autoridades e organismos multilaterais passaram a tratar o tema como um alerta global: na abertura da 58ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, realizado em 2025, o secretário-geral António Guterres afirmou que, “um a um, os direitos humanos estão sendo sufocados”, ao denunciar a pressão crescente de autocratas e forças políticas que atacam liberdades e garantias democráticas.

Em parte da Europa, aparece ligado à imigração e identidade nacional; nos Estados Unidos, combina polarização cultural, guerra informacional e desconfiança institucional.

Na América Latina, a extrema direita se mistura a frustrações com governos de diferentes matizes e a crises de representação: no Brasil, os ataques de 8 de janeiro de 2023 evidenciaram como a deslegitimação do resultado eleitoral pode transbordar para ações contra as instituições.

De Trump a Bolsonaro, a onda global de extrema direita se manifesta com o ataque a instituições democráticas e deslegitimação de adversários. Foto: Sergio Lima/AFP
De Trump a Bolsonaro, a onda global de extrema direita se manifesta com o ataque a instituições democráticas e deslegitimação de adversários. Foto: Sergio Lima/AFP

Há alternativas para combater o autoritarismo?

A pergunta que fica é inevitável: se o capitalismo tardio produz estruturalmente a extrema direita, estamos condenados a oscilar entre crises econômicas e guinadas autoritárias?

A história mostra que não há determinismo absoluto. Momentos de crise profunda também geraram respostas progressistas e democráticas. O New Deal nos Estados Unidos dos anos 1930, a construção do Estado de bem-estar social na Europa pós-Segunda Guerra, e diversos ciclos de conquistas trabalhistas ao redor do mundo emergiram após  períodos marcados por crises econômicas.

Hoje, há movimentos que defendem economia solidária, transição ecológica com justiça social, mais participação dos trabalhadores nas decisões, e serviços públicos fortes e universais.

Esses caminhos apontam saídas para além da lógica que alimenta tanto a crise quanto o autoritarismo. A questão aqui passa a ser se as alternativas serão capazes de mobilizar gente suficiente antes que esse ciclo de piora se aprofunde.

Enfrentar a extrema direita exige mais do que denunciar discursos de ódio ou repetir que “a democracia é importante”.

É necessário que façamos mudanças concretas: salários que deem conta, empregos mais estáveis, proteções sociais que funcionem e políticas que reduzam desigualdades e devolvam às famílias algum controle sobre o próprio futuro.

Por que a extrema direita cresce em tempos de crise?

Ao observar o avanço da extrema direita no Brasil e no mundo, fica mais claro que não se trata apenas de “opiniões radicais” ou de uma disputa cultural isolada.

O crescimento da extrema direita aparece com força justamente quando a sociedade entra em ciclos prolongados de instabilidade: custo de vida alto, trabalho mais precário, endividamento e um sentimento de que o esforço individual já não garante segurança.

No contexto do capitalismo tardio, crises deixam de ser exceção e passam a moldar o cotidiano. E, quando a política parece incapaz de oferecer proteção e futuro, discursos autoritários ganham aparência de solução rápida.

Como vimos, a extrema direita se aproveita desse vazio com um método conhecido: transforma problemas em culpados simples, alimenta a desconfiança em instituições, incentiva a polarização moral e vende a ideia de que “ordem” vale mais do que direitos.

Ao mesmo tempo, esse movimento costuma combinar a retórica “antissistema” com propostas que mantêm, e até mesmo aprofundam, as mesmas estruturas que produzem insegurança social.

O resultado é um ciclo vicioso e perigoso: a crise econômica alimenta o medo; o medo abre espaço para líderes punitivistas; e o autoritarismo enfraquece as ferramentas democráticas necessárias para enfrentar a crise.

REPORTAGEM DO ” BLOG ICL NOTÍCIAS” ( BRASIL)

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